Algodão retoma com força no sudoeste
Quase três décadas depois da derrocada do algodão no Vale do Iuiú, em Guanambi (798 km de Salvador), o “ouro branco” ressurge forte e imponente, conferindo qualidade num tom alviverde nas pequenas propriedades rurais.
A colheita da safra 2007/2008 já está chegando ao final e os primeiros resultados apontam um volume médio de 120 arrobas de caroço de algodão por hectare, bem acima das 80 arrobas previstas pelos pesquisadores da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA).
A média de colheita nos três hectares de cada uma das 700 famílias de agricultores familiares assistidas pelo órgão passou de 240 para 360 arrobas, uma das mais significativas nos últimos 30 anos para a maioria dos cotonicultores.
Multiplicando pelos 2,1 mil hectares totais, chega-se a 252 mil arrobas.
Festa na pequena casa do agricultor João Batista Magalhães Silva, que, até pouco tempo, pensou em desistir e abandonar a lavoura de três hectares de algodão na zona rural de Mutans, (a 24 km de Guanambi) devido aos sucessivos prejuízos.
Silva calcula uma produtividade igual ou superior a 180 arrobas por hectare. “Aqui estamos colhendo o algodão mais bonito que eu já plantei em toda a minha vida”, festeja, enquanto percorre a plantação auxiliado pela mulher, Marilene Neves Magalhães.
“A gente acaba uma colheita e já vai se preparando para a segunda apanha. Parece que agora a coisa vai funcionar do jeito que a gente sempre quis”, completa.
A proposta é afastar a figura do intermediário, que adquiria o produto a baixo custo, vendia para a usina que, por sua vez, atendia ao setor têxtil.
BIODIESEL – O preço da arroba (15 kg) oscila entre R$ 12 e R$ 15.
Uma vez beneficiada, a arroba em pluma chega a R$ 45. No processo, até o caroço do algodão, relegado a segundo plano, figura como co-protagonista. O subproduto adquire importância à luz do “boom” do biodiesel.
O resgate da cultura que gerou riqueza, progresso e projetou a região como a primeira produtora do Nordeste do País, no final da década de 80, com 330 mil hectares plantados, é creditado ao Programa do Algodão do Vale do Iuiú, implantado em 2002 pela EBDA, órgão vinculado à Secretaria da Agricultura (Seagri).
Com esta nova fase, o programa está conseguindo quebrar esta relação comercial vigente.
Agora o agricultor produz, beneficia e vende a pluma para o mercado têxtil do País. O programa abrange 2,1 mil hectares de algodão plantados em Iuiú, Malhada, Palmas de Monte Alto, Guanambi, Pindaí, Urandi, Brumado e Livramento de Nossa Senhora, municípios da região sudoeste e do Médio São Francisco.
REVÉS – Um dos coordenadores do programa, agrônomo Ernesto Ledo, explica que a intenção inicial era capitalizar o pequeno agricultor, que sofreu um revés na safra de 1997, após chuvas torrenciais naquele ano. “Ele ficou descapitalizado, deixou de plantar algodão e de ter acesso ao mercado de consumo”.
De volta à cadeia produtiva do algodão, os produtores passarama receber orientações técnicas da EBDA. O que era apenas um suporte para a quebra de safra de um período ganhou corpo e já é visto como a revitalização do algodão no Vale do Iuiú, representando geração de emprego e renda para os agricultores da região, castigados com a falta de incentivos para a cultura.
Durante o andamento do projeto, as ações alcançaram cerca de sete mil pessoas. O agrônomo disse que a novidade é o fato de o pequeno produtor passar a ser senhor da sua produção.
“Isto é, depois de produzir o algodão, ele vai beneficiar o produto e comercializar a fibra, deixando de ser um produtor primário de algodão em capulho (caroço)”, enfatizou Ledo.
Outra novidade nesta safra foi a formação, pelos próprios agricultores, do Grupo Gestor, que gerencia o processo de beneficiamento e comercialização. É constituído por dois produtores representando cada um dos oito municípios e um coordenador, este da EBDA, conforme sugestão dos produtores.
APOIO – Os benefícios às famílias inseridas no programa são diversos, incluindo plantio, acompanhamento da produção e colheita, transporte gratuito etc. Para tanto, a EBDA, com colaboração da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu o que se convencionou chamar de “pacote tecnológico”.
Trata-se do preparo do solo diferenciado, por meio da subsolagem, quebrando a camada compactada – que impede o desenvolvimento das plantas – entre 20 e 25 cm de profundidade. O pacote prevê o uso de sementes de excelente qualidade, fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura, com variedade adaptada à região e que possa produzir bem com a tecnologia do agricultor.
Além disso, fertilizantes ecologicamente recomendados e defensivos modernos com reduzido poder de agressão ao meio ambiente e ao produtor, assim como equipamento de proteção individual, pulverizador costal, manual, de 20 litros, para as pulverizações, além de pluviômetros de leitura direta para o monitoramento da chuva em cada unidade produtiva.
TRABALHOS – Com 28 máquinas em campo, distribuição de 210 toneladas de fertilizantes e 28 mil toneladas de sementes pela EBDA, o plantio teve início nos oito municípios inseridos no Programa do Algodão.
Os trabalhos passaram a ser intensificados no campo imediatamente após o cumprimento dessas etapas, como a análise do desenvolvimento das plantas e prestação de assistência técnica aos agricultores, por meio das 24 Unidades Experimentais e de Demonstração (UEDs).
As UEDs são bases físicas nas comunidades que funcionam como escolas, onde os agricultores colocam em prática os ensinamentos sobre cada etapa do ciclo cultural.
O agrônomo Ledo diz que a intenção é realmente retomar a força da cultura, mas adota cautela nesse sentido. “É preciso entender que o produto algodão é uma commodity, regida por preço de mercado globalizado. Então, por melhores intenções que governo e agricultor tenham, não determinam tudo”, frisa.A semente de algodão indicaa aos agricultores é da variedade BRS Aroeira, testada em anos anteriores na Estação Experimental da EBDA no Vale do Iuiú. Foi a variedade que mais se destacou em produtividade na região.