Preço mínimo oficial fica abaixo do custo

03/07/2008

Preço mínimo oficial fica abaixo do custo

 

Dos quatro produtos mais incentivados pelo Plano Agrícola com objetivo de combate à inflação, somente o feijão teve preços mínimos reajustados acima do custo de produção, o que não ocorreu para arroz, trigo e milho. "Na prática, o que vai estimular o cultivo de áreas maiores desses grãos serão as cotações no mercado", avalia Élcio Bento, da Safras & Mercado.
No caso do trigo - produto que o Brasil precisa importar cerca de 70% para atender o consumo interno - o preço mínimo pago pelo governo para uma saca de 60 quilos foi reajustado de R$ 24 para R$ 28,80, enquanto o custo de produção nesta safra está acima de R$ 30 no Paraná, estado que é o maior produtor nacional do cereal, conforme compara o economista da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Pedro Loyola. Dos 1,8 milhão de hectares cultivados no Brasil na safra passada, 821 mil foram neste estado.
A estimativa da Safras & Mercado é de que o cultivo de trigo no Brasil na safra 2008/09 - que já está em fase final - avance 27% para 2,3 milhões de hectares e, a produção, de 3,9 milhões de toneladas para 5,4 milhões de toneladas, se o clima for favorável, segundo Bento. "O que vai contribuir para este cenário são os preços internacionais, que refletem no mercado interno. A tonelada está valendo R$ 730 no Paraná e R$ 610 no Rio Grande do Sul, enquanto o preço mínimo, em tonelada, foi reajustado de R$ 400 para R$ 480", compara Bento.
Se confirmada, a produção de 5,4 milhões de toneladas, a dependência de importação de 62% do consumo de 10,5 milhões de toneladas, vai cair para algo próximo de 45%. A produção da safra também vai se equiparar aos níveis dos ciclos 2003/04 e 2004/05, quando a mudança no regime cambial para flutuante estimulou o plantio no País.
Arroz
O arroz, que combinado com o feijão faz a parceria no prato do brasileiro, também teve seus preço mínimo reajustado - de R$ 22 para R$ 25,80 - , mas muito abaixo do custo de produção, que está em R$ 32 por saca de 50 quilos, segundo o Instituto Rio Grandense de Arroz (Irga). "Esperávamos que o preço mínimo fosse reajustado para algo entre R$ 28 e R$ 30. As maiores regiões produtoras do Rio Grande do Sul estão com déficit hídrico. Mas, mesmo se não tivéssemos esse problema, não ia dar para aumentar área com esse preço mínimo", diz o presidente da Associação dos Agricultores de Dom Pedrito (RS), Ricardo Pilecco.
No entanto, Bento acredita que deve haver um incremento no cultivo de arroz nesta safra, ainda não estimado pela consultoria. "Atualmente, os preços estão em 23, mas a tendência é que atinjam, na época de plantio, algo entre R$ 35 e R$ 40", justifica. Na safra 2007/08, a área plantada de arroz foi de 3,064 milhões de hectares.
O preço mínimo do milho do governo Federal também aumentou - de R$ 14 para R$ 16,50 a saca de 60 quilos - mas ainda está aquém do custo de produção de R$ 19 no Paraná. "Mais um vez é o preço de mercado que vai garantir o plantio. A saca no Paraná está valendo R$ 23,24", compara Loyola.
O aumento do preço mínimo do feijão - de R$ 48,42 para R$ 80 - não deve estimular crescimento de cultivo. Os 5% de avanços esperados para a primeira safra, que representa 45% da produção anual, devem-se aos atuais preços de mercado, em torno de R$ 200 a saca , segundo Rafael Poerschke, analista Safras & Mercado. "O custo de produção está em R$ 75 (ensacado), margem de lucro muito pequena, considerando que o feijão tem risco climático alto", avalia.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9)(Fabiana Batista)