De cultura extrativista à produção racional
A grande alternativa alimentar humana para o semiaacute;rido está na algaroba, leguminosa de alto valor nutritivo, originária do deserto de Piura, no Peru, e que chegou ao semiaacute;rido baiano na década de 40. Dada a facilidade de adaptação ao clima seco da região, durante anos foi utilizada como alimento animal.
Apontada como invasora de áreas naturais, apesar de ostentar o status de "praga" do sertão, estudos mostram que a planta é grande esperança econômica para o sertanejo. Os produtores buscam agora o uso racional da planta na agricultura, com vistas ao processamento industrial, estabelecendo estratégias de manejo sustentável e sem agredir ao meio ambiente.
Considerada infestante, passível de ser erradicada, a algaroba ressurge forte como fonte alternativa como complemento alimentar para o homem. Até chegar a este avanço científico, alguns mitos tiveram que ser desfeitos, como o de que a árvore "roubava" água do solo e secava aguadas e mananciais.
REDENÇÃO - Foram necessários 12 anos de estudos para provar o contrário. As pesquisas apontam que a leguminosa, de alto valor nutritivo e comumente aplicada na alimentação animal, além de não exigir muita água e nem solos férteis para frutificar, pode ser a redenção econômica e social do semiaacute;rido baiano.
Em pouco mais de uma década, a empresa Riocon, encravada no município de Manoel Vitorino, sudoeste baiano, investiu mais de R$ 10 milhões, entre recursos próprios e de parceiros, no desenvolvimento de pesquisas. Até 2010, o montante investido pela empresa deverá chegar a R$ 18 milhões.
Segundo o coordenador da Riocon, foi por ter compreendido o alcance social da cadeia produtiva da algaroba para o semiárido, tal como é o eucalipto para o extremo sul, que o governo baiano renovou o convênio de isenção de ICMS para a cultura.
"Nossas últimas safras têm sido variáveis devido a fatores climáticos, mas podemos afirmar que alcançamos 750 toneladas de vagens na região sudoeste [Manoel Vitorino]. Na região do Médio Baixo São Francisco, em Abaré e nas circunvizinhanças, temos 1.300 toneladas nas safras anuais. Vale lembrar que existe uma safrinha temporã, que acontece entre junho e agosto e pode ser responsável por 30% da produção anual", atesta Davi.
CULTURA RACIONAL - A safra principal começa em outubro e pode ir até meados de janeiro, a depender do ano, explica o agrônomo. "Em Manoel Vitorino, estimamos uma área plantada de dois mil hectares, dos quais 350 são nossos. No Baixo Médio São Francisco, são 30 mil hectares. Convém salientar que todas essas áreas são de ocorrências espontâneas, onde a própria algaroba foi ocupando os espaços naturalmente. Por isso, queremos transformar o extrativismo numa cultura racional", frisa Alessander Davi, da Riocon.
"Outro fator que levou o governo do Estado a aprovar a renovação do convênio foi a substituição do sistema extrativista, conforme explicado, por técnicas sustentáveis de manejo, preservando o meio ambiente e gerando emprego e renda para cerca de 800 famílias de pequenos produtores", ressalta.
Davi acredita que, com a expansão, pode-se chegar a cinco mil famílias só no Vale do São Francisco. A produção racional, introduzida por meio do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Semiaacute;rido (Idan), é capaz de ultrapassar 100 kg por árvore de produtividade do sistema extrativista, que é de um a cinco quilos por árvore.
PRESERVAÇÃO - O Idan se encarrega, também, de manter viva a cultura de preservação da espécie junto aos parceiros externos. "Antes só se focava o aspecto econômico, mas hoje temos que estar atentos também para os aspectos político, social, ambiental e cultural", destaca Davi. Em determinadas épocas do ano, a colheita da algaroba é a única fonte de renda para os pequenos agricultores do semiaacute;rido.
Segundo a Embrapa SemiÁrido, a espécie também possui estrutura biológica que ajuda na fixação do nitrogênio ao solo e recuperação de áreas ambientais degradadas.