Ford utiliza sisal na fabricação de automóveis

27/08/2008

Ford utiliza sisal na fabricação de automóveis

Donaldson Gomes

A montadora Ford anunciou a substituição de 30% do plástico à base de petróleo de sua linha de veículos pelo material à base da fibra do sisal. Os primeiros veículos com o novo material estarão expostos no Salão do Automóvel de São Paulo, no mês de outubro e antes do fim do ano alguns veículos estarão disponíveis no mercado. Para suprir o aumento esperado na demanda, o Estado se comprometeu estimular o aumento da área plantada de sisal de 140 mil para 300 mil hectares nos próximos três anos, segundo a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti).

Para o secretário da Secti, Ildes Ferreira, o anúncio da Ford deve ser comemorado, pois representa uma oportunidade de valorizar uma das culturas mais fortes do interior da Bahia. “Como cada veículo apresenta em média 200 kg de plástico, em breve teremos 60 kg em cada carro da montadora equipados com um produto típico do semiaacute;rido baiano”, destaca. O trabalho agora é o de garantir o aumento da produção em mais de 100% para atender o esperado aumento de demanda. Segundo ele, a fibra que será utilizada em substituição ao plástico é mais rentável ao produtor, pois exige uma área plantada menor e pode ser colhida em apenas 2,5 anos, metade do tempo da fibra normal.

Escolha – O sisal foi escolhido depois de quatro anos de pesquisas por apresentar os melhores resultados mecânicos, segundo o supervisor de engenharia avançada da Ford, Celso Duarte.Ele destaca a expectativa de que a inovação tenha bons reflexos em toda a indústria automobilística.“Vamos trabalhar com uma fonte renovável, natural e reciclável”, analisa. Segundo ele, a tendência é que de forma gradual os novos lançamentos da empresa utilizem a fibra natural.

A Ford acredita que o baixo volume de produção deve manter o preço da fibra natural em patamares parecidos ao da fibra sintética inicialmente. “Quando houver demanda que justifique a produção em escala, os preços devem se tornar atrativos”, avalia Duarte. A empresa vai comprar da cidade de Valente, por meio da Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (Apaeb).

Os produtores da região estão se preparando para certificar a produção sisaleira a fim de fornecer matérias-primas à Ford. O gerente comercial da Apaeb, Isenildo Araújo, considera a decisão da Ford benéfica para a economia de todo o Estado. “Acreditamos que a fibra do sisal poderá ser uma alternativa tanto para a Ford, como para outras montadoras no futuro”, deseja Araújo.Ele espera que o acordo com a montadora agregue valor a toda a cadeia do produto.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais do Estado da Bahia, Wilson Andrade, o anúncio da Ford representa uma oportunidade única para o desenvolvimento da atividade sisaleira. “A expectativa de dobrar a área plantada fala por si.É uma revolução”, destaca.
 
Planta do semi-árido tem potencial para outros usos

Tradicional matéria-prima para cordas e cestos, o sisal começa a ser fortalecido como uma importante alternativa de renda para a população da região mais seca da Bahia. Prova deste esforço é a inclusão da cultura sisaleira entre os Arranjos Produtivos Locais, programa que o governo do Estado mantém em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird), cuja oficialização está prevista para o dia 15 de setembro.

De acordo com a Secti, além do investimento no desenvolvimento de fibras naturais para substituir materiais sintéticos, destaca-se o projeto para transformar o suco do sisal como biofertilizante, com recursos de R$ 1,2 milhão, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). “É preciso qualificar a produção de sisal”, avalia o secretário Ildes Ferreira.

Para o gestor do Projeto Sisal do Sebrae, José Raimundo Carneiro, é necessário investir no fortalecimento da cadeia sisaleira, com o uso do produto em processos industriais. Ele aponta a cultura como responsável pelo sustento de mais de 2,3 mil famílias.O baixo valor agregado da matéria-prima e a utilização de apenas 5% do produto (a fibra), com o descarte de todo o restante, são apontados como os principais fatores a se trabalhar. “O uso atual é muito pequeno, por isso estamos investindo em estudo para desenvolver novas possibilidades”, explica. Carneiro aponta projetos para a transformação da fibra em móveis de alto acabamento, ou da utilização do suco para a produção de alimento para animais como alternativas para ampliar o uso do sisal.