Projeto mapeia genoma do cacau
Meta de parceria público-privada nos EUA é produzir variedades resistentes a pragas como vassoura-de-bruxa
O cacau deve se tornar o próximo organismo a ter o seu código genético desvendado. O objetivo do projeto de cinco anos de duração é identificar genes nas diferentes variedades de plantas que as tornam resistentes à seca e às pragas. Nos últimos 15 anos, fungos devastaram as colheitas, custando aos cultivadores em todo o mundo entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões anualmente.
Existem 6,5 milhões de pequenos agricultores familiares de cacau ao redor do mundo. As perdas contribuíram para alta de 50% nos preços do cacau no último ano.
O genoma do cacau é composto por 500 milhões de pares de letras, que serão analisadas pelo computador Blue Gene, da IBM, o segundo mais rápido do mundo. A gigante de informática aderiu ao Projeto Genoma do Chocolate, de US$ 10 milhões, uma parceria do departamento da agricultura dos Estados Unidos e da fabricante de confeitos Mars.
Sabor controlado
Segundo Ray Schnell, geneticista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na Flórida, também haverá grande interesse em controlar os genes relacionados ao sabor. Quando o projeto for concluído, o conjunto completo dos genes será colocado à disposição do público, para evitar que oportunistas patenteiem os principais genes da planta.
Os pesquisadores começaram testes de campo com árvores de cacau na África Ocidental, Papua-Nova Guiné, América Central e do Sul.
Embora o chocolate pareça estar por toda parte, o cacau do qual ele depende é uma cultura volátil. A África Ocidental, que produz 70% do cacau do mundo, foi martelada pelo mau tempo nos últimos anos. As chuvas diminuíram, conforme aumentam as temperaturas.
Há décadas, o Brasil era um dos principais exportadores de cacau. Mas a vassoura-de-bruxa atacou as plantas, devastando a indústria. Entre 10% e 15% do cacau vem das Américas.
Nos últimos anos, o trigo, o arroz e o milho foram os objetos mais comuns da pesquisa genética. A iniciativa da Mars, da IBM e do governo americano está entre os poucos estudos genéticos sobre o cacau, embora atualmente haja um bom número de projetos buscando desvendar o genoma de plantas no Brasil envolvendo cacau, eucalipto, cana-de-açúcar e plantas cítricas.
Os cientistas esperam que leve cerca de um ano até que se possa gerar os 500 milhões de pares-base do DNA do cacau - o genoma humano tem 3 bilhões de pares-base. Então será a vez de três cientistas da IBM analisarem esses dados e procurarem por padrões.
Estudo brasileiro
Uma análise genética realizada pelo pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Projeto Genoma da Vassoura-de-Bruxa Gonçalo Pereira - publicada na revista científica especializada Mycological Research - revelou que a epidemia que devastou as plantações de cacau do sul da Bahia na década de 1990 foi causada por apenas duas variedades do fungo Crinipellis perniciosa, enquanto na Amazônia, onde o fungo é endêmico, há possivelmente milhões de variedades selvagens.
Os resultados alertam para o risco de novas epidemias, já que as plantas usadas hoje na lavoura podem não ser resistentes a outras variáveis da praga.