Na crise, oportunidade para o Brasil

18/06/2008

Na crise, oportunidade para o Brasil

Especialistas alertam para os gargalos que impedem o país de duplicar a produção em 10 anos

 

Longe de ser um problema insolúvel para o Brasil, a alta mundial dos preços das commodities constitui-se numa oportunidade de ouro para o país aproveitar seu potencial de maior produtor mundial de alimentos. Mas é necessário adotar medidas relativamente simples para eliminar gargalos portuários no escoamento da produção e desonerar as importações de fertilizantes. Cumpridos estes "deveres de casa", o país, já auto-suficiente na produção de alimentos exceto o trigo, poderia duplicar o volume da safra de grãos em menos de 10 anos. Em produtos como carne bovina, frango, café e suco de laranja, o país já é o maior produtor mundial.

Estas são conclusões de dois especialistas ouvidos ontem pelo JB, o superintendente técnico da Confederação Nacional de Agricultura, Ricardo Cotta, e o economista Mauro de Rezende Lopes, do Centro de Estudos Agrícolas da Fundação Getúlio Vargas.

– Não temos como resolver isto da noite para o dia, mesmo tendo todas as vantagens comparativas. Talvez nenhum outro país do mundo tenha tanta capacidade de expansão da produção agrícola. Toda esta crise, no Brasil, tem que ser encarada muito mais como uma oportunidade do que como um problema – diz Ricardo Cotta

O superintendente da CNA ressalva, entretanto, que o cenário pressupõe uma série de deveres de casa para que o país aproveite a oportunidade: "Sem estes deveres de casa não aproveitaremos o cenário fantástico".

O primeiro dever, segundo ele, é a questão da infra-estrutura portuária.

– Já vivemos um apagão logístico no Brasil, especialmente nos portos, um apagão portuário. O que gastamos anualmente com multas por atrasos de navios neste país daria pra duplicar a infra-estrutura portuária em um ano. São multas enormes por navios parados por falta de calado, por greves sucessivas e encadeadas de fiscais do governo – reclama e continua: – Recentemente, fizemos uma reunião no Congresso com construtoras, prestadoras de serviços portuários, e reunimos um potencial imediato para investimentos de US$ 15 bilhões, 10 vezes mais do que o PAC tem alocado para o setor portuário. Então, não é dinheiro que falta, o que está faltando é regulamentação. O setor privado está ávido para investir.

Fora disso, Cotta entende que é necessário reduzir os custos de defensivos e fertilizantes, como anunciou o governo. Acrescenta que inevitável a introdução de genéricos no mercado para aumentar a concorrência e baixar preços.

Estes preços, segundo o professor Rezende Lopes, praticamente triplicaram nos últimos 12 meses. E o país importa entre 60% e 85% de suas necessidades desses insumos.

Cotta lembra que estes custos são ainda mais elevados em vista do que considera absurdo, um adicional de 25% que incide sobre o valor dos fretes de importação, a título de contribuição para renovação da Marinha Mercante. Assim, uma parte dos deveres de casa, nesta área, seria a extinção pura e simples desse adicional, ao menos para fertilizantes.

– Resolvidos estes problemas, o país teria condição de pelo menos dobrar sua produção em menos de 10 anos. Mas, se tudo continuar como está, não conseguiremos aumentá-la nem em 10% – concluiu.

Rezende Lopes destaca que, como até agora Brasil e Argentina sustentavam boa parte das importações internacionais de alimentos, a saída da Argentina do mercado supridor, devido a uma série de equívocos do governo Cristina Kirchner, acirra a demanda em geral, provocando alta de preços também no Brasil. Ele explica que o Brasil já incorreu nos mesmos erros no passado, originando grande desestímulo à produção.

– Esta política de limitação de exportações com sobretaxas, lá chamadas retenciones, que chegam a 44%, é muito perniciosa para os próprios produtores do país, numa hora em que os preços internacionais têm que refletir a escassez.

Proteção social

O economista da FGV reconhece que a alta de preços prejudica mais intensamente as camadas mais pobres, com o índice de preços para faixas até 2,5 salários mínimos chegando a 8,2%.

Neste caso, conclui, só há uma saída: é o reforço da rede de segurança social do Bolsa Família. Mas mexer no mecanismo de preços nesta hora seria um erro gravíssimo.

– O preço tem que controlar a oferta. Não somos mais um paizinho. Temos exportações que são indispensáveis para todo o mundo. Se mexermos nisso, vai ser um problema e pode haver até desforço físico, como está ocorrendo na Argentina agora.