Saudades das boas safras de feijão
Embora o preço da saca de feijão esteja subindo em todo o País, a situação não é tão boa para os agricultores de Irecê (a 474 km de Salvador), maior município produtor do Estado e região nordeste. Os agricultores justificam que o atraso do plantio de feijão e a queda na produção se devem à falta de chuva e de incentivo por parte dos governos federal e estadual. Na verdade, o plantio teria início este mês, mas só começará em dezembro, sem muitas perspectivas de boas colheitas.
Para se ter uma idéia da gravidade da queda de produção de feijão na região, na safra 2007/2008, foram plantados 78 mil hectares. Desses, 61 mil foram perdidos e apenas 1,8 mil hectares, colhidos, dando cerca de meia saca do produto por hectare. A área plantada de feijão na última safra significa 26% da área total plantada na década de 90, onde se chegava a mais de 300 mil hectares.
De acordo com o presidente da Cooperativa Agropecuária Mista Regional de Irecê (Copirecê), Valter Ney Dourado Rodrigues, a última safra boa na região foi em 1992, quando os produtores colheram mais de seis milhões de sacas de feijão.
"Esta é uma realidade que vem sendo constante em nossa região há mais de dez anos. Além da falta de chuva e incentivo, existe o problema da degradação do solo, com plantios constantes e sem os devidos cuidados. Ainda temos que lembrar do aquecimento global, que está atingindo todo o mundo", explicou o agrônomo e técnico da EBDA Eduardo Dourado Nunes.
MANANCIAIS - Na região, devido à utilização da água do solo através de poços destinados a irrigação, os mananciais estão secando e é hoje uma preocupação tanto dos produtores como dos financiadores. "Temos dificuldade em encontrar água com facilidade. Antes localizávamos a cerca de 60 metros de profundidade. Hoje chegamos a 130 metros para poder ter água", revela o agrônomo da EBDA.
Mesmo com estas dificuldades, há quem acredite que o feijão ainda dá rendimento. Como é o caso do agricultor Paulo Dourado, que destinou 50 hectares para plantar feijão irrigado.
A decisão veio porque fica difícil investir em culturas que necessitem de maior quantidade de irrigação. "Com as hortaliças, gasto, por dia, cerca de 10 mm de água por hectare.
O feijão necessita apenas de 20 mm/ha a cada oito dias, sem falar da chuva que está sendo esperada", contou. Com este novo investimento, onde se chega a gastar, por tarefa, R$ 6 mil, o produtor espera obter uma colheita de 1.400 a 1.500 sacas, dando um lucro de cerca de 30 mil.
Com investimentos próprios para este novo empreendimento, Paulo Dourado reclama da falta de atenção dos governos para esse tipo de agricultura.
HORTALIÇAS - O produtor Marcos Alberto do Nascimento acredita que o preço das sementes é um dos fatores que podem contribuir para a desistência de muitos agricultores, principalmente dos pequenos produtores de feijão, uma vez que não existem incentivos para a aquisição e plantio de sementes.
"Hoje, o saco de sementes varia de R$ 300 a R$ 350. Como podemos comprar e plantar sem ter a certeza de que vai dar colheita? Se a chuva não vier, ficaremos na mão e teremos prejuízo".
Já Matatias Gomes Oliveira há três anos deixou de plantar feijão para cultivar cenoura, tomate, pimentão, cebola e beterraba. "Outro problema das plantações de feijão são as moscas brancas, que se proliferam muito no tempo quente e acabam com a plantação. Estava pagando para vender o feijão e hoje não tenho esta dor-de-cabeça", desabafou.
Em apenas um hectare, o produtor Oliveira obtém duas mil sacas de 20 kg de cebola e cerca de 900 kg de cenoura. Segundo o agrônomo Eduardo Dourado, esse tipo de cultura tem como diferencial a adequação a clima e tempo, e plantio todo o ano.