Urucum: o pigmento que vale ouro

16/06/2009

Urucum: o pigmento que vale ouro

 


ANo começo, ele era apenas um pigmento utilizado pelos índios para enfeitar o corpo. Hoje, é muito mais que isso. Com a proibição de corantes artificiais, sobretudo na Europa, o urucum se torna um componente importante para o agronegócio, tanto para o mercado interno, quanto para o externo.

O corante do urucum está basicamente concentrado em sua semente, que possuí uma substância chamada bixina. É ela que dá cor aos tecidos e aos alimentos, tanto produzidos pelas indústrias (têxteis, frigoríficas, alimentícias e farmacêuticas), como para colorir os alimentos – o usual colorífico.

É certo que o urucum já existia no Brasil desde antes da chegada das esquadras de Pedro Álvares Cabral à terra de Vera Cruz, em 21 de abril de 1500. Porém sua primeira menção 'oficial' foi feita na carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao Rei Dom Manuel, de Portugal, comunicando o encontro dessas terras além mar.

"Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho", descreve Caminha, em uma passagem da Carta.

"E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam", continua, no documento que é considerado a certidão de nascimento do Brasil.

Para Sander, pertencente a tribo Terena, o urucum tem uma importância estética: "Nós o utilizamos mais para a pintura de pele", afirma. Ele conta que nas danças de sua tribo as pessoas usam duas cores – o vermelho e o preto –, mas que a escolha é aleatória. "Para nós, as tintas não têm nenhum significado, só as usamos nas festas".

PRODUTO DO AGONEGÓCIO

Hoje, o urucum é mais do que apenas um pigmento utilizado por diversas tribos indígenas. "O urucum pode ser um substancial componente ao agronegócio", diz Marli Costa Poltronieri, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA). "O mercado para corantes naturais está aberto e hoje a valorização por produtos naturais é forte e tem apelo", continua.

Segundo ela, o urucum pode ser cultivado em várias regiões do Brasil. "Ele não tolera temperaturas baixas, tampouco geadas. A temperatura deve ficar em torno de 22ºC e 27ºC. Além disso, ele prefere um clima com abundância de chuvas e boa distribuição mensal da mesma", explica a pesquisadora.

Quanto ao solo, Marli comenta que a planta tem preferência por terras férteis e com relativa umidade. Isso não significa, porém, que a planta, nativa da América tropical, tenha algumas resistências climáticas. "O urucum é uma planta rústica que suporta até três meses sem chuva. Mas ele se recupera rapidamente nas primeiras precipitações", conta.

Mesmo com demanda de mercado, tanto na indústria nacional como um produto que encontra boa procura no exterior, o cultivo de urucum não é feito em alta escala. Marli aponta que o motivo é o preço, pouco atrativo ao agricultor. No entanto, faz uma ressalva: "O produto pode ser mais comercializado desde que seja agregado valores que possam estimular o produtor na ampliação de seu cultivo. Isto pode ser obtido dependendo da organização deles em, por exemplo, cooperativas ou associações, dentre outras", conclui.


Fonte:
Ciência Web
Michel Lacombe - Jornalista