Cenário adverso reduz área de algodão no país
Os tempos serão difíceis para os produtores de algodão nos próximos dois anos. Com custos de produção altos e rentabilidade negativa, a área plantada no país deverá cair até 20% na safra 2008/09 e poderá sofrer novo recuo em 2009/10, se o cenário de crise financeira global persistir nos próximos meses, segundo analistas ouvidos pelo Valor.
"A cultura é muita cara por conta da maior aplicação de insumos. Como os defensivos têm um peso grande nos custos, os produtores tendem a fazer suas apostas em culturas de menor risco", afirma José Carlos Hausknesht, analista da MB Agro.
Embora tenha obtido avanço de área importante no mercado interno, o horizonte para a cultura no Brasil, no curto prazo, será limitado por causa da crise. Na cesta das commodities agrícolas, o algodão é considerado supérfluo. Por isso, a demanda global pelo produto está comprometida.
"Os estoques globais de passagens para 2009 estão altos e representam um pouco mais da metade do consumo total para o próximo ano, o que tem pressionado as cotações", diz Marco Antonio Aluísio, diretor da Empresa Interagrícola SA, do grupo suíço Econ, e membro da Anea (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão). Na bolsa de Nova York, os preços do algodão acumulam queda de 35,6% no ano, e de 3,25% nos últimos 12 meses. Ontem, os contratos de março fecharam 44,76 centavos de dólar por libra-peso.
Na safra 2008/09, pela primeira vez depois de três anos, o plantio vai cair para abaixo de 1 milhão de hectares. A expectativa é de que o algodão ocupe uma área entre 950 mil e 960 mil hectares, uma queda média de 13,5%, mas pode chegar até 20% até dezembro, quando os produtores efetivamente plantam. E se depender do ânimo dos agricultores, a expectativa é de que a área tenha uma queda expressiva. A última colheita de algodão em pluma ficou em 1,5 milhão de toneladas e a expectativa é de que caia 15%, para 1,320 milhão de toneladas para 2008/09, segundo a consultoria Safras&Mercado.
"A soja está com os preços mais atraentes, não só no Brasil, por isso o algodão está perdendo espaço. A área da pluma vai cair no país, nos Estados Unidos e em outros importantes países produtores", afirma Miguel Biegai, analista da Safras&Mercado.
Levantamento da MB Agro mostra que a radiografia atual para o algodão indica uma rentabilidade negativa de 2,3%. Para a soja, a rentabilidade está positiva, em 1,3%. O milho também tem rentabilidade positiva, de 2,5%. Esses dados consideram o plantio no Centro-Oeste do país. Mato Grosso é o maior Estado produtor de algodão do país. "A rentabilidade da soja também não está muito animadora, mas o produto tem maior liquidez", diz Hausknesht.
Um estudo preparado Ministério da Agricultura sobre o cenário dos agronegócios para os próximos dez anos sinaliza que a cultura do algodão não avançará quase nada até a safra 2018/19, enquanto outras commodities, sobretudo soja e milho, terão avanços significativos. Para 2007/08, a produção de algodão foi projetada pela Conab (Companhia Nacional do Abastecimento) em 1,564 milhão de toneladas e chegaria em 2018/19 em 1,569 milhão de toneladas, um crescimento de apenas 0,3% no período. As exportações saltariam de 520 mil toneladas para 686,7 mil toneladas, alta de 32%.
Analistas consultados pelo Valor consideram o cenário projetado pelo Ministério da Agricultura muito improvável. "Há uma perspectiva negativa para os próximos dois anos, mas não quer dizer que deverá persistir", afirma Miguel Biegai. Segundo ele, a área com algodão deverá crescer cerca de 50% nos próximos anos até 2018. "O algodão vem de um ciclo de baixa, mas os preços deverão subir a partir de 2011 porque todos os países produtores reduziram a área. Com isso, a oferta global deverá ser menor e estimular os preços internacionais novamente, impulsionando um novo ciclo de alta."
"Um aumento de 50% na área de algodão [que representaria 500 mil hectares a mais ] nem faria cócegas na área de soja", afirma Biegai. Segundo ele, em um cenário positivo para os preços do algodão, a rentabilidade da cultura é três vezes maior que a da soja.
Mesmo com os preços em queda, as exportações seguem firmes. Para 2008/09, há cerca de 476 mil toneladas já comprometidas e podem chegar a 600 mil toneladas. No mesmo período do ano passado, contudo, um volume maior já estava reservado, de 642 mil toneladas. Analistas afirmam que os produtores não deverão deixar de cumprir seus contratos de exportação. O Brasil é o quarto maior exportador do mundo. E esse status foi conquistado ao longo dos últimos anos de muito trabalho, sobretudo a partir dos anos 90. De maior importador global, nos anos 80, o país exporta a pluma para mercados exigentes da Europa.