Governo ameniza ameaças a arrozeiros
Depois de um dia de incertezas sobre a intenção do governo federal de restringir as exportações de arroz pela iniciativa privada, o Ministério da Agricultura anunciou na quinta-feira, após reunião com representantes do segmento, o início dos leilões dos estoques públicos do produto. O primeiro pregão será no dia 5 de maio, com a oferta de 55 mil toneladas de arroz tipo 1 a R$ 28 a saca de 50 quilos, valor 13,8% inferior ao preço de fechamento de R$ 32,48 apurado no Rio Grande do Sul pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP.
Segundo Camilo de Oliveira, analista do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), o volume é insuficiente para deter a alta dos preços, que chega a 39,3% desde o início do mês. "Já há contratos sendo fechados a R$ 35 a saca para pagamento entre agosto e novembro". Segundo ele, as indústrias do Sudeste e do Centro-Oeste são as que mais estão precisando se abastecer, e para segurar os preços o governo teria que disponibilizar volumes maiores nos próximos leilões.
Francisco Schardong, coordenador da comissão de arroz da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e presidente da comissão setorial nacional do arroz, disse que os produtores saíram "tranqüilos" da reunião no ministério. Segundo ele, o primeiro leilão oferecerá produto da safra 2004/05, de qualidade inferior à do que está sendo comercializado agora, e não terá força para reduzir os preços que vêm sendo puxados pelo mercado internacional. As cotações atuais, disse, estimulam o plantio em 2008/09.
O temor dos produtores era que o governo taxasse as exportações privadas, depois que o ministro Reinhold Stephanes chegou a admitir, durante o dia, a adoção de "medidas mais rigorosas" se não houvesse acordo para conter os embarques. Na véspera, o ministro já havia anunciado a suspensão das vendas externas dos estoques públicos nos próximos seis a oito meses para garantir o abastecimento interno.
A possibilidade de o governo truncar as exportações privadas gerou calafrios em Fábio Meirelles, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e recém-reeleito presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp). "Uma medida radical como essa não pode ser adotada sem uma profunda discussão com a cadeia produtiva", disse.
Em comunicado divulgado após o encontro de quinta-feira, Stephanes afirmou que os leilões deverão ser semanais. Ele garantiu que o Brasil não enfrenta riscos de desabastecimento e que o país teria condições de exportar até 1,5 milhão de toneladas. O ministro ressaltou que "há muitos anos" o país não adota políticas de taxação, mas reconheceu que, "no extremo, poderíamos ter que adotar barreiras, mas isso ainda não existe porque temos estoques nas mãos do governo, do setor privado e grandes fornecedores de arroz que industrializam e distribuem o produto no Brasil [ver tabela acima]".
O ministro não voltou a ameaçar as exportações de milho com uma possível taxação, mas para analistas a medida seria inócua devido à aquecida demanda mundial. "Com a oferta atual, também não há justificativa para isso", afirmou Paulo Molinari, da Safras&Mercado. (Colaborou Fernando Lopes, de São Paulo)