"Há uma janela de oportunidades para quem pretende empreender e inovar”, diz superintendente de inovação da Bahia

11/09/2015

Thomas Buck

O ecossistema da inovação só estará completo quando a cadeia de valor estiver completa, o que consiste em conectar universidades, centros de pesquisa e empresas. É isso o que busca Thomas Buck, Superintentente Inovação da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia. Nesta entrevista ao blog, ele analisa o ambiente de empreendedorismo e inovação no País, em especial na Bahia.

Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia, Thomas tem mestrado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP e Doutorado em Ciências Naturais pela Universität Tübingen, na Alemanha. Desde 2005 é professor da Universidade Salvador (UNIFACS), onde já atuou como pesquisador da pós-graduação em Computação, coordenador de curso de Engenharia de Computação e coordenador da Agência de Inovação.
Confira abaixo a entrevista.

Como você enxerga o ecossistema de empreendedorismo e inovação no estado da Bahia?

Acredito que hoje a Bahia atravessa uma fase análoga à do Brasil. Estamos experimentando uma janela de oportunidades de crescimento do nosso ecossistema de empreendedorismo e de inovação, que espero nunca mais seja fechada. Até há bem pouco tempo, os entrantes no mercado de trabalho pensavam nas opções existentes à época: seguir a carreira pública ou seguir a carreira de “empregabilidade”, ou seja, se tornar funcionário de uma grande empresa, de preferência. Hoje se torna cada vez mais comum uma terceira opção: a carreira de empresário, ou seja, o profissional bem qualificado que prefere abrir o próprio negócio – e, diga-se de passagem, por opção, não por necessidade.

Como faço parte – junto com inúmeros outros amigos e colegas – do ecossistema estadual de empreendedorismo e inovação desde 2008, aproximadamente, observo claramente o avanço dessas oportunidades em nosso estado. Como exemplo, posso citar a quantidade de novos negócios que surgem a cada ano. Da mesma forma, tem aumentado a quantidade de eventos (tanto no formato clássico, na forma de apresentações, por exemplo, quanto no formato mais interativo, na forma de oficinas interativas) para o público.

Me atrevo a dizer inclusive que já vejo esforços de criação de alguns pequenos grupos de investidores (num estágio ainda “pré-anjos”) que já monitoram o mercado de startups na busca de bons projetos. Enfim, apesar do tamanho de nosso estado em termos econômicos ser bastante expressivo, ficamos para trás em termos de protagonismo frente a outros estados. Mas acredito que estejamos fazendo um esforço bastante significativo para colocar a Bahia numa posição mais visível a nível nacional.

Quais as principais ações da Secretaria de Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia atualmente?

Thomas Buck – A visão da secretaria em relação à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) é a seguinte: o ecossistema só estará completo com a cadeia de valor completa, que consiste basicamente em universidades (como entidades geradoras de novos conhecimentos), depois os centros de pesquisa (tanto públicos quanto privados, que transformam o conhecimento em protótipos de novos produtos e processos) e, por fim, as empresas. As companhias então agregam essas soluções em nossa sociedade, oxigenando assim a economia com novas oferta de maior valor.

A Bahia, por exemplo, aumentou significativamente a quantidade de formação de novos doutores nos últimos anos. A FAPESB teve um papel fundamental nesse processo, na medida em que expandia a concessão de bolsas de estudo para tal. Foi inaugurado também, há praticamente três anos, o Parque Tecnológico da Bahia, localizado na zona norte da capital, que tem como papel principal atuar como um catalisador, pois numa situação ideal deverá conter instituições representativas das áreas de CT&I. Nesse sentido, estamos fazendo um esforço bastante significativo para inaugurar nos próximos anos outros parques no interior de nosso estado, em função dos seguintes fatores: a Bahia é um estado de grandes dimensões territoriais e, além disso, já existem algumas regiões com densidade de conhecimento interessante para tal.

Junto a outras secretarias de nosso estado, estamos tentando também atrair novos empreendimentos, como, por exemplo, os da área de energias renováveis, pois o potencial do eólico e do solar de nosso estado é muito grande. A aproximação com as universidades públicas, tanto federais quanto estaduais, será vital para o amadurecimento dessa cadeia produtiva na Bahia, que tanto promete para um futuro próximo. Será necessário também estimular a criação de negócios nesse setor, principalmente com tecnologia (leia-se conhecimento) gerada pelos próprios baianos.

Uma prioridade da gestão atual de nosso estado é a banda larga, que deve receber fortes investimentos nos próximos anos. Acima da estrutura física de rede que estará disponível em boa parte de nosso estado, estamos nos esforçando também para criar uma comunidade ativa na grande área de cidades digitais e inteligentes. Estamos criando uma força tarefa para discutir os planos para os próximos anos, chamando as universidades públicas e privadas, além de prefeituras, principalmente as do interior, para que os esforços não sejam duplicados.

Por fim, estamos atuando não apenas no arcabouço estadual de incentivo ao ecossistema em discussão (lei estadual de inovação, bem como de sua regulamentação, e também da política estadual de CT&I), como também no desenvolvimento e capacitação das empresas baianas para aumentar a competitividade no mercado, tanto nacional quanto no exterior. Contamos para isso com fortes parcerias de instituições federais e estaduais, assimi como o SEBRAE, a Federação das Indústria do Estado da Bahia (FIEB), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) e a DesenBahia.

O que poderia melhorar na atuação do governo na área de inovação no país?

Thomas Buck – O Brasil, ou melhor, o poder público brasileiro já está bastante sintonizado com os novos tempos. É possível constatar issi fato da seguinte maneira: o governo sinalizou há pouco tempo a importância da área com a mudança do nome do ministério, para Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mais recentemente, fez a Emenda Constitucional 85, que coloca a inovação como uma prioridade em nosso país. Outro exemplo visível é que hoje as instituições de ensino e pesquisa, que fazem uso intenso da plataforma Lattes, começam a colocar a proteção intelectual (como marcas e patentes) em grau de importância equivalente ao das publicações científicas, o que não deixa de ser um grande avanço para o ecossistema em discussão. Outra grande ação para incentivar o avanço do ecossistema foi o lançamento do programa Startup Brasil, que inclusive está chamando a atenção de empreendedores estrangeiros, que conseguem enxergar uma grande oportunidade de fomento em nosso país. Temos inclusive em nosso estado uma aceleradora credenciada pelo programa, que tem feito um esforço considerável em atrair e desenvolver negócios de alcance nacional e internacional.

Uma agenda positiva foi lançada há poucos meses, denominada Brasil Mais Empreendedor, na qual uma série de mudanças foram sugeridas por um conjunto de influenciadores para aperfeiçoar o sistema. Os sete pilares desse documento são: Ambiente Regulatório, Acesso a Capital, Mercado, Inovação, Infraestrutura, Capital Humano e Cultura Empreendedora. A ideia é apresentar este documento a pessoas influentes da esfera pública para que sejam sensibilizadas e possam colocar em práticas essas ideias. Estou convencido de que, se algumas dessas sugestões forem acatadas, o Brasil só tem a ganhar.

Como a relação entre o mercado, universidades e governo está organizada no estado da Bahia?

Thomas Buck – Pense que temos o seguinte conjunto: volante, pneus, assento, motor, chassi, carroceria, etc. Só por isso podemos dizer que temos um carro? Não, exceto se todas essas peças estiverem interligadas. Acho que essa analogia serve para dizer o seguinte: temos os principais atores do ecossistema de empreendedorismo e inovação em nosso estado, mas essas “peças” não estão conversando entre si, de maneira estruturada, consistente, permanente, duradoura. Iniciativas e boa vontade existem possivelmente em todas as instituições, mas não existe um horizonte de crescimento para o empreendedor. Em cada uma dessas instituições, quando entidades isoladas, há competência limitada. Quando não conseguem mais colaborar com o negócio em desenvolvimento, tem-se a impressão de que ele está desamparado, desestimulando assim a cadeia produtiva.

Tenho a visão de que a SECTI pode colaborar muito com o ecossistema estadual, quando planejamos um horizonte de longo prazo, tanto para as empresas já existentes na Bahia, bem como os negócios em estágio inicial de vida. Estamos trabalhando para deixar como legado uma regulamentação mais moderna, um conjunto de espaços tecnológicos propícios para o surgimento de novos negócios com alto valor agregado, bem como sensibilizando outros atores do sistema estadual para perceberem que diversos problemas hoje existentes em nossa sociedade podem e devem ser resolvidos com a adoção de soluções baseadas em ciência e tecnologia. Não estou dizendo com isso que a SECTI é a “tábua da salvação” de nossa sociedade, é apenas uma ferramenta que estamos disponibilizando.

Conte-nos um pouco mais da sua carreira e planos futuros.

Thomas Buck – Me considero hoje um evangelista do movimento que acredita que empreendedorismo e inovação podem e devem transformar o mundo. Grandes problemas hoje que afligem nossa sociedade, como saúde, segurança, mobilidade, educação, sustentabilidade, dentre outros, ganharam nos últimos tempos soluções incríveis, boa parte delas baseadas em uso intenso de tecnologia. A internet é hoje talvez a maior plataforma de geração de negócios que a humanidade já criou. Incluo aí também os aplicativos e a adoção dos telefones móveis como condição para tal.

Além de gigantesca, é uma oportunidade bastante democrática: todos podem se beneficiar. Basta querer e investir esforço na empreitada. Sou formado em engenharia, mas não exerci a profissão. Sempre trabalhei na área de computação, inicialmente como professor e depois como profissional, mais recentemente como empreendedor. Passei a atuar na área de negócios, no início por necessidade, mas hoje tenho uma satisfação enorme ao me enxergar atuando numa área complementar da tecnologia. Consigo assim ter uma visão privilegiada, tanto sob a ótica da tecnologia, quanto sob a ótica de negócios. Hoje ocupo uma posição no poder público em que posso e devo contribuir para desenvolver o nosso estado, ajudando pessoas e empresas a serem mais competitivas, a produzirem mais valor (ou pelo menos que a sociedade perceba esse valor gerado) e a modernizar o perfil econômico de nosso estado. Recentemente foi divulgada uma pesquisa envolvendo 14 capitais de nosso país no quesito empreendedorismo.

Ficamos em último lugar. Como baiano e soteropolitano, não esperava isso, mas vamos enfrentar essa situação encarando-a como uma oportunidade para sair dessa posição incômoda. Quem sabe na próxima edição da pesquisa teremos passado a lanterna para outra capital. Ainda leciono nas noites de semana em uma universidade de Salvador. Ensino disciplinas tecnológicas, mas sempre que possível com uma abordagem mais prática, no sentido de fazer com que as novas gerações perceba que a tecnologia disponível pode ajudar a encontrar soluções criativas para os problemas de nossa sociedade.

Enquanto puder navegar dentro desse cenário, espero ser um profissional que ajude a transformar não apenas o nosso estado, mas formar uma nova geração de profissionais capaz de contribuir para a modernização de nossa sociedade.
O ecossistema da inovação só estará completo quando a cadeia de valor estiver completa, o que consiste em conectar universidades, centros de pesquisa e empresas. É isso o que busca Thomas Buck, Superintentente Inovação da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia. Nesta entrevista ao blog, ele analisa o ambiente de empreendedorismo e inovação no País, em especial na Bahia.

Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia, Thomas tem mestrado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP e Doutorado em Ciências Naturais pela Universität Tübingen, na Alemanha. Desde 2005 é professor da Universidade Salvador (UNIFACS), onde já atuou como pesquisador da pós-graduação em Computação, coordenador de curso de Engenharia de Computação e coordenador da Agência de Inovação.
Confira abaixo a entrevista.

Como você enxerga o ecossistema de empreendedorismo e inovação no estado da Bahia?

Acredito que hoje a Bahia atravessa uma fase análoga à do Brasil. Estamos experimentando uma janela de oportunidades de crescimento do nosso ecossistema de empreendedorismo e de inovação, que espero nunca mais seja fechada. Até há bem pouco tempo, os entrantes no mercado de trabalho pensavam nas opções existentes à época: seguir a carreira pública ou seguir a carreira de “empregabilidade”, ou seja, se tornar funcionário de uma grande empresa, de preferência. Hoje se torna cada vez mais comum uma terceira opção: a carreira de empresário, ou seja, o profissional bem qualificado que prefere abrir o próprio negócio – e, diga-se de passagem, por opção, não por necessidade.

Como faço parte – junto com inúmeros outros amigos e colegas – do ecossistema estadual de empreendedorismo e inovação desde 2008, aproximadamente, observo claramente o avanço dessas oportunidades em nosso estado. Como exemplo, posso citar a quantidade de novos negócios que surgem a cada ano. Da mesma forma, tem aumentado a quantidade de eventos (tanto no formato clássico, na forma de apresentações, por exemplo, quanto no formato mais interativo, na forma de oficinas interativas) para o público.

Me atrevo a dizer inclusive que já vejo esforços de criação de alguns pequenos grupos de investidores (num estágio ainda “pré-anjos”) que já monitoram o mercado de startups na busca de bons projetos. Enfim, apesar do tamanho de nosso estado em termos econômicos ser bastante expressivo, ficamos para trás em termos de protagonismo frente a outros estados. Mas acredito que estejamos fazendo um esforço bastante significativo para colocar a Bahia numa posição mais visível a nível nacional.

Quais as principais ações da Secretaria de Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia atualmente?

Thomas Buck – A visão da secretaria em relação à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) é a seguinte: o ecossistema só estará completo com a cadeia de valor completa, que consiste basicamente em universidades (como entidades geradoras de novos conhecimentos), depois os centros de pesquisa (tanto públicos quanto privados, que transformam o conhecimento em protótipos de novos produtos e processos) e, por fim, as empresas. As companhias então agregam essas soluções em nossa sociedade, oxigenando assim a economia com novas oferta de maior valor.

A Bahia, por exemplo, aumentou significativamente a quantidade de formação de novos doutores nos últimos anos. A FAPESB teve um papel fundamental nesse processo, na medida em que expandia a concessão de bolsas de estudo para tal. Foi inaugurado também, há praticamente três anos, o Parque Tecnológico da Bahia, localizado na zona norte da capital, que tem como papel principal atuar como um catalisador, pois numa situação ideal deverá conter instituições representativas das áreas de CT&I. Nesse sentido, estamos fazendo um esforço bastante significativo para inaugurar nos próximos anos outros parques no interior de nosso estado, em função dos seguintes fatores: a Bahia é um estado de grandes dimensões territoriais e, além disso, já existem algumas regiões com densidade de conhecimento interessante para tal.

Junto a outras secretarias de nosso estado, estamos tentando também atrair novos empreendimentos, como, por exemplo, os da área de energias renováveis, pois o potencial do eólico e do solar de nosso estado é muito grande. A aproximação com as universidades públicas, tanto federais quanto estaduais, será vital para o amadurecimento dessa cadeia produtiva na Bahia, que tanto promete para um futuro próximo. Será necessário também estimular a criação de negócios nesse setor, principalmente com tecnologia (leia-se conhecimento) gerada pelos próprios baianos.

Uma prioridade da gestão atual de nosso estado é a banda larga, que deve receber fortes investimentos nos próximos anos. Acima da estrutura física de rede que estará disponível em boa parte de nosso estado, estamos nos esforçando também para criar uma comunidade ativa na grande área de cidades digitais e inteligentes. Estamos criando uma força tarefa para discutir os planos para os próximos anos, chamando as universidades públicas e privadas, além de prefeituras, principalmente as do interior, para que os esforços não sejam duplicados.

Por fim, estamos atuando não apenas no arcabouço estadual de incentivo ao ecossistema em discussão (lei estadual de inovação, bem como de sua regulamentação, e também da política estadual de CT&I), como também no desenvolvimento e capacitação das empresas baianas para aumentar a competitividade no mercado, tanto nacional quanto no exterior. Contamos para isso com fortes parcerias de instituições federais e estaduais, assimi como o SEBRAE, a Federação das Indústria do Estado da Bahia (FIEB), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) e a DesenBahia.

O que poderia melhorar na atuação do governo na área de inovação no país?

Thomas Buck – O Brasil, ou melhor, o poder público brasileiro já está bastante sintonizado com os novos tempos. É possível constatar issi fato da seguinte maneira: o governo sinalizou há pouco tempo a importância da área com a mudança do nome do ministério, para Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mais recentemente, fez a Emenda Constitucional 85, que coloca a inovação como uma prioridade em nosso país. Outro exemplo visível é que hoje as instituições de ensino e pesquisa, que fazem uso intenso da plataforma Lattes, começam a colocar a proteção intelectual (como marcas e patentes) em grau de importância equivalente ao das publicações científicas, o que não deixa de ser um grande avanço para o ecossistema em discussão. Outra grande ação para incentivar o avanço do ecossistema foi o lançamento do programa Startup Brasil, que inclusive está chamando a atenção de empreendedores estrangeiros, que conseguem enxergar uma grande oportunidade de fomento em nosso país. Temos inclusive em nosso estado uma aceleradora credenciada pelo programa, que tem feito um esforço considerável em atrair e desenvolver negócios de alcance nacional e internacional.

Uma agenda positiva foi lançada há poucos meses, denominada Brasil Mais Empreendedor, na qual uma série de mudanças foram sugeridas por um conjunto de influenciadores para aperfeiçoar o sistema. Os sete pilares desse documento são: Ambiente Regulatório, Acesso a Capital, Mercado, Inovação, Infraestrutura, Capital Humano e Cultura Empreendedora. A ideia é apresentar este documento a pessoas influentes da esfera pública para que sejam sensibilizadas e possam colocar em práticas essas ideias. Estou convencido de que, se algumas dessas sugestões forem acatadas, o Brasil só tem a ganhar.

Como a relação entre o mercado, universidades e governo está organizada no estado da Bahia?

Thomas Buck – Pense que temos o seguinte conjunto: volante, pneus, assento, motor, chassi, carroceria, etc. Só por isso podemos dizer que temos um carro? Não, exceto se todas essas peças estiverem interligadas. Acho que essa analogia serve para dizer o seguinte: temos os principais atores do ecossistema de empreendedorismo e inovação em nosso estado, mas essas “peças” não estão conversando entre si, de maneira estruturada, consistente, permanente, duradoura. Iniciativas e boa vontade existem possivelmente em todas as instituições, mas não existe um horizonte de crescimento para o empreendedor. Em cada uma dessas instituições, quando entidades isoladas, há competência limitada. Quando não conseguem mais colaborar com o negócio em desenvolvimento, tem-se a impressão de que ele está desamparado, desestimulando assim a cadeia produtiva.

Tenho a visão de que a SECTI pode colaborar muito com o ecossistema estadual, quando planejamos um horizonte de longo prazo, tanto para as empresas já existentes na Bahia, bem como os negócios em estágio inicial de vida. Estamos trabalhando para deixar como legado uma regulamentação mais moderna, um conjunto de espaços tecnológicos propícios para o surgimento de novos negócios com alto valor agregado, bem como sensibilizando outros atores do sistema estadual para perceberem que diversos problemas hoje existentes em nossa sociedade podem e devem ser resolvidos com a adoção de soluções baseadas em ciência e tecnologia. Não estou dizendo com isso que a SECTI é a “tábua da salvação” de nossa sociedade, é apenas uma ferramenta que estamos disponibilizando.

Conte-nos um pouco mais da sua carreira e planos futuros.

Thomas Buck – Me considero hoje um evangelista do movimento que acredita que empreendedorismo e inovação podem e devem transformar o mundo. Grandes problemas hoje que afligem nossa sociedade, como saúde, segurança, mobilidade, educação, sustentabilidade, dentre outros, ganharam nos últimos tempos soluções incríveis, boa parte delas baseadas em uso intenso de tecnologia. A internet é hoje talvez a maior plataforma de geração de negócios que a humanidade já criou. Incluo aí também os aplicativos e a adoção dos telefones móveis como condição para tal.

Além de gigantesca, é uma oportunidade bastante democrática: todos podem se beneficiar. Basta querer e investir esforço na empreitada. Sou formado em engenharia, mas não exerci a profissão. Sempre trabalhei na área de computação, inicialmente como professor e depois como profissional, mais recentemente como empreendedor. Passei a atuar na área de negócios, no início por necessidade, mas hoje tenho uma satisfação enorme ao me enxergar atuando numa área complementar da tecnologia. Consigo assim ter uma visão privilegiada, tanto sob a ótica da tecnologia, quanto sob a ótica de negócios. Hoje ocupo uma posição no poder público em que posso e devo contribuir para desenvolver o nosso estado, ajudando pessoas e empresas a serem mais competitivas, a produzirem mais valor (ou pelo menos que a sociedade perceba esse valor gerado) e a modernizar o perfil econômico de nosso estado. Recentemente foi divulgada uma pesquisa envolvendo 14 capitais de nosso país no quesito empreendedorismo.

Ficamos em último lugar. Como baiano e soteropolitano, não esperava isso, mas vamos enfrentar essa situação encarando-a como uma oportunidade para sair dessa posição incômoda. Quem sabe na próxima edição da pesquisa teremos passado a lanterna para outra capital. Ainda leciono nas noites de semana em uma universidade de Salvador. Ensino disciplinas tecnológicas, mas sempre que possível com uma abordagem mais prática, no sentido de fazer com que as novas gerações perceba que a tecnologia disponível pode ajudar a encontrar soluções criativas para os problemas de nossa sociedade.

Enquanto puder navegar dentro desse cenário, espero ser um profissional que ajude a transformar não apenas o nosso estado, mas formar uma nova geração de profissionais capaz de contribuir para a modernização de nossa sociedade.
O ecossistema da inovação só estará completo quando a cadeia de valor estiver completa, o que consiste em conectar universidades, centros de pesquisa e empresas. É isso o que busca Thomas Buck, Superintentente Inovação da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia. Nesta entrevista ao blog, ele analisa o ambiente de empreendedorismo e inovação no País, em especial na Bahia.

Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia, Thomas tem mestrado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP e Doutorado em Ciências Naturais pela Universität Tübingen, na Alemanha. Desde 2005 é professor da Universidade Salvador (UNIFACS), onde já atuou como pesquisador da pós-graduação em Computação, coordenador de curso de Engenharia de Computação e coordenador da Agência de Inovação.
Confira abaixo a entrevista.

Como você enxerga o ecossistema de empreendedorismo e inovação no estado da Bahia?

Acredito que hoje a Bahia atravessa uma fase análoga à do Brasil. Estamos experimentando uma janela de oportunidades de crescimento do nosso ecossistema de empreendedorismo e de inovação, que espero nunca mais seja fechada. Até há bem pouco tempo, os entrantes no mercado de trabalho pensavam nas opções existentes à época: seguir a carreira pública ou seguir a carreira de “empregabilidade”, ou seja, se tornar funcionário de uma grande empresa, de preferência. Hoje se torna cada vez mais comum uma terceira opção: a carreira de empresário, ou seja, o profissional bem qualificado que prefere abrir o próprio negócio – e, diga-se de passagem, por opção, não por necessidade.

Como faço parte – junto com inúmeros outros amigos e colegas – do ecossistema estadual de empreendedorismo e inovação desde 2008, aproximadamente, observo claramente o avanço dessas oportunidades em nosso estado. Como exemplo, posso citar a quantidade de novos negócios que surgem a cada ano. Da mesma forma, tem aumentado a quantidade de eventos (tanto no formato clássico, na forma de apresentações, por exemplo, quanto no formato mais interativo, na forma de oficinas interativas) para o público.

Me atrevo a dizer inclusive que já vejo esforços de criação de alguns pequenos grupos de investidores (num estágio ainda “pré-anjos”) que já monitoram o mercado de startups na busca de bons projetos. Enfim, apesar do tamanho de nosso estado em termos econômicos ser bastante expressivo, ficamos para trás em termos de protagonismo frente a outros estados. Mas acredito que estejamos fazendo um esforço bastante significativo para colocar a Bahia numa posição mais visível a nível nacional.

Quais as principais ações da Secretaria de Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do Estado da Bahia atualmente?

Thomas Buck – A visão da secretaria em relação à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) é a seguinte: o ecossistema só estará completo com a cadeia de valor completa, que consiste basicamente em universidades (como entidades geradoras de novos conhecimentos), depois os centros de pesquisa (tanto públicos quanto privados, que transformam o conhecimento em protótipos de novos produtos e processos) e, por fim, as empresas. As companhias então agregam essas soluções em nossa sociedade, oxigenando assim a economia com novas oferta de maior valor.

A Bahia, por exemplo, aumentou significativamente a quantidade de formação de novos doutores nos últimos anos. A FAPESB teve um papel fundamental nesse processo, na medida em que expandia a concessão de bolsas de estudo para tal. Foi inaugurado também, há praticamente três anos, o Parque Tecnológico da Bahia, localizado na zona norte da capital, que tem como papel principal atuar como um catalisador, pois numa situação ideal deverá conter instituições representativas das áreas de CT&I. Nesse sentido, estamos fazendo um esforço bastante significativo para inaugurar nos próximos anos outros parques no interior de nosso estado, em função dos seguintes fatores: a Bahia é um estado de grandes dimensões territoriais e, além disso, já existem algumas regiões com densidade de conhecimento interessante para tal.

Junto a outras secretarias de nosso estado, estamos tentando também atrair novos empreendimentos, como, por exemplo, os da área de energias renováveis, pois o potencial do eólico e do solar de nosso estado é muito grande. A aproximação com as universidades públicas, tanto federais quanto estaduais, será vital para o amadurecimento dessa cadeia produtiva na Bahia, que tanto promete para um futuro próximo. Será necessário também estimular a criação de negócios nesse setor, principalmente com tecnologia (leia-se conhecimento) gerada pelos próprios baianos.

Uma prioridade da gestão atual de nosso estado é a banda larga, que deve receber fortes investimentos nos próximos anos. Acima da estrutura física de rede que estará disponível em boa parte de nosso estado, estamos nos esforçando também para criar uma comunidade ativa na grande área de cidades digitais e inteligentes. Estamos criando uma força tarefa para discutir os planos para os próximos anos, chamando as universidades públicas e privadas, além de prefeituras, principalmente as do interior, para que os esforços não sejam duplicados.

Por fim, estamos atuando não apenas no arcabouço estadual de incentivo ao ecossistema em discussão (lei estadual de inovação, bem como de sua regulamentação, e também da política estadual de CT&I), como também no desenvolvimento e capacitação das empresas baianas para aumentar a competitividade no mercado, tanto nacional quanto no exterior. Contamos para isso com fortes parcerias de instituições federais e estaduais, assimi como o SEBRAE, a Federação das Indústria do Estado da Bahia (FIEB), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) e a DesenBahia.

O que poderia melhorar na atuação do governo na área de inovação no país?

Thomas Buck – O Brasil, ou melhor, o poder público brasileiro já está bastante sintonizado com os novos tempos. É possível constatar issi fato da seguinte maneira: o governo sinalizou há pouco tempo a importância da área com a mudança do nome do ministério, para Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mais recentemente, fez a Emenda Constitucional 85, que coloca a inovação como uma prioridade em nosso país. Outro exemplo visível é que hoje as instituições de ensino e pesquisa, que fazem uso intenso da plataforma Lattes, começam a colocar a proteção intelectual (como marcas e patentes) em grau de importância equivalente ao das publicações científicas, o que não deixa de ser um grande avanço para o ecossistema em discussão. Outra grande ação para incentivar o avanço do ecossistema foi o lançamento do programa Startup Brasil, que inclusive está chamando a atenção de empreendedores estrangeiros, que conseguem enxergar uma grande oportunidade de fomento em nosso país. Temos inclusive em nosso estado uma aceleradora credenciada pelo programa, que tem feito um esforço considerável em atrair e desenvolver negócios de alcance nacional e internacional.

Uma agenda positiva foi lançada há poucos meses, denominada Brasil Mais Empreendedor, na qual uma série de mudanças foram sugeridas por um conjunto de influenciadores para aperfeiçoar o sistema. Os sete pilares desse documento são: Ambiente Regulatório, Acesso a Capital, Mercado, Inovação, Infraestrutura, Capital Humano e Cultura Empreendedora. A ideia é apresentar este documento a pessoas influentes da esfera pública para que sejam sensibilizadas e possam colocar em práticas essas ideias. Estou convencido de que, se algumas dessas sugestões forem acatadas, o Brasil só tem a ganhar.

Como a relação entre o mercado, universidades e governo está organizada no estado da Bahia?

Thomas Buck – Pense que temos o seguinte conjunto: volante, pneus, assento, motor, chassi, carroceria, etc. Só por isso podemos dizer que temos um carro? Não, exceto se todas essas peças estiverem interligadas. Acho que essa analogia serve para dizer o seguinte: temos os principais atores do ecossistema de empreendedorismo e inovação em nosso estado, mas essas “peças” não estão conversando entre si, de maneira estruturada, consistente, permanente, duradoura. Iniciativas e boa vontade existem possivelmente em todas as instituições, mas não existe um horizonte de crescimento para o empreendedor. Em cada uma dessas instituições, quando entidades isoladas, há competência limitada. Quando não conseguem mais colaborar com o negócio em desenvolvimento, tem-se a impressão de que ele está desamparado, desestimulando assim a cadeia produtiva.

Tenho a visão de que a SECTI pode colaborar muito com o ecossistema estadual, quando planejamos um horizonte de longo prazo, tanto para as empresas já existentes na Bahia, bem como os negócios em estágio inicial de vida. Estamos trabalhando para deixar como legado uma regulamentação mais moderna, um conjunto de espaços tecnológicos propícios para o surgimento de novos negócios com alto valor agregado, bem como sensibilizando outros atores do sistema estadual para perceberem que diversos problemas hoje existentes em nossa sociedade podem e devem ser resolvidos com a adoção de soluções baseadas em ciência e tecnologia. Não estou dizendo com isso que a SECTI é a “tábua da salvação” de nossa sociedade, é apenas uma ferramenta que estamos disponibilizando.

Conte-nos um pouco mais da sua carreira e planos futuros.

Thomas Buck – Me considero hoje um evangelista do movimento que acredita que empreendedorismo e inovação podem e devem transformar o mundo. Grandes problemas hoje que afligem nossa sociedade, como saúde, segurança, mobilidade, educação, sustentabilidade, dentre outros, ganharam nos últimos tempos soluções incríveis, boa parte delas baseadas em uso intenso de tecnologia. A internet é hoje talvez a maior plataforma de geração de negócios que a humanidade já criou. Incluo aí também os aplicativos e a adoção dos telefones móveis como condição para tal.

Além de gigantesca, é uma oportunidade bastante democrática: todos podem se beneficiar. Basta querer e investir esforço na empreitada. Sou formado em engenharia, mas não exerci a profissão. Sempre trabalhei na área de computação, inicialmente como professor e depois como profissional, mais recentemente como empreendedor. Passei a atuar na área de negócios, no início por necessidade, mas hoje tenho uma satisfação enorme ao me enxergar atuando numa área complementar da tecnologia. Consigo assim ter uma visão privilegiada, tanto sob a ótica da tecnologia, quanto sob a ótica de negócios. Hoje ocupo uma posição no poder público em que posso e devo contribuir para desenvolver o nosso estado, ajudando pessoas e empresas a serem mais competitivas, a produzirem mais valor (ou pelo menos que a sociedade perceba esse valor gerado) e a modernizar o perfil econômico de nosso estado. Recentemente foi divulgada uma pesquisa envolvendo 14 capitais de nosso país no quesito empreendedorismo.

Ficamos em último lugar. Como baiano e soteropolitano, não esperava isso, mas vamos enfrentar essa situação encarando-a como uma oportunidade para sair dessa posição incômoda. Quem sabe na próxima edição da pesquisa teremos passado a lanterna para outra capital. Ainda leciono nas noites de semana em uma universidade de Salvador. Ensino disciplinas tecnológicas, mas sempre que possível com uma abordagem mais prática, no sentido de fazer com que as novas gerações perceba que a tecnologia disponível pode ajudar a encontrar soluções criativas para os problemas de nossa sociedade.

Enquanto puder navegar dentro desse cenário, espero ser um profissional que ajude a transformar não apenas o nosso estado, mas formar uma nova geração de profissionais capaz de contribuir para a modernização de nossa sociedade.

Fonte: http://revistamove.com.br/