Mais crédito e controle das exportações

18/06/2008

Mais crédito e controle das exportações

 

Para o Brasil, o grande desafio da crise dos alimentos – inflação que ronda as commodities agrícolas – é o equilíbrio entre o mercado consumidor interno e o aumento das exportações, puxado pela alta do consumo mundial. Especialistas garantem que o país está longe de ser afetado e que não vai haver crise de desabastecimento de produtos como arroz e feijão, já que o Brasil é auto-suficiente, apesar de os preços terem subido 22% só em maio no caso do arroz, e 150% em menos de um ano com o feijão.

Hoje, o Brasil produz 12 milhões de toneladas de arroz e 3,5 milhões de toneladas de feijão, quantidades muito próximas das consumidas pelos brasileiros. O pouco que falta, como o arroz, o país importa da Argentina e do Uruguai.

Mas, na avaliação do pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alcido Wander, o governo precisa recorrer a estratégias para conter um possível desajuste, principalmente porque o agricultor tenta recuperar por meio das exportações – os preços lá fora estão altos – o prejuízo de anos.

Agricultura familiar

Especializado em socioeconomia, Wander explica que o governo deve restringir mais as exportações como alternativa para proteger o consumidor doméstico, e isto vai permitir a redução dos preços no curto prazo.

Ao mesmo tempo, precisará investir em uma política compensatória para o agricultor familiar, que é a base da agricultura brasileira.

– Ampliar crédito para agricultores pode ser alternativa para não prejudicar a receita destas empresas, que terão de limitar as vendas externas. Inúmeros países fazem isso, por que não podemos fazer o mesmo? – questiona o pesquisador.

No caso do arroz, as empresas familiares respondem por dois terços do volume nacional produzido. No feijão, este percentual é de 30%.

O presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Renato Maluf, concorda que a possibilidade de desabastecimento é remota, principalmente por causa da estrutura produtiva do país.

Para o executivo, "o Estado deve evitar o retrocesso de avanços já conseguidos, como o reajuste do Bolsa Família", destaca.

Outras proposições importantes sugeridas pelo Consea, diz Maluf, é a reconstrução da política nacional de abastecimento, que inclui recompor a formação de estoques e monitorar o comércio.

– A crise dos alimentos demonstrou que o comércio internacional não é fonte confiável da soberania alimentar – ressalta.

Para Maluf, o Estado tem papel central no abastecimento e na alimentação: "É fundamental criar políticas públicas para garantir preços, estoques regulados e fiscalizar o controle dos grandes distribuidores, varejistas e supermercadistas que controlam esse mercado", reforça.