Retomada dos embarques para o bloco é tarefa difícil

28/05/2008

Retomada dos embarques para o bloco é tarefa difícil


 


A União Européia recebeu a sinalização do Brasil de que o país pretende retomar até o fim do ano exportações de 140 mil toneladas de carne bovina para o mercado comunitário, revelou ontem ao Valor o diretor de Saúde Animal da UE, Bernard Van Ghoethem, durante a 76ª Sessão Geral Plenária da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). Para isso, a UE aguarda, dentro de duas a três semanas, uma lista mais ampla de fazendas habilitadas a fornecer animais para abate, cuja carne será destinada a seu mercado. E a expectativa é que o número de propriedades cresça regularmente, a cada três semanas. 

Mas as cifras citadas pelo próprio europeu mostram que será difícil retomar os volumes exportados - o governo brasileiro reduziu a lista de fazendas, inicialmente em 106, para 84 atualmente. São 100 mil cabeças de gado e só uma parte delas é para abate destinado ao mercado externo. 

O secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Inácio Kroetz, que também está em Paris, confirmou a intenção de chegar ao fim do ano com o mesmo volume de exportação de dezembro de 2007, mas admitiu ser necessário "boi demais". 

"O grande problema hoje é encontrar fazenda interessada em exportar e que esteja em conformidade com as exigências", afirmou. "Está faltando boi, o preço no Brasil está mais caro que nos Estados Unidos". Kroetz observou que os fazendeiros acham que ganham pouco para cumprir todas exigências da União Européia em relação à rastreabilidade do gado bovino. 

Atualmente, a exportação brasileira de carne bovina para o bloco é quase virtual, já que o número de fazendas habilitadas a fornecer animais para abate é pequeno. 

Em entrevista à margem da conferencia anual da OIE, Bernard Van Goethem adotou um tom positivo que há tempos não se ouvia de alguém de Bruxelas. "A carne bovina brasileira é bem-vinda na Europa, e o consumidor europeu espera com certeza que volte a mesa", disse ele. "Mas é preciso não só a vontade do governo de aumentar a lista das fazendas autorizadas a exportar, como o desejo dos fazendeiros de querer entrar no sistema de rastreabilidade e que os certificadores os incitem a isso". 

Van Goethem observou que a UE não é responsável pelas listas, e que Bruxelas tem " inteira confiança" nas autoridades brasileiras. "Elas enviam a lista, nós a publicamos e a exportação estará autorizada. Não haverá inspeção preliminar [da lista pela UE no Brasil], faremos talvez uma inspeção no fim do ano", garantiu. Uma missão veterinária européia estava prevista para maio ou junho, mas ele reiterou que não está definida a data e independe da ampliação da lista. 

"Já estivemos muito no Brasil nos últimos meses, o programa de treinamento de auditores teve impacto importante e temos toda confiança nas autoridades para vir com listas muito mais amplas", reiterou o diretor de Saúde Animal da União Européia. 

Ele admitiu que Bruxelas poderá logo ampliar a lista de Estados habilitados, com base na decisão da OIE, oficializada hoje, que restabeleceu o status de livre de aftosa com vacinação a 10 Estados brasileiros e o Distrito Federal. Atualmente, apenas seis Estados podem exportar para a UE. "O importante é que o boi permaneça três meses no Estado e 45 dias na fazenda antes da exportação, não importa se antes veio do Paraguai ou do Mato Grosso do Sul [que não obteve o reconhecimento sanitário na OIE]", exemplificou. 

Para Van Goethem, a decisão da OIE é prova de que o Brasil trabalhou bem nos últimos tempos para erradicar a febre aftosa, contando também com cooperação dos países vizinhos. "É um reconhecimento internacional do que se faz no Brasil", disse. "Isso vai ter influência positiva no espírito das pessoas para o futuro, que vão dar mais credibilidade a toda a cadeia alimentar no Brasil, do fazendeiro, aos municípios, Estados e o sistema federal".