José Goldemberg desconstrói ataque ao etanol de cana
O físico nuclear José Goldemberg voltou há poucos dias dos Estados Unidos. Foi fazer uma palestra em Denver, no National Renewables Energy Laboratory, o laboratório de energias renováveis do Departamento de Estado de Energia, e que desenvolve pesquisas com ventos, células fotovoltaicas e, naturalmente, biomassa.
Goldemberg, que coleciona longa trilha de cargos em universidades no Brasil e no mundo, e postos na esfera estadual e federal (já foi titular do ministério da Educação, secretário federal da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente, reitor da Universidade de São Paulo e presidente da CESP), falou entusiasmado sobre o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar. "O ataque atual aos biocombustíveis é fruto de um debate baseado em quatro mitos", pondera.
Na platéia estavam nove membros do conselho consultivo da instituição, do reitor da Universidade do Colorado ao chefe do laboratório de energia do MIT. O décimo membro, um não-americano pela primeira vez na história do laboratório, era o próprio palestrante. "O etanol é um ótimo combustível, o problema é o jeito de produzi-lo. O de milho, de fato, tem problemas", reconhece.
Aos 79 anos, no fim de 2007 Goldemberg foi eleito junto a Angela Merkel, Al Gore e Mikhail Gorbachev um dos "heróis do ambiente" pela revista Time, justamente por suas pesquisas com etanol. "O principal vetor de destruição da Amazônia não é o etanol, é o gado", diz. "A área dedicada à produção de biocombustíveis no mundo é 10 milhões de hectares; a área para agricultura é 1,2 bilhão de hectares. Os críticos perderam completamente o senso de proporção."
Valor: O senhor esperava este ataque ao etanol?
José Goldemberg: Estou surpreso. Só pode ser a reação de lobbies fortes e me admira que alguns ambientalistas tenham caído nisso. Está havendo uma ofensiva violenta dentro dos Estados Unidos contra a utilização de etanol feito do milho e isto acaba tendo reflexos na produção do etanol de cana. São processos diferentes, mas estão sendo colocados no mesmo barco.