Um baiano cheio de energia será homenageado no primeiro dia da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que vai de 18 a 22 de outubro, na Faculdade Universo. Bautista Vidal criou mais de 30 instituições de pesquisa e centros de tecnologia no Brasil, entre eles o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CEPED) da Bahia. É membro titular Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenou a Conferência de Produção de Energia a partir da Biomassa da Comissão Europeia, realizada em 1997, em Brasília.
A importância do trabalho dele, que defende de forma ferrenha a substituição do petróleo e seus derivados pela produção de energias renováveis, a partir do álcool e de óleos vegetais, para que o Brasil se torne a maior potência energética do mundo, fez com que ele fosse homenageado com uma exposição durante o principal evento de popularização das ciências.
Outras programações
No dia 19 (terça-feira), às nove da manhã, autoridades como o governador Jaques Wagner e os secretários da Educação, Oswaldo Barreto, e de Ciência, Tecnologia e Inovação, Feliciano Tavares, participam de uma cerimônia que oficializa a abertura da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Bahia.
Um simulador de voo profissional, uma célula gigantesca que mostra as funções das organelas celulares, um cinema científico, experiências de eletricidade interativa são algumas das atrações do evento de popularização. Ali vão estar reunidos mais de 40 expositores, entre centros de pesquisa, universidades e associações que vão mostrar o que a Bahia tem feito na área de ciência e tecnologia. A ideia é atrair os mais jovens e despertar neles o interesse pelo tema. As atividades são abertas e gratuitas. A expectativa é de que 1.500 estudantes passem pelo local todos os dias. Os parceiros do evento também contaram com incentivo da Fapesb, a Fundação de Amparo à Pesquisa, que disponibilizou R$ 150 mil através de um edital.
Coordenada na Bahia pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), a Semana Nacional de C&T foi instituída em 2004, por decreto presidencial, para mobilizar, principalmente os jovens e em especial as crianças, em torno de temas e atividades de C&T, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. O tema da Semana este ano é “Ciência para o Desenvolvimento Sustentável”.
Defensor da soberania
Físico com o DNA da política, José Walter Bautista Vidal é um defensor intransigente da soberania nacional e das riquezas do Brasil, um país que pode se tornar o celeiro do mundo e o dínamo da economia mundial, se seus governantes enfrentarem esse portentoso desafio histórico.
Confiram, nesta exposição, algumas ideias desse brasileiro movido a energia, física e intelectual
Sobre o potencial energético brasileiro:
O Brasil é o único continente tropical, é o que tem condições de montar um programa mundial de uma energia que substituí o petróleo. O colapso do petróleo é irremediável e, com isso, o mundo entrou numa curva perigosa, poque o fim desse petróleo precisa ser suprido por uma nova energia. Qual é esse energia? A energia dos trópicos. São o álcool e os óleos vegetais. Não existe outra solução. Então, o Brasil está numa condição excepcional, mas é necessário que o Estado brasileiro apoie decididamente, até porque a experiência que o pequeno produtor sabe produzir energia renovável nós já fizemos, com o polo, no Rio Grande do Sul, que envolve 60 mil produtores e que está se ampliando. E vão se criar muitos outros.
(Entrevista à Assessoria de Comunicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, em 5 de outubro de 2010)
O papel da Bahia na produção de energias renováveis:
Quero propor aos pequenos produtores rurais baianos um programa-piloto de produção de energias renováveis, de implicações nacionais e internacionais, que tornaria o Brasil um país rico e independente. Por que não inciar esse processo na Bahia, com o Governo do Estado, criando uma pequena empresa de economia mista. Depois, viria a área federal, que é indispensável porque tem as políticas e os recursos. E aí, o Estado da Bahia tem condições absolutamente excepcionais de criar esse projeto-piloto, liderando Nordeste, porque não é só o Estado da Bahia, é todo o Nordeste, uma região pobre que pode se tornar rica com a riqueza energética. Os caminhos estão traçados. Agora, é preciso a iniciativa política.
(Entrevista à Assessoria de Comunicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, em 5 de outubro de 2010)
O sol como fonte natural de energia:
O sol é a maior fonte de energia e o sol não abunda igualmente em todas as regiões do mundo. Ele é abundante nos trópicos. Por isso, a região tropical é a que tem mais sol e deve usufruir dessa riqueza. O sol é um reator nuclear natural. Com ele, você não precisa desenvolver tecnologia, o sol sabe fazer isso de graça e ele joga essa energia para o continente tropical brasileiro com enorme potencialidade. E as regiões tropicais, como o Nordeste, têm um potencial fantástico para o desenvolvimento e a criação de empregos no campo, até para 20 milhões de pessoas. Basta começar, porque a demanda é imensa. A China, o Japão, a Índia, a Comunidade Europeia, até os Estados Unidos, têm necessidade de combustíveis renováveis. Então, o Brasil é, indiscutivelmente, no futuro, a grande potencia energética do mundo. Como a energia é o que produz trabalho e o trabalho é a razão da existência das civilizações, nós temos condições de criar uma civilização muito próspera.
(Entrevista à Assessoria de Comunicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, em 5 de outubro de 2010)
Cientista com os pés no chão:
Eu não sou um visionário porque os resultados estão aí. O Brasil é o único país do mundo que tem um programa alternativo ao petróleo, o programa do álcool. Isso foi feito de uma maneira relativamente simples e pode ser aumentado muito, principalmente com os recursos que nós vamos ter disponíveis, provenientes do petróleo do pré-sal. Esses recursos é que vão permitir o grande salto de construir uma infraestrutura nacional de produção de álcool e de óleos vegetais, d em,aneira que pode abastecer o mundo com substitutos dos derivados do petróleo.
(Entrevista à Assessoria de Comunicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, em 5 de outubro de 2010)
A descoberta do pré-sal:
A descoberta da camada do pré-sal leva as autoridades brasileiras a quererem resolver o problema energético com o petróleo. Isso é um erro fundamental. Você deve usar esse petróleo, que é três vezes mais caro do que o álcool, para exportar, porque o mundo todo tem necessidade do petróleo. Com isso você tem dinheiro para montar uma grande infraestrutura de energia renovável que é o futuro do mundo e o Brasil é o futuro do mundo. E não há nada mais importante do que energia, que produz trabalho, emprego e desenvolvimento. Então, nós temos aí um campo fantástico de desenvolvimento, a partir do Estado da Bahia, que vai se estender –pelo resto do Nordeste, que não tem o potencial que a Bahia tem, mas tem um grande potencial. As coisas são muito maiores do que as perspectivas iniciais oferecem. Nós precisamos apoiar, decididamente, os Governos estaduais e federal para que esse programa vá avante possa entrar na competição, abastecendo os mercados da Índia, da China, do Japão, da Comunidade Europeia. O campo é imenso, é só arregaçar as mangas e fazer. E o Brasil vai ser o líder desse processo, porque ninguém pode competir com o Brasil.
(Entrevista à Assessoria de Comunicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, em 5 de outubro de 2010)
Terras para alimento e energia:
Cerca de 30% do território brasileiro é constituído de terras impróprias para a agricultura, mas apta à exploração florestal; a utilização de metade desta área, ou seja, de 120 milhões de hectares, para a formação de florestas energéticas, permitiria a produção sustentada do equivalente a cerca de 5 bilhões de barris de petróleo por ano.
(Trecho do livro De Estado Servil a nação Soberana – Civilização Solidária dos Trópicos).
O fim da civilização do petróleo:
A civilização do petróleo, é a civilização de um dia. Agora, essa quantidade de energia não incide sobre a terra de maneira democrática e equânime. Ela é concentrada nas regiões tropicais. Se você chega em Viena as três horas da tarde, tem que se acender as luzes da rua, porque falta luz para não colidir e, aqui, temos essa abundância de luz fantástica.
(Entrevista à revista Caros Amigos, em dezembro de 1997)
Mestre entre mestres
Durante três anos treinei os primeiros 67 geofísicos brasileiros que descobriram a bacia de Campos e criaram para a Petrobrás a plataforma continental, até então considerada inviável. Fundei ainda o Instituto de Física e cerca de trinta instituições de tecnologia no país. Aí, aos 28 anos, fui chamado pelo governador da Bahia, Luís Viana Filho, para ser secretário de Ciência e Tecnologia, primeira secretaria do gênero do país. Foi uma fase muito rica, participei decisivamente da criação do Polo Petroquímico de Camaçari.
(Entrevista a Caros Amigos)
O trunfo energético do Brasil:
O trunfo do Brasil é a grande fonte de todas as formas de energia usadas pelo homem até agora e dentro de bilhões de anos: o nosso astro-rei, o reator a fusão nuclear que é o sol, porque somos o grande continente tropical do planeta. O petróleo, o xisto, a turfa, o gás natural, tudo isso tem como origem o sol, por meio dos hidratos de carbono, que são as substâncias químicas que, nas plantas, armazenam a energia que vem do sol — os açúcares, os óleos vegetais e as celuloses — e que se transformam em seres vivos — os vegetais e os animais, e que em processo de milhões de anos se transformam em petróleo. Então, até este depende do sol, só que leva 800 milhões de anos para se formar, enquanto a biomassa é a capacidade de captar essa energia quase que instantaneamente e pôr permanentemente à disposição do homem. O trunfo é usar o dividendo imediato do astro-rei, em vez de usar um capital que leva milhões de anos para existir. E as nações hegemônicas, por serem muito pobres de energia, porque estão em regiões temperadas e frias do planeta, cometeram esse viés histórico que as levará à decadência e à inviabilidade, a menos que tomem o potencial de energia dos trópicos.
(Entrevista a Caros Amigos)
Óleos vegetais do Brasil:
Você tem centenas de óleos no Brasil, desde a mamona, o girassol, a colza, a soja, o dendê, o babaçu, uma porção de óleos. Para ter ideia da dimensão dessa coisa, só o dendê na região amazônica são 70 milhões de hectares, com baixíssima produtividade de floresta, sem nenhuma tecnologia — são 4 toneladas por hectare por ano, dá para produzir 6 milhões de bar
O babaçu, esse coquinho, tem várias partes. Tem a amêndoa central, da qual você extrai óleo e substitui o diesel; depois tem uma parte dura de celulose pura, que é o excepcional carvão natural, sem nenhuma poluição. Estávamos desenvolvendo tecnologias de grandes siderúrgicas baseados nesse coque do babaçu, com resistência mecânica espetacular. Depois, você tem outra camada que é amido, no mesmo coco. Com esse amido, você faz o álcool. Da amêndoa, você faz o substituto do diesel, do amido faz o substituto da gasolina, e ainda tem a parte externa, que é palha, que produz calor. Então, quando você transforma aquele mesocarpo do babaçu, que é carbono praticamente puro, em carvão vegetal de altíssima qualidade, altíssima resistência mecânica, você tem uma quantidade enorme de produtos químicos, quer dizer, do coco do babaçu você pode construir um gigantesco complexo petroquímico e energético, jamais visto no mundo, e para sempre, e mantendo a floresta.
(Entrevista a Caros Amigo)
Brasil, celeiro do mundo:
O Brasil tem 13 por cento do território ocupado pela agricultura e pecuária. Desses 13 por cento, saem 80 milhões de toneladas de grãos, produção média dos últimos anos. Cada tonelada de grão dá para alimentar entre quatro e cinco pessoas por ano. Vamos tomar quatro vezes oitenta: 320 milhões só com os grãos. Além disso, o país é o maior produtor mundial de mandioca — 27 por cento de proteína. É o maior produtor de açúcar do mundo — energia, caloria. É o segundo maior produtor de cacau do mundo. Ou seja, com 13 por cento do território, produz o suficiente para alimentar 600, 700, 800 milhões de pessoas. Podia alimentar 10 bilhões. Repare que somos apenas 150 milhões, usamos somente 13 por cento do território, o resto todo é cultivável, não temos deserto nem tufões, e com esse alimento todo temos 40 milhões submetidos ao genocídio da fome, matando 1.600 crianças por dia.
(Entrevista a Caros Amigos)
Fixação do homem no campo:
A agricultura brasileira, com esse potencial fantástico, além do ponto de vista da alta produção de alimentos, pode colocar a energia nesse contexto, e imagine o valor estratégico que a terra passa a ter! A terra vai ser o grande responsável pelas duas peças essenciais: a energia que movimenta o mundo e o alimento que mantém a vida. Com essa terra toda que temos aqui, com o valor mundial da energia, o mercado é que permitirá você fixar essa gente na terra aos milhões . Vinte milhões você pode cogitar a curto prazo.
(Entrevista a Caros Amigos)
A nacionalidade de Deus:
Deus é brasileiro mesmo. Ele já deu tudo ao Brasil, mas precisa o brasileiro assumir o seu papel.
(Entrevista à Ascom da SECTI)