Fisgando oportunidades
Das águas do Açude Jacurici, localizado no povoado de Camandaroba, região de Itiúba (391 km de Salvador), 27 famílias vivem não apenas da pesca tradicional, mas também em cativeiro, com produção de tilápia criada em 112 tanques-rede.
A produção é comercializada na região, mas uma novidade mudou a rotina da comunidade.
A partir de um curso ministrado por técnicos do Grupo Gestor do Sebrae, os pescadores da região de Itiúba aprenderam a defumar, rechear um peixe e até a fazer produtos como lingüiça ou presunto a partir da carne de peixe.
“A atividade movimenta a economia local, beneficia a população com melhoria da renda familiar e ainda ajuda cerca de 2.200 famílias carentes, que recebem o peixe gratuitamente”, ressalta o coordenador do Grupo Gestor do Projeto, Adaucy Gonçalves.
No ano passado, os pescadores de Camandaroba conseguiram retirar dos tanques-rede 31 toneladas do peixe, vendido para as cidades circunvizinhas. A criação de tilápia é a principal fonte de renda da comunidade, com lucro, em 2007, de aproximadamente R$ 120 mil.
Todavia, com dois ciclos anuais, os pescadores ainda tiveram de encarar um prejuízo de 42 toneladas, resultado da cheia do açude que, segundo os produtores, baixou muito a temperatura da água, provocando a perda de parte da produção de tilápias – apenas cinco toneladas foram aproveitadas.
“Fomos obrigados a conseguir custeio junto ao banco e, na segunda etapa da produção, retiramos 26 toneladas. Este ano, já chegamos a 50 toneladas, que vão estar disponíveis para a venda de junho e dezembro”, informa o presidente da Associação de Piscicultores de Camandaroba, José Barbosa.
EM BOA HORA – Para Cristina Barbosa de Souza, 24 anos, que vem de uma família de nove irmãos, todos vivendo da pesca, atividade que aprenderam com os pais, a oportunidade de beneficiar a carne do peixe, que, até então, cozinhava, fritava ou assava, chegou mesmo em boa hora.
“Foi bom e vai servir para melhorar a situação de toda a família.
Eu só sabia como fazer o filé, mas o resto é tudo novidade”, afirma. Para as mulheres pescadoras, a importância está em saber sempre mais para ter como criar mecanismos para melhorar a renda familiar. E com atenção totalmente voltada para as palavras do instrutor, elas colocaram a mão na massa e passaram cinco dias sem pescar, mas aprendendo receitas de peixe.
Para o técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Mozart dos Santos Reis, os ensinamentos se transformavam em música tocada para ouvidos treinados em sons que não deixavam a palavra “peixe” fora da letra. “Com público tão interessado, as aulas fluíram com facilidade”, comemora Reis.
ORGANIZADOS – Existem quatro associações de pesca em cativeiro só na região de Camandaroba (Itiúba), que, juntamente com Cansanção (370 km de Salvador), município vizinho, registrou, no ano passado, produção de 155 toneladas. Os pescadores estão organizados e fazem parte hoje de um projeto que busca a melhoria de vida com geração maior de renda para as famílias.
As associações perceberam que podem, unidas, trabalhar para que cada um tenha sustentabilidade a partir do resultado de um projeto que tem diversos parceiros empenhados.
“Cada família é responsável por quatro tanques, com produção de 500 kg de peixe por tanque.
A idéia é fazer com que a produção aumente e cada uma possa manter a produção de 12 tanques”, diz o engenheiro de pesca e consultor do Sebrae, Rodolfo Cavalcante Domarco.
A atividade em cativeiro, frisa, é mais uma forma de assegurar fonte de renda. Segundo a Superintendência de Recursos Hídricos, o açude Jacurici, usado para a criação de tilápias, tem 14,5 km de extensão linear e faz parte do projeto implantado na região pelo Grupo Gestor (Sebrae, Departamento Nacional de Obras Contra a Seca, Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Itiúba, EBDA, Banco do Brasil e prefeituras de Itiúba e Cansanção.
O pescador José Barbosa acredita que, mesmo com algumas dificuldades ainda presentes, a vida da comunidade de Itiúba mudou bastante. “A criação do peixe foi fundamental para garantir renda ”. A intenção de ampliar a produção a partir da aquisição de uma câmara fria possibilitará a conservação e armazenamento do pescado.
MUDANÇAS – Cursos e palestras sobre associativismo e cultura da cooperação, missões técnicas e consultorias tecnológicas foram viabilizados para as famílias de pescadores. A estimativa do Grupo Gestor do Sebrae é a de que, nos próximos dois anos, os tanquesrede cheguem a 850, com possibilidade de produção de 440 toneladas por ano.
A produção atual segue para feiras e mercados dos municípios de Itiúba, Cansanção, Monte Santo, Jacobina, Serrinha, Queimadas e Andorinhas, além da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que faz a distribuição do peixe para famílias carentes da região.