Fibra de coco chega à tecnologia

03/11/2008

Fibra de coco chega à tecnologia


O beneficiamento da fibra da casca do coco possibilitou a criação de um gabinete de computador que possui as partes externas feitas com fibra de casca de coco e resina. Este é um dos resultados do projeto de compósitos poliméricos com fibras vegetais desenvolvido pelo Laboratório de Polímeros e Sistemas (Lapos), da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus, a 465 km de Salvador.

Para o professor Celso Fornari Júnior, coordenador do Lapos, uma das maiores vantagens do beneficiamento das fibras do coco é o apelo ecológico, possibilitando um destino mais nobre à casca, ao contrário do depósito ou aterro sanitário. Diferentemente do plástico, a fibra tem maior facilidade de decomposição e é biodegradável, diz.

"A fibra do coco, incorporada ao polímero, nos permite desenvolver um material que, além de não oxidar, ainda é térmico, ou seja, evita que o calor externo danifique as peças internas do computador", destaca o coordenador do Lapos, professor Celso Fornari Júnior.

"Para se ter uma idéia, o tradicional gabinete utilizado pela indústria vem da China de navio, demora até três meses e muitas vezes chega com partes oxidadas", comenta o professor.

As fibras vegetais apresentam um grande potencial para utilização na indústria porque possuem propriedades importantes, como baixa densidade, menor custo, além de elevada resistência à tração e ao desgaste.

Vantagens - Deixar de importar matéria-prima e começar a produzir na própria região, gerando emprego e desenvolvimento, agregando valor a um material que antes era descartado, é uma das metas do projeto com subprodutos do coco, um material diferenciado, natural, que, em nível mundial, poucos países têm a vantagem de produzir como o Brasil tem.

Todavia, com o grande consumo de água-de-coco verde, aumenta-se também o descarte de sua casca. Estima-se que, para cada 250 ml de água de coco consumido, seja gerado 1 kg de lixo.

A Bahia é o maior produtor nacional de coco e é responsável por 34% da produção do País, com produção estimada em 408 mil toneladas.

Dentre as regiões baianas produtoras de coco, o sul do Estado possui condições climáticas mais favoráveis, além de se constituir em importante região consumidora, principalmente nos meses de maior fluxo de turista (dezembro a fevereiro). Dentre os municípios que fazem parte dessa região, destacam-se Camamu, Cairu, Canavieiras, Una e Ilhéus.

História - O projeto da Universidade Estadual de Santa Cruz vem sendo desenvolvido desde 2005, com o fomento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e de indústrias do Pólo de Informática de Ilhéus e da Uesc.

Além disso, conta com o apoio dos professores da instituição: Alejandro de Marco, físico; Ricardo Alvin, engenheiro civil; Lícia Queiroz, arquiteta; e Gezil Amarante, físico, bem como alunos do curso de Engenharia de Produção e Sistemas que voluntariamente se dedicam ao projeto.

"Essa idéia surgiu desde a graduação, quando me formei engenheiro químico, fiz o mestrado e doutorado em materiais poliméricos. A partir desta disciplina, pude trabalhar na concepção de novos materiais, que admitem a utilização de formas alternativas a um custo mais baixo", frisa o coordenador do projeto.

Fornari disse ainda que o que mais chamou a atenção quando mudou-se para a região foi a riqueza agrícola que o sul possui. "Eu me impressionei muito com a quantidade de fibras produzidas e o volume de coco jogado fora", conta o professor.

Bruno Britt, aluno que participa do projeto, diz que a experiência acrescenta bastante, por proporcionar desenvolver algo novo, e, sobretudo, pôr em prática o que se aprende na academia.

Testes - No laboratório em que o projeto foi desenvolvido, são feitos testes de resistência ao gabinete produzido, atendendo a padrões legais exigidos, através da máquina de ensaio universal, que mede também a tração, flexão e compressão das propriedades físicas do material. Um aparelho calcula a força necessária para romper o material, caso sofra impactos, como uma queda no chão, por exemplo.

Segundo o professor-coordenador, o projeto é viável porque a fibra possui um preço competitivo e, para alcançar a viabilidade de produção e comercialização, só depende de incentivos.

"Um projeto de engenharia como este não é só para fazer pesquisa, descobrir patente e colocar numa gaveta. A visão é que este projeto vai dar certo, e os alunos estão muito otimistas", frisa o professor Celso Fornari.