Assentamentos: aprender e colher
Com o objetivo de diversificar e ampliar a produção agrícola de dois assentamentos no extremo sul do Estado, há dois anos, pesquisadores da Embrapa de Cruz das Almas estão desenvolvendo o projeto Inserção e Competitividade da Agricultura Familiar do Extremo Sul no Agronegócio da Mandioca e do Abacaxi.
O projeto vem sendo desenvolvido no assentamento São Miguel, em Santa Cruz Cabrália, e Lajedo Bonito, em Guaratinga.
No São Miguel, criado há mais de 20 anos, vivem 86 famílias em 2.807 hectares; em Lajedo Bonito, há nove anos, vivem 52 famílias em 970 hectares.
A socióloga Maria das Graças Sena, da Embrapa de Cruz das Almas, realizou uma visita aos dois assentamentos na última semana.
Segundo informou ela, as visitas fazem parte de projeto de agricultura familiar. “Estou indo para ouvir os assentados, conhecer a realidade deles. Fazendo um diagnóstico da realidade, sempre com a participação dos trabalhadores. Durante todo o projeto, eles identificaram os avanços e os retrocessos”, explicou Sena.
POTENCIAL – Maria das Graças Sena explica que o projeto básico para todos os assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é a criação de gado leiteiro e o plantio de mandioca. Não é realizado um estudo para avaliar as demandas e o potencial das regiões onde o assentamento será implantado.
“Não podemos chamar esse projeto-padrão de agricultura familiar”, avalia a socióloga.
No assentamento Lajedo Bonito, por exemplo, o trabalhador rural Davi Oliveira explica que a maioria das famílias do assentamento está vendendo o gado leiteiro.
“O primeiro financiamento veio para a compra de gado, mas não temos mercado para compra de leite e derivados. Eu produzia queijo, mas não conseguia vender”, revelou Oliveira.
Para o trabalhador rural, se não for implantado um sistema de agricultura familiar na área, o assentamento não dará certo.
“Nosso maior problema hoje é a venda de lotes. Muitas famílias estão desistindo. Até agora, não conseguimos nenhuma agricultura para retirar nossa sobrevivência”, disse o trabalhador.
Com a orientação dos pesquisadores ligados ao projeto da Embrapa, as famílias do Lajedo Bonito criaram uma área coletiva para produção de mandioca, abacaxi e banana.
“Com o incentivo deles, iniciamos a produção de mandioca na área coletiva do assentamento.
Hoje, são 30 tarefas de mandioca numa área que antes não produzia nada”, comemora Adeilton Alves da Rocha, presidente da PA Lajedo Bonito, associação criada pelos assentados.
ORIENTAÇÃO – O projeto da Embrapa envolve diagnóstico dos principais problemas dos assentamentos, com a participação dos assentados. O projeto prevê o estudo do mercado, orienta sobre o custo da produção e a técnica sobre o plantio.
“Aprendemos como aplicar herbicidas para o plantio de abacaxi.
Agora estamos propagando o que aprendemos”, explicou o trabalhador rural Samuel Lopes dos Santos, do assentamento São Miguel, em Santa Cruz Cabrália.
Para a pesquisadora Arlene Oliveira, da Embrapa, nos dois grupos, as questões de organização continuam emperrando os avanços do desenvolvimento.
Com a orientação da equipe da Embrapa, os assentados do São Miguel já diversificaram a produção com o plantio de abacaxi, explicou Santos.