Fisgando o presidente
Alexandre Lyrio
É tempo de piracema no médio São Francisco e a oferta de peixes anda meio escassa. Talvez por isso, o dourado entregue por dona Vera Lúcia ao presidente Lula tenha sido de alumínio. Escolhida para homenageá-lo na visita a Salvador, ofereceu o presente e deu um abraço forte no “companheiro”, mas não sairia satisfeita dali se não visse oficializado o Plano Nacional de Desenvolvimento da Pesca e Aqüicultura. A mulher que ganhou as páginas de jornais ao posar ao lado da maior autoridade do país, no Largo da Ribeira, na cidade baixa, acima de tudo foi cobrar do presidente investimentos em favor da categoria que representa.
Com uma trajetória de dedicação e lutas pelos direitos da classe, Vera Lúcia Pereira Ferreira, 41 anos, obteve a predileção dos que organizaram o evento entre os 70 mil pescadores que existem na Bahia. Apesar de não ter noção de quais foram os critérios para a escolha, a explicação é simples. Presidente da Colônia de Pescadores Z-41, em Remanso, a 720km de Salvador, é uma das poucas mulheres a assumir este tipo de cargo em todo o estado. Ela mesma sabe o quanto brigou para chegar lá. Para contar a própria história, só se expressa no plural.
“Somos a primeira liderança feminina da colônia. Foi uma batalha de anos até conseguirmos chegar aqui”, conta. Mas nunca imaginou um dia se aproximar tanto do alto poder. Na sala vip em que esperou Lula, estava ansiosa. Ao chegar, o presidente cumprimentou um a um. Chegou até ela e parecia já saber de quem se tratava. Direcionou as primeiras palavras: “Parabéns por ser uma mulher de fibra que conquistou seus objetivos”. De pronto, respondeu: “Obrigado por ter um governo voltado para os menos favorecidos”. Vera impressionou-se mesmo com a simplicidade e simpatia do presidente. “Poucos homens como ele tratam as pessoas simples dessa forma”, elogiou.
Claro que gostaria de ter conversado sobre os problemas, de ter falado das necessidades pesqueiras de Remanso. “Mas foi tudo muito rápido. Pelo menos fisgamos ele com o presentinho. De uma forma ou de outra, chamamos a atenção”. No palanque, quando entregou o peixe de metal, ainda ouviu palavras de agradecimento. “Obrigado pela bela homenagem. É um presente muito bonito”, exaltou Lula. O mais engraçado é que a lembrança foi adquirida às pressas. Não se tratou de artesanato talhado em Remanso, como pensou a maioria. Foi comprado em Salvador, pouco antes de tudo. “Para falar a verdade, não sei quem e onde pegaram isso. Deve ter sido no Mercado Modelo”, sugeriu.
Fato é que, por causa do encontro, passou de simples liderança comunitária à atração na cidade. As rádios e folhetins anunciaram o seu contato com Lula. Vera colocou o seu melhor vestido e arrumou o cabelo castigado pelo sol e água salobra. Saiu tudo como o esperado. Mas após as homenagens, retornou à lida diária. Além de retomar o trabalho na colônia, teve que voltar à pesca no Lago Sobradinho, no médio Rio São Francisco. É dali, do maior espelho d´água do mundo, que tira o sustento de três filhos. Tem a ajuda do marido, também pescador.
Não é baiana. Aos 13 anos, veio de Serra Talhada, em Pernambuco, com a promessa de fartura de peixes em Remanso. Herdou o ofício do pai. “Você sabe, filha de pescador...”. Mas, com o passar dos anos, a atividade se tornou mais difícil. “No início era peixe pra dar em doido. Agora é complicado viver só da pesca”, compara. Mas não fraqueja. Pernambucana, como Lula, não costuma abrir mão dos objetivos. Da mesma forma que o ex-metalúrgico, que enfrentou longa peleja para chegar à presidência da República, Vera também teve grandes dificuldades para assumir o comando da rede de pesca de Remanso. “Até outro dia, as mulheres não tinham sequer o direito de se filiar. Hoje, imagine, estou eu aqui”.
Enquanto Lula é responsável por mais de 190 milhões de brasileiros, ela está à frente de 1.500 pescadores. Parece pouco. Não quando a renda de uma cidade inteira depende da pesca, ainda mais quando a época é de escassez de peixes. Parece administrar bem os problemas. Se Lula enfrenta a crise inflacionária, ela tenta amenizar os efeitos da piracema, quando os cardumes arribam para as nascentes dos rios. Quem sabe da próxima vez Lula venha em época de abundância. Se for à cidade de Remanso, em vez de peixe de alumínio, poderá comer uma moqueca de dourado com dona Vera.
Vera Lúcia, pescadora de Remanso, ganhou as páginas dos jornais ao homenagear Lula com um peixe de alumínio.