Brasil volta a aceitar frutas chilenas, mas nega barganha
Alda do Amaral Rocha
26/06/2008
Três meses depois de suspender as importações de frutas do Chile após detectar ácaros, o Ministério da Agricultura reabriu o Brasil aos produtos chilenos. Ao mesmo tempo, o Chile sinalizou que anunciará nos "próximos dias" a lista de estabelecimentos de carne suína de Santa Catarina e de aves do país que poderão exportar para o mercado andino.
O secretário de Defesa Agropecuária do ministério, Inácio Kroetz, garantiu que não se trata de um "toma-lá-dá-cá". "O Brasil demonstrou [ao Chile] a segurança pela qual certifica os produtos de origem animal que exporta". Em abril, porém, os dois países já discutiam a possibilidade de reabrir o mercado chileno para suíno e ave do Brasil em troca da retomada das compras de frutas chilenas, apurou o Valor na época.
Kroetz disse que agora o Brasil vai negociar com o Chile para que o país amplie o número de Estados brasileiros de onde importa carne bovina. Desde os casos de aftosa no Mato Grosso do Sul e Paraná, no fim de 2005, o Chile importa só o produto do Rio Grande do Sul. O Brasil quer que o Chile volte a comprar dos 11 Estados que foram reconhecidos como livre de aftosa com vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em maio último.
Segundo o ministério, a decisão de retomar as compras de frutas foi tomada após reuniões com o governo chileno e uma auditoria de técnicos do ministério que definiram regras baseadas em análise de risco para a importação. A instrução normativa com as regras, publicada ontem, diz que toda fruta proveniente do Chile deverá estar acompanhada de certificado sanitário, emitido pela Organização Nacional de Proteção Fitossanitária daquele país. O certificado deverá atestar que as partidas de kiwi e uva destinadas ao Brasil foram fumigadas na origem contra o ácaro Brevipalpus chilensis.
Além disso, amostras de 100% das partidas de todas as frutas destinadas ao Brasil (uva, kiwi, ameixa, cereja, damasco, chirimoya, framboesa, groselha, maçã e outras) terão de ser testadas para a verificação de eventuais contaminações. As frutas também só poderão ingressar no Brasil pelas unidades de vigilância agropecuária de Foz do Iguaçu (PR), Dionísio Cerqueira (SC), São Borja (RS), Uruguaiana (RS), Porto Alegre (RS) e Porto de Rio Grande (RS). Foi acertado, ainda, que, na safra 2009/10, o Chile colocará em prática o Sistema para Manejo de Riscos de Pragas, para controle sanitário no cultivo.
Apesar de o governo insistir que a negociação com o Chile foi técnica, Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Suína (Abipecs), disse que o Chile "atrasou a liberação" da carne suína brasileira de "maneira retaliatória, não-técnica", depois que o Brasil suspendeu as importações de frutas, no fim de março. A inspeção das fábricas brasileiras pelos chilenos havia sido feita em fevereiro, conforme Camargo Neto. Para ele, com tal comportamento o Chile "destruiu sua credibilidade ante o setor privado brasileiro".