O ouro branco da colheita
A colheita do algodão, que deve se estender até meados deste mês, está movimentando uma legião de trabalhadores nas cerca de 60 beneficiadoras primárias do cerrado baiano, somando cerca de 15 mil pessoas.
A estimativa é que 1.099.130 toneladas do produto in natura sejam colhidas, o que equivale a 40 mil carretas, contabilizando apenas as que saem das usinas de beneficiamento primário. Desta produção, 40% são destinados aos Estados do Nordeste e o restante, a exportação.
O limite concedido pela Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) para o término da colheita e destruição das soqueiras é dia 15. O prazo é uma das exigências sanitárias impostas pelo Programa de Combate ao Bicudo, que é considerado uma das piores pragas do algodoeiro.
Segundo o produtor rural Walter Horita, que nesta safra plantou com o grupo familiar 18 mil hectares da fibra, o atraso no início da colheita este ano fez com que a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), entidade que dirigiu até agosto, solicitasse à Adab o retardamento do prazo final de colheita de algodão.
Depois dessa data, o produtor que ainda estiver com algodoeiros na lavoura poderá ser multado.
A demora no amadurecimento dos capulhos (de onde explodem as fibras) nesta safra foi reflexo do clima fechado por nuvens durante os meses de março e abril, o que significa menos luminosidade, importante para o desenvolvimento da cultura.
CHUVAS – A pressa na colheita também se deve porque não é interessante que haja algodão na lavoura quando começarem as chuvas, cujo início histórico é o mês de outubro. Para a colheita, todos os procedimentos técnicos são adotados para reduzir a poeira sobre plumas, e esses cuidados são compensados com a qualidade final do produto regional, um dos melhores do Brasil.
A movimentação na Fazenda Acalanto – do grupo Horita –, localizada no município de São Desidério, em uma das frentes de colheita, lembra uma operação de guerra. Estão envolvidos cinco colheitadeiras, sete prensas, 14 tratores, dois veículos destinados a apagar incêndios que são comuns na colheita pelo alto poder de combustão da fibra, além de caminhões.
No cerrado, a projeção para a próxima safra é de aumento da área de algodão, estimado, a princípio, em 10% sobre a área de 2007/2008, que foi de 276.824 hectares. Segundo o presidente da Abapa, João Carlos Jacobsen, o Estado tem boas oportunidades diante da atual conjuntura internacional da cotonicultura.
Jacobsen cita a anunciada redução de área nos Estados Unidos, de 4,2 milhões de hectares, na safra 2007/2008, para 3,3 milhões de hectares para a próxima safra, o que representa uma diminuição de 22,21%, segundo o International Cotton Advisory Committe(Icac), comitê internacional de algodão.
DÓLAR – Entretanto, o câmbio preocupa os produtores, que fazem todos os seus cálculos sobre a cotação do dólar, haja vista que o algodão é uma commoditie cotada pela Bolsa de Mercadorias de Nova Iorque. “A questão cambial vem penalizando o produtor”, diz Walter Horita, acrescentando que a maioria dos insumos também é cotada pelo dólar.
Ele destaca que entre 4% e 6% dos custos de produção são combustíveis.
Os agroquímicos representam 30% e os fertilizantes, que significavam 20%, agora somam 35% dos custos. Como exemplo, Horita cita o cloreto de potássio, que era entregue na fazenda por R$ 600 a tonelada.
No começo deste ano, subiu para R$ 1 mil a tonelada e agora custa R$ 1.500 a tonelada, pois o produto está em falta no mercado mundial. O produtor ressalta, no entanto, que o aumento na produtividade e a melhor administração dos recursos compensam as demais dificuldades, o que faz com que novos grupos venham se instalar na Bahia.
CAMPEÃO DE FIBRA – O município de São Desidério, com cerca de 20 mil habitantes, é o maior produtor nacional de algodão, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na safra passada, o município colheu 526,3 mil toneladas, o que representou 46,8% da produção estadual e 12,8% da produção nacional de fibra.
A receita alcançada no município na safra 2006/2007 foi de R$ 509 milhões. A estimativa de produção para a safra que está sendo colhida é de 560 mil toneladas de algodão, um incremento de 8% em relação à safra anterior, segundo dados da Secretaria Municipal de Agricultura.
Segundo maior município da Bahia em extensão territorial, com 14.820 km², a estimativa é que São Desidério colha na safra 2007/2008, além de algodão, 370 mil toneladas de milho e 720 mil toneladas de soja. E é na soja que o município tem outro destaque, alcançando o sétimo lugar no ranking nacional dos produtores da oleaginosa ano passado, produzindo 1,2% do total nacional e 29,9% da produção estadual.
O secretário municipal de Agricultura, Genivaldo de Assis, diz que a estimativa de incremento nas três produções da safra passada para a atual foi de 8% no algodão e 5% na soja e milho.
“Em recursos, a produção agropecuária de São Desidério soma R$ 1 bilhão na safra 2007/2008”.