Mercado de aguardente espera um novo 'boom'
Segundo César Rosa, diretor do Ibrac, o mercado de aguardente teve o seu pico de consumo em 2002, mas recuou
Com forte tradição, o mercado de aguardente tem seu público cativo no país. O mesmo não ocorre fora das fronteiras nacionais, uma vez que o avanço é bem tímido, motivo de frustração entre os maiores defensores da cachaça -, bebida tipicamente brasileira e orgulho nacional, assim como o álcool combustível.
Mas, na prática, os segmentos de álcool combustível e aguardente, que em comum disputam a mesma matéria-prima, a cana-de-açúcar, vivem momentos bastante distintos. Enquanto as usinas de álcool experimentam um forte movimento de expansão, dentro e fora do país, por conta da crescente demanda pelo combustível renovável, os produtores de aguardente trabalham para manter as vendas no mercado interno e se desdobram para fazer da cachaça uma commodity internacional.
Restrito a 1 bilhão de litros anuais, o mercado de aguardente está estagnado há pelos menos seis anos, segundo César Rosa, diretor do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac). "O pico do consumo de cachaça ocorreu em 2002, quando atingiu 1,2 bilhão de litros", diz. A produção de álcool combustível baterá 27 bilhões de litros nesta safra.
Então, por que os produtores se mantêm nesse setor? Porque é lucrativo, afirma Rosa, que também preside a Indústria Reunidas de Bebidas Tatuzinho-3 Fazendas (IRB), dona das marcas Velho Barreiro e Tatuzinho. Os custos de produção para o álcool combustível e o aguardente são praticamente os mesmos. Mas, enquanto boa parte das usinas amarga margens negativas nesta safra por conta da abundância de matéria-prima, os produtores de cachaça têm margens de no mínimo 30%. Isso, se for considerado a produção de aguardente convencional. A cachaça artesanal tem margens estratosféricas, dependendo do tempo de envelhecimento da bebida. O preço da pinga convencional está em torno de R$ 2,80 no varejo. A artesanal sai em torno de R$ 12, mas pode chegar a R$ 300 a garrafa.
Pulverizado, assim como o setor sucroalcooleiro, o segmento da cachaça conta com cerca de 40 mil produtores no país. "A aguardente perdeu espaço para outras bebidas, como cerveja e outros destilados, com o aumento da renda da população", diz Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar). Boa parte das usinas associadas à Unica foi originalmente produtora de aguardente. Hoje, são poucas as unidades associadas que produzem cachaça.
Do total de cana colhida no Brasil, menos de 2% são voltadas à fabricação de aguardente. Rodrigues estima que cerca de 10 milhões de toneladas de cana, 70% em São Paulo, são destinadas à produção de aguardente. A produção nacional de cana está estimada em torno de 550 milhões de toneladas.
O mercado de aguardente movimenta cerca de R$ 3,3 bilhões por ano, mas somente o segmento de pinga artesanal cresce. Esse setor representa de 15% a 20% da produção total, afirma Rosa. O percentual é contestado no mercado. Segundo Alexandre Vagner da Silva, presidente da Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade (Ampaq), o mercado de aguardente de qualidade chega a responder por até 40% da produção total no país. O mercado informal de pinga também prejudica o setor.
Com o consumo estagnado no país, as exportações brasileiras da bebida também não deslancham. "As exportações representam uma gota. Ou seja, cerca de 1%", diz Rosa. Dados do Ibrac mostram que as exportações de cachaça atingiram US$ 13,83 milhões em 2007, recuo de 4%. Em volume, os embarques foram de 9,05 milhões de litros, com queda de 20%. As vendas externas neste ano registram recuperação. De janeiro a maio, as receitas com exportação ficaram em US$ 6,9 milhões, alta de 37%, em volumes cresceram 46%, para 4,6 milhões de litros. (MS)