Agropecuária que não desenvolve

18/08/2008

Agropecuária que não desenvolve

 


Asfaltamento ao longo dos quase intransitáveis 100 km da BA-284, entre os municípios de Itamaraju (743 km de Salvador) e Jucuruçu (a 843 km da capital), situados no extremo sul da Bahia, é o grande anseio dos produtores e agricultores das duas cidades. A inexistência da camada do espesso betume impede o desenvolvimento da região. De acordo com estudo do Sindicato Patronal Rural de Itamaraju, é o maior centro comercial do extremo sul.

É o asfalto o que resta para serem implantados na região projetos de agricultura e pecuária, responsáveis por 90 % dos empregos de Itamaraju e Jucuruçu.

A TARDE percorreu a esburacada rodovia, a qual, além de profundas valetas, possui ladeiras que fazem imaginar como deve ser difícil o tráfego por ali em épocas de chuva. “Só vai a cavalo”, afirma, com propriedade de quem conhece bem o lugar, o produtor Cantarelle Nunes Reis.

Pecuarista e agricultor, Reis diz que gostaria de fazer uma roça de café em sua propriedade.

“Como, se não dá para escoar? Carro novo, que a gente pouco usa aqui, não agüenta um ano rodando nessa lástima [refere-se à rodovia]. Esse é apenas um dos prejuízos que temos com essa estrada”, disse, bastante exaltado.

“Como é que a região desenvolve desse jeito?”.

“Aqui é um sufoco quando chove. Passamos porque não tem outra estrada e temos de trabalhar”, atesta o motorista Edcarlos da Silva, 28 anos, que diz trafegar pela rodovia ao menos quatro vezes por semana transportando materiais de construção.

“Eu não sei qual o custo certo da manutenção da caminhonete porque quem faz isso é meu irmão.

Mas posso garantir que é alto”, disse, informando que todo final de semana o carro vai para a oficina. “Tem de ser assim, pois não quero me arriscar”.

IMPEDIMENTO – Na zona rural de Itamaraju e Jucuruçu, é nítida a vocação para a área rural. Plantações de café, milho, feijão e cacau estão espalhadas por toda a parte. Com apenas 3% da sua área territorial (de 227 mil hectares) destinada ao café, são produzidas 250 mil sacas por ano, o que corresponde a um faturamento de R$ 4,5 milhões mensais.

“Com o asfaltamento, podemos dobrar tranqüilamente esses números”, garante o presidente do sindicato da região, Urbano Correia.

Com relação ao cacau, atualmente as plantações reduziram para 5% do território. O estudo indica uma produção de 30 mil sacas mensais, que são vendidas por R$ 300 a unidade, com faturamento de R$ 750 mil. A maior parte das terras de Itamaraju (70% do território) está concentrada com a pecuária. O rebanho bovino é de sete mil cabeças, com comercialização de 30% para recria e abate, o que, no final de cada ano, propicia um comércio livre de aproximadamente 51 mil cabeças. Este comércio oferece um faturamento bruto mensal de R$ 2,5 milhões.

IMPULSO – Conforme os dados levantados pelo Sindicato Patronal Rural de Itamaraju, com as novas tecnologias e práticas do agronegócio, somadas a uma política pública para o setor, é possível aumentar sensivelmente os números atuais.

Uma das esperanças está no cacau, pois no passado o município já produziu 150 mil sacas/ ano. “Com a nova técnica de controle da vassoura-de-bruxa através da sacarose, se os produtores conseguirem uma recuperação de 70% das plantações existentes, a expectativa é que as propriedades do município produzam 105 mil sacas da fruta por ano, o que geraria uma receita bruta mensal de R$ 2,625 milhões”, indica o estudo.

O presidente do Sindicato Patronal Rural de Itamaraju, Urbano Correia, acredita no aprimoramento do setor pecuário. Dos 70% de ocupação atual, ele prevê uma redução para 50%: 113,5 hectares destinados a pecuária de corte e leite. O estudo do sindicato também traz relatos de valores consideráveis que poderiam ser gerados com a plantação controlada do eucalipto.

INTERVENÇÕES – Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Infra-Estrutura (Seinfra), o governo do Estado fechou convênio (não informou quando) entre as prefeituras de Itamaraju e Jucuruçu. De acordo com a nota, já houve intervenções na rodovia por parte do Departamento de Infra-estrutura de Transportes da Bahia (Derba).

Apesar de a reportagem de A TARDE ter visto que a situação atual da BA é lastimável, o que tem gerado reclamações da população das duas cidades, a Ascom da Seinfra informa que, recentemente, a estrada “passou por serviços de revestimento primário e limpeza de acostamento, onde foram investidos cerca de R$ 860 mil, oriundos dos cofres do Estado”.

O secretário estadual de Infraestrutura, Antonio Carlos Batista Neves, disse, por meio de sua assessoria, que convênios deste tipo estão sendo assinados com outras prefeituras. “Até agora, o Derba já firmou parceria com 173 dos 417 municípios baianos. O objetivo é atender ao maior número de localidades e, conseqüentemente, beneficiar mais pessoas”, declarou.