Toque feminino na arte de compor um bom café gourmet
Você sabe quanto trabalho existe atrás de uma xícara de café gourmet? A autora da frase, a empresária Mônica Leonardi, fez nascer desse trabalho a paixão e a motivação para quebrar paradigmas em um setor tradicionalmente dominado pelos homens. Filha de italiano, ainda adolescente viu nascer a admiração pelo glamour em torno das cafeterias em algumas regiões da Toscana, quando viajava a passeio com familiares. Formada em química pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi atraída ao curso pela possibilidade de formular novas misturas e aplicá-las à rotina do seu dia-a-dia. Era a chave para o sucesso.
Esbanjando simpatia, ela conta que a história começou com o convite de uma amiga para vender um tipo de café especial no porta-malas do carro mesmo. Como estava desempregada, aceitei". O sub-emprego surgiu no início dos anos 1980. Os negócios eram feitos de porta em porta e agregaram conhecimento e uma boa carteira de clientes. Ela diz que a principal mudança notada no mercado brasileiro de café desde então é a forma como ele era visto. "Não existia café gourmet. O grande desafio era provar qual a diferença entre os grãos", relembra.
Mas, a entrada "de corpo e alma" no setor ocorreu em 1987, quando fundou sua própria empresa, a Café Terra Brasil, especializada na produção de blends especiais. Foi ali que ela encontrou o casamento perfeito entre sua formação e a vocação. No entanto, a virada de mesa no "clube do bolinha" ocorreu em 2005. Acostumada a enfrentar desafios, consagrou-se como a primeira mulher brasileira a receber o diploma de juíza internacional de cafés no Brasil, concedido pela SCAA (Associação Americana de Cafés Especiais, sigla em inglês). O título foi entregue após provar mais de 300 xícaras de café em cinco dias de provas, que duravam das 8h30 às 18h.
Mônica explica que mesmo com todo esse trabalho para conquistar espaço ainda é vítima do machismo. Conta que, freqüentemente, em reuniões com clientes passa por situações engraçadas. "Quando levo um funcionário homem para me auxiliar, a conversa acaba centralizada nele. É engraçado quando percebem que comando a empresa", diverte-se. A empresa fatura R$ 4 milhões por ano com a comercialização de 11 toneladas de cafés e 700 máquinas no território nacional. Em abril deste ano foi incorporada pela 6º maior torrefadora do mundo, a italiana Lavazza. "Foi o reconhecimento de todo o trabalho", comemora sem divulgar os números do negócio.
Segundo disse, esse segmento tem crescido intensamente nos últimos 8 anos. "As vendas de café gourmet estão estagnadas na Europa. Por isso, a tendência é que ocorram mais incorporações no Brasil, que tem um grande potencial". Dados da Organização Internacional do Café (OIC), mostram que enquanto o consumo brasileiro de café "normal" avança 4% ao ano, o do tipo gourmet registra 20% anualmente. Mônica concorda que o crescimento é sobre base pequena, mas acredita que há muito potencial, sobretudo no Brasil. Os outros mercados potenciais são Índia e Rússia, onde o consumo cresce 5% e 7%, respectivamente.
A empresária diz que boa parte do sucesso se deve a integração de todo o processo. "Começa no produto verde, controlando os agrotóxicos, seguindo para um bom torrefador, equipamento de alta qualidade e um bom barista". Intuição e sensibilidade ela parece ter de sobra.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 12)(Roberto Tenório)