Cotonicultor pode deixar de honrar contratos antecipados

29/05/2008

Cotonicultor pode deixar de honrar contratos antecipados


 

A alta nos custos de produção de algodão poderá fazer com que os produtores deixem de honrar os seus contratos antecipados. Tradicionalmente, a lavoura é comercializada até três anos antes do plantio. A estimativa é que pelo menos 65% da colheita atual e 30% da safra 2008/09 tenham sido comercializadas antes do plantio, a preços que não estariam cobrindo os gastos. Por isso, analistas acreditam que a área cultivada na próxima safra caia até 20%. Será a segunda safra consecutiva com redução no plantio.
"Muitos produtores vão plantar apenas o que está comprometido", diz Miguel Biegai Júnior, da Safras & Mercado. E, segundo ele, outros poderiam fazer o chamado "washout" (recompra das posições), cultivando outra cultura no lugar da fibra. Alguns analistas acreditam, inclusive, que o fenômeno, que não ocorria desde a safra 2003/04, já comece a ser sentido nesta colheita. "Todo mundo que fez negócio com antecencia não foi feliz. Essa discussão vai começar no início de julho, quando as exportações tiverem de ser entregues", afirma Antônio Carlos do Rego Freitas, da Horus Consultoria. Ele explica que o produtor pode entregar uma parte do volume contratado neste ano e escalonar o restante para outras safras ou pagar a diferença entre o de preço de venda e de mercado.
Para evitar o não-cumprimento dos contratos, o governo já começou a intervir no mercado. Realizou um primeiro leilão de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) na semana passada - de 341,3 mil toneladas - e, na próxima, deve ocorrer mais um.
Segundo Freitas, alguns traders já começaram a colocar no mercado interno produto da safra passada que iria para a exportação, reduzindo ainda mais o preço. Ele lembra que, considerando o preço médio de venda da colheita atual e o câmbio, o valor fica abaixo do custo. "Quando ele vendeu, não esperava que com a alta dos preços das commodities viesse, na garupa, o aumento dos insumos", argumenta.
Para Biegai Júnior, o maior risco de washout é na safra futura que nesta, pois há a intervenção do governo. Biegai Júnior lembra que muitos produtores devem optar pela soja, cultivando-a na área de algodão sem a necessidade de adubo e, assim, reduzindo seus custos. "Se a cultura não for rentável, o produtor migra para outras. Ele vai fazer as contas e ver qual vale mais a pena", diz Haroldo Rodrigues da Cunha, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Segundo ele, muitos dos contratos negociados antecipadamente estão saindo por volta de R$ 30 a arroba, para um custo estimado em R$ 47,50. Cunha não tem estimativa de quanto da safra atual ou da futura poderá ter washout. "Nesta safra não acredito que a gente vai ter uma grande número de negociações para o não-cumprimento. O que nos preocupa é em relação ao ano que vem porque não temos garantia de que os programas de suporte do governo continuem".
A safra atual somou, esta semana, 3,6% de colheita e a expectativa de mercado é que, à medida que avance, os preços caiam. Isto porque aumentará a oferta e, aliado a isto, houve redução nos valores dos contratos futuros na Bolsa de Nova York e o real continua se valorizando.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Neila Baldi)