Brasil não consegue cumprir cota Hilton
A cobiçada Cota Hilton não será cumprida pelo Brasil este ano e talvez nem no próximo, admitem fontes de frigoríficos. O Brasil tem um volume de 5 mil toneladas da cota de cortes nobres destinada ao mercado europeu que deve ser negociada entre o período de 1º de julho e 30 de junho. Mas na cota 2007/2008, os frigoríficos brasileiros conseguiram exportar até agora apenas entre 2,6 mil toneladas e 2,7 mil toneladas, ou seja, pouco mais da metade do volume a que têm direito, conforme apurou o Valor junto a exportadores.
Pequenina para o Brasil, a cota é cobiçada porque é garantia de venda de um produto nobre, valorizado, com imposto de importação de apenas 20%, enquanto sobre as vendas de carne fora da cota incidem imposto de importação de 12,8% mais 3.041 por tonelada.
O empecilho para o Brasil cumprir a cota é a própria União Européia que impôs restrições à carne brasileira no começo do ano alegando problemas na rastreabilidade do gado bovino. Após o episódio, apenas uma lista restrita de propriedades certificadas - hoje o número é de 84 fazendas - pode fornecer animais para abate para produção de carne para o bloco. Isso limitou as exportações de carne em geral e afetou sobremaneira as vendas dentro da cota Hilton, na qual os cortes seguem determinados padrões.
A verdade é que o Brasil praticamente não exportou mais volumes da cota desde as restrições européias e conseguiu comercializar os cortes apenas entre o período de 1º de julho de 2007 e janeiro deste ano. "No começo do ano, os frigoríficos aceleraram os embarques da Hilton para aproveitar a cota", diz uma fonte da indústria. Mas isso não foi suficiente para cumpri-la, e o fato é que as empresas estão perdendo a oportunidade de vender cortes de alto valor agregado com imposto menor.
Para se ter uma idéia, hoje a Argentina tem vendido cortes de "rump loin" (alcatra, contrafilé e filé) a US$ 20 mil por tonelada dentro da cota Hilton, de acordo com a mesma fonte. O volume do país vizinho na cota é de 28 mil toneladas. Fora da cota, os preços acabam sendo mais baixos por conta dos impostos maiores. Estima-se que hoje os preços na cota sejam 50% superiores aos do extra-cota.
Sem poder cumprir a Hilton, os exportadores brasileiros aventaram a possibilidade de pedir à UE que transfira os volumes não vendidos dentro do período 2007/2008 para o período 2008/2009, que começa no próximo dia 1º de julho. Isso foi permitido para a Argentina, em 2002, depois que o país teve suas exportações de carne para a UE proibidas em função de casos de aftosa. Mas a incerteza sobre o tamanho da oferta de matéria-prima também em 2009 no Brasil deixou em suspenso a idéia de pedir a "transferência" da cota. O consenso é que para que o país consiga cumprir seu quinhão da Hilton em 2008/2009, a lista de fazendas habilitadas a fornecer animais para abate para a UE precisa crescer, o que ainda não está ocorrendo.
O cenário atual desfavorece todas as empresas que exportam carne bovina ao mercado europeu. A razão é que todos os frigoríficos habilitados a exportar para a UE têm inicialmente direito a 24 toneladas do total da cota Hilton - o aumento do volume de cada um depende de sua performance.
Outros sete países podem fornecer atualmente cortes nobres dentro da Cota Hilton, que ganhou esse nome por causa da cadeia de hotéis americana. Quando se instalou na Europa nos anos 1950, a rede hoteleira queria servir em suas unidades no continente cortes de carne bovina com o mesmo padrão que servia nos Estados Unidos. Por isso credenciou alguns países produtores, como Austrália, Nova Zelândia, Argentina, EUA, Canadá e Uruguai, para fornecer o produto.
Hoje a cota não tem mais relação com a rede de hotéis, mas seu nome foi mantido. O volume foi negociado no início dos anos 80 junto com a Rodada Uruguai do Gatt, como uma compensação da UE a alguns países que tinham histórico de venda à região.