Cana "atropela" soja em pólo do Tocantins

03/10/2008

Cana "atropela" soja em pólo do Tocantins

 

  
Quando chegou pela primeira vez na pequena cidade de Pedro Afonso, no Tocantins, há 12 anos, o mineiro Leonardo Queiroz nunca tinha visto um pé de soja na vida. Ex-estudante de medicina e funcionário de uma empresa fabricante de lentes intra-oculares em Belo Horizonte, Leonardo se inscreveu em um programa do Ministério da Agricultura em parceria com o governo japonês para desenvolver o plantio do grão do isolado cerrado do Tocantins, o Prodecer. Largou tudo para tentar a sorte no campo, incentivado pelos empréstimos polpudos que o governo oferecia para quem se dispusesse a viver em uma região onde até os restaurantes fechavam para almoço, como gostam de contar, em tom de brincadeira, todos que seguiram o caminho de Leonardo. 

Com um livro técnico sobre soja na bolsa, ele desembarcou naquela região quente e aparentemente árida em 1996. Vendeu um pequeno apartamento e o carro para dar a contrapartida exigida pelo governo: 10% do investimento total, ou, R$ 100 mil. Recebeu 500 hectares de terra, maquinário e recursos para iniciar o plantio com o empréstimo, que nunca foi pago nem por ele nem por seus colegas. "O começo foi difícil, eu não entendia nada, e a cidade só tinha um telefone público, esse era o único contato com o mundo exterior", relembra, já com um jeitão de fazendeiro. 

Como ele, outros 39 aventureiros largaram quase tudo para participar do programa pioneiro no Tocantins, que na época tinha o arroz e o milho como principais culturas agrícolas. Em pouco tempo a soja vingou e a cidade se tornou a maior produtora do grão em todo o Estado. 

Em 2005, Pedro Afonso e seu entorno produziram 170 mil toneladas de soja, em mais de 60 mil hectares plantados. Ao contrário da maior parte dos municípios do Tocantins, a festa anual da cidade não celebra o gado. Ao invés das tradicionais feiras agropecuárias, a cidade tem a Festa da Soja, onde é eleita a rainha da soja. Enfim, Pedro Afonso é uma das tantas cidades do país que vivem em torno do grão de ouro, como gostam de chamar os produtores. 

Mas isso vai acabar. A soja, que nos últimos dez anos comandou a economia da cidade, vai minguar em Pedro Afonso em pouco tempo. Dará lugar à cana, que por lá pouca gente ainda conhece. Com a chegada da Ferrovia Norte-Sul, que terá uma estação de transbordo a menos de 20 quilômetros da cidade, grandes grupos internacionais, como a Bunge, estão comprando todas as terras que conseguem na região para plantar cana. 

A estimativa da cooperativa agroindustrial de Pedro Afonso (Coapa) é que a área plantada com soja no município caia mais de 70% nos próximos três anos. "A soja vai migrar para áreas mais distantes, mas em Pedro Afonso o que vai ter mesmo é cana", resigna-se Vanderlei de Souza, gerente da área de qualidade da Coapa. 

Dos 40 pioneiros que chegaram por lá em 1996, 11 já se desfizeram de suas propriedades. E muitos outros devem seguir o mesmo caminho. Esperam apenas que o preço do hectare se valorize ainda mais para se desfazerem de suas plantações de soja. 

Pedro Afonso, a pioneira da soja no Tocantins, está vivendo uma mudança que já se repete com mais ou menos intensidade em outras regiões do país que prosperaram nos últimos anos com a produção de grãos. A forte demanda mundial por biocombustíveis, além de um mercado interno cada vez mais aquecido, está fazendo com que empresas tradicionais no mercado de alimentos, como a Bunge, redirecionem parte de seus investimentos para a produção de álcool, além do açúcar. Só em Pedro Afonso a companhia pretende plantar 60 mil hectares de cana , quase a totalidade de área plantada de soja por lá. 

Encravada na confluência de dois rios caudalosos, o Tocantins e seu afluente Sono, Pedro Afonso é estratégica para essa investida. Com água de sobra, o que permite um sistema de irrigação eficiente e barato, e extremamente próxima do novo e principal corredor logístico do interior brasileiro, sua escolha como ponto inicial para um projeto que promete dimensões gigantescas parece óbvia. Por meio da ferrovia, o etanol pode ser escoado pelo porto de São Luís, no Maranhão, mais próximo dos principais mercados externos. 

O projeto da Bunge foi o primeiro a mexer com a cabeça dos agricultores de Pedro Afonso. Mas não o único. A Etanalc, empresa brasileira criada há mais ou menos dois anos, também mexe com o imaginário local, ainda que, neste caso, sejam muitas as promessas e poucas as ações. Ainda assim, neste momento a companhia negocia com os cerca de 90 produtores de soja da cidade o arrendamento de suas terras para que abandonem a soja e passem a plantar cana, de onde a companhia diz que fará etanol para exportar aos Estados Unidos. 

Não é a toa, portanto, que em Pedro Afonso as variações do preço da soja na bolsa de Chicago despertem cada vez menos a atenção dos agricultores locais. Em todas as rodinhas de conversa que se formam na sede da Coapa nestas tardes quentes de setembro o assunto é um só: cana. Todos querem saber se a Etanalc já fechou contrato com as empresas de irrigação, se está disposta a melhorar os preços oferecidos, se a Bunge vai abrir uma nova rodada de compras, enfim, todos querem saber qual o melhor momento para se desfazerem da atividade que os sustentou e enriqueceu nos últimos 12 anos. 

"Não tem jeito, ninguém segura a força do dinheiro, a soja vai continuar, vai abrir novas fronteiras, mas aqui quem vai mandar é a cana", diz Virgílio Amaral, agrônomo da consultoria nipo-brasileira Campo, que prestou toda a assistência técnica aos 40 produtores pioneiros de Pedro Afonso. 

No churrasco promovido pelos sócios da Coapa para assistir ao pífio desempenho da seleção brasileira contra a Bolívia na partida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 em 10 de setembro, futebol foi o assunto menos discutido. Nem mesmo o decepcionante desempenho de craques do passado como Ronaldinho Gaúcho conseguia despertar a atenção dos produtores. Todos estavam concentrados nos telefones celulares. Aguardavam, ansiosos, a chamada de um de seus colegas que fora a São Paulo ter uma reunião com a Etanalc. A ligação chegou antes do fim do primeiro tempo e foi comemorada quase como um gol. Aparentemente, a companhia tinha aceito algumas das reivindicações dos produtores. Enfim, aqueles que não estavam prontos para se desfazer de suas terras acreditavam que a hora da negociação final estava próxima. 

Foi Francisco Gonzaga quem atendeu. Era, talvez, um dos mais empolgados com as notícias. Chico chegou por lá junto com Leonardo, vindo de São Paulo. Já mexia com terra, participando de leilões no interior de São Paulo, mas sempre foi um homem extremamente urbano. Morador do bairro paulistano da Mooca por 20 anos, também largou tudo que tinha para ir ao Tocantins plantar soja. A aventura rendeu dividendos, mas também ônus. "Minha mulher era bancária, trabalhava na Praça da Sé, e não aguentou isso aqui. Foi embora com minhas filhas e eu fiquei só", diz ele, que afirma amar a terra que escolheu para viver. 

Mas seu amor tem preço. Chico ainda acha muito pouco os cerca de R$ 4 mil que a Bunge estava oferecendo por cada hectare. "Está longe do preço de Mato Grosso, isso aqui é um paraíso", diz ele, que titubeia em revelar que pagou R$ 270 por cada um de seus 500 hectares. Se o preço chegar a R$ 8 mil ou bater na casa dos R$ 10 mil, sonho da maioria, Chico abre mão das terras que vem cultivando nos últimos 12 anos. Mas se as propostas de arrendamento da Etanalc chegarem onde ele espera, bandeia-se para o lado deles.