Cacauicultura mudando de ares
Em um trabalho paralelo e distinto entre si, vários produtores e pesquisadores estão apostando em uma quebra de paradigma: produzir cacau irrigado no semiárido. As experiências feitas até agora registraram números animadores e resultaram no primeiro seminário brasileiro sobre o assunto, realizado semana passada, em BomJesus da Lapa.
A curiosidade e a necessidade de diversificação de culturas foram fundamentais neste processo de mudança de endereço dos novos cacauais na Bahia.
Historicamente, os produtores da região sul é que tornaram o Estado famoso pela produção de cacau, mantendo a cultura centenária atualmente numa área aproximada de 450 mil hectares.
Bem mais modesta a estimativa de áreas plantadas no semiárido baiano, que não devem ultrapassar 200 hectares. No entanto, a produtividade alcançada está agitando o setor. Em algumas áreas estão sendo colhidas 230 arrobas por hectare, mas a meta é chegar a 300 arrobas/ha, diz o pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec/Ceplac), Basílio Leite, comparando com a produtividade média da região sul, entre 20 e 30 arrobas/ ha, devido às doenças radicadas e pouco investimento em tecnologia, por parte de alguns produtores, o que puxa para baixo a média regional.
FUNGICIDAS - Basílio Leite, um dos coordenadores das pesquisas realizadas com cacau há cerca de cinco anos no município de Nova Redenção, região da Chapada Diamantina, destaca que, na região sul, devido às doenças como vassoura-de-bruxa e podridão parda, o gasto médio com fungicidas preventivos é de 25% do custo da lavoura.
"Nas regiões de semiaacute;rido, ainda não foram identificados focos dessas doenças típicas da região sul do Estado, pois as condições de clima não favorecem a propagação dos fungos", diz o engenheiro agrônomo da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag) em Bom Jesus da Lapa, Reuber Matos.
Essa inaptidão da região para desenvolver os fungos que atacam a planta em locais mais úmidos faz com que, em vez de se preocuparem com clones resistentes à vassoura-de-bruxa, os pesquisadores procurem pelas variedades mais produtivas.
As 12 variedades usadas na região são de clones autocompatíveis.
Isso significa que dispensam os insetos, que naturalmente fazem a polinização das flores nas roças de cacau tradicionais, porque no semiaacute;rido não existem estes insetos.
BANANA - No Projeto de Irrigação Formoso, em Bom Jesus da Lapa, conhecido no Brasil pela grande produção de banana (com uma média de 5 mil hectares), a cacauicultura já ocupa 120 hectares, com uma média de 120 mil pés. As mudas foram compradas do Instituto Biofábrica de Cacau e plantadas entre os bananais, para aproveitar a sombra.
Uma das motivações para a introdução e incentivo ao cacau no semiaacute;rido é a incidência cada vez maior de doenças nos bananais de Bom Jesus da Lapa, como o mal-do-panamá. "Com a erradicação de grandes áreas de banana, estamos buscando outras formas de sombreamento, como o consórcio com pés de mamão", diz Reuber Matos.
O consórcio entre cacau e banana, além do sombreamento, tem ainda outras vantagens, de acordo com o produtor Antônio Veloso, "porque ambos têm a mesma necessidade de água e nutrientes, baixando os custos de produção". De família de cacauicultures da região sul do Estado, está em Barreiras desde 1994 e há seis começou plantando cacau, em seu lote no Distrito de Irrigação Barreiras Norte.
Hoje ele tem cerca de 1.200 pés de diversas variedades, todas originárias da Biofábrica. "Estamos selecionando as plantas mais produtivas, de cujas sementes faremos novas mudas", afirma ele, que também planeja fazer enxertos para potencializar a produção de cacau.
ÁGUA E NUTRIENTES - Entre os entusiastas da idéia de cultivar cacau no semiaacute;rido, o engenheiro agrônomo Diógenes Barbosa se destaca. Para ele, tudo começou com um projeto acadêmico produzido durante curso de fertirrigação (fertilização através da irrigação) em Israel, em 2003. De volta ao Brasil, começou a colocar os conhecimentos em prática.
A produtividade alcançada no semiaacute;rido, frisa, se deve, em grande parte, à utilização de alta tecnologia. "O segredo é dar água e nutrientes para a planta na medida certa". Os nutrientes são distribuídos junto com a irrigação, o que baixa os custos.
Outro paradigma a ser quebrado é o sombreamento do cacaueiro que, tradicionalmente, é cultivado sob bosques. "É possível cultivar cacau sem sombra.
Mas, neste caso, o manejo deve ser focado na fisiologia da planta, atendendo às suas exigências mais finas", diz Diógenes.
A luminosidade do semiaacute;rido, uma das mais altas do País, acelera a fotossíntese e, conseqüentemente, o crescimento das plantas, que, em condições ideais de irrigação e nutrição, começam a produzir do segundo para o terceiro ano após o plantio.
A grande incidência de luz e calor é altamente favorável na fase de secagem das castanhas.
A fertilidade natural dos solos de semiaacute;rido também é apontada pelos pesquisadores como diferencial, "porque os solos de natureza calcária desta região são muito mais adequados à cultura do cacau, que exige terrenos férteis", salienta o engenheiro.
Atualmente, o Brasil importa entre 60 a 80 mil toneladas/ano de cacau da Indonésia Para deixar de importar, o País precisaria implantar entre 40 e 50 mil hectares de cacau A fertilidade natural dos solos de semiaacute;rido também é um diferencial, porque os solos de natureza calcária da região são mais adequados à cultura do cacau