Cajuí: delícia do cerrado

06/10/2008

Cajuí: delícia do cerrado

 

O sertanejo do Nordeste brasileiro sabe muito bem que os pés de cajuí florescem na seca, anunciando que o período de chuva está próximo. Nesta época do ano, os pés se destacam na paisagem ressequida por seis meses de estiagem. As folhas estão verdinhas e já é possível colher doces frutos, apesar de ainda ter flores, prometendo muito mais.

Em Barreiras e municípios vizinhos, no oeste do Estado, o fruto nativo ainda persiste em grandes extensões de mata. Diferentemente do caju cultivado sob irrigação com variedades selecionadas, o cajuí é pequeno e tem um sabor mais suave.

A comercialização do cajuí garante uma renda extra para a família de Normaci Alves, 34 anos, residente do bairro de Santa Luzia.

"Toda semana a gente vai pegar cajuí nos Gerais (cerrado) e traz para vender na feira", diz ela, que faz isso desde os 12 anos e está passando a tradição para as filhas.

Cada litro (uma medida de lata) é vendido a R$ 1. Mas quem comprar em grande quantidade tem abatimento, garante.

FARTURA - Moradora da Reforma Agrária de Angical, Rosalina Santos, 55 anos, afirma que muitas famílias deixaram de buscar as frutas na mata nativa, mas a procura é grande na feira. "Este ano tem mais cajuí do que no ano passado. Dizem que isso é sinal de ano bom de chuva. Tomara que seja mesmo", frisa.

"Essa época de cajuí é especial, porque é uma fruta que vem da natureza, sem interferência do homem", destaca a costureira Inês Mendes, 51 anos. Inês acrescenta ainda que o diferencial entre essa fruta nativa e a versão selecionada "é que o cajuí é mais saudável e gostoso".

A professora Adelaide Carrer, 48 anos, também é do tempo "de pegar cajuí na serra", um termo que designa pessoas que têm mais de 30 anos. "Hoje a gente faz este programa esporadicamente, mas o que não pode faltar é a fruta dentro de casa para fazer o doce", destaca.

Ela diz que tem filhos estudando fora de Barreiras "e esse ano já ligaram cobrando o doce, que todos os anos eu faço e mando de ônibus. Acho que colher cajuí e fazer e apreciar o seu doce faz parte da nossa identidade", enfatiza a professora.

VOLTA AO PASSADO - Para o administrador Marcio Rabelo, 38 anos, o ato de colher cajuí nos arredores da cidade de Barreiras é uma saudosa volta ao passado.

"Quando nós éramos crianças, aguardávamos com expectativa a chegada desses momentos. Eu me lembro que era muito bom e toda a família se reunia para a colheita do cajuí", conta.

Marcio relembra que saciados e cansados, depois da colheita, todos voltavam para a cidade. Na casa da avó, o processo continuava com a seleção das frutas e a separação das castanhas dos pendúnculos. "Ela preferia fazer os doces em calda com as frutas menores, dizendo que ficava mais gostoso", recorda.

O tempo passou, aqueles meninos estão adultos, a cidade cresceu e os costumes mudaram.

As serras nos arredores de Barreiras são exploradas por crianças e adolescentes da periferia e moradores da zona rural que vendem o fruto nas portas das casas e nas feiras. Poucas são as famílias que mantêm o ritual de colher cajuí no cerrado.

Parte carnosa e suculenta (que é um pseudofruto formado pelo pendúnculo) é consumida in natura, em forma de sucos, sorvetes, vinhos, licores e doces. Tem alto teor de vitamina C. A castanha (fruto) é especiaria de luxo para pratos finos e tira-gosto.