"A economia baiana: a travessia"

Publicado: 13/08/2009 Última atualização: 06/10/2026 às 09:56

Confira aqui o artigo do diretor-geral da SEI, Geraldo Reis, publicado nesta quinta-feira (13), no jornal A Tarde.

Partindo do contexto da maior turbulência econômica das últimas décadas, instalada no País no último trimestre de 2008, a Bahia inicia um processo de recuperação econômica com novas possibilidades de posicionamento no pós-crise.

A economia brasileira vinha crescendo em 2008 a uma taxa média de 6%, até se deparar com a forte retração do crédito, provocada pela crise internacional, e que resultou na intensa queda das atividades econômicas. Foi uma freada exagerada. Considerando que os pilares da macroeconomia brasileira são altamente consistentes, não havia motivos de ordem interna para que ocorresse aquela desaceleração. O que ocorreu de fato foi uma crise de confiança, que, por sua vez, foi gerada a partir da crise de crédito em nível internacional e que contaminou os agentes econômicos no País.

Diante da crise, algumas características da economia brasileira foram vitais. Além dos fundamentos macroeconômicos, a existência de um grande mercado interno e de fortes instituições financeiras estatais contribuiu para não desestruturar os mercados e não causar maiores danos ao tecido social. A capacidade de consumo das famílias - potencializada pelo ganho real do salário mínimo e pelo conjunto de políticas de transferência de renda e de seguridade social - combinada com ações governamentais ante-cíclicas estão sendo determinantes para compensar, em parte, os efeitos negativos sobre a demanda externa.

Na Bahia, a indústria de transformação foi o setor mais atingido, refletindo nas receitas do Estado, com a queda chegando a 14% no primeiro trimestre deste ano. Com os sinais de recuperação dos setores afetados, a expectativa da Sefaz é de crescimento da arrecadação neste segundo semestre, o que se confirma em julho, com o incremento de 3,33% em relação ao mês anterior.

Desde que a SEI anunciou crescimento de 0,6% no PIB da Bahia no primeiro trimestre de 2009, com variação negativa somente no setor industrial (-3,7%), nossa expectativa era de que a economia baiana iria seguir em recuperação. Isso está se confirmando. A produção industrial apresentou em junho, frente ao mesmo mês de 2008, crescimento de 2,4%, interrompendo uma série de oito resultados negativos neste modo de comparação. A expansão foi a maior do País. O comércio baiano também teve a maior taxa do ranking brasileiro de abril para maio, e a maior do ano de 2009 para o varejo baiano. O mercado de trabalho cresceu pelo quinto mês consecutivo, com 23 mil novos postos criados até junho, consolidando o estado como líder no Nordeste. As exportações baianas também tiveram, em junho, o melhor resultado do ano. A utilização da capacidade média instalada da indústria baiana de transformação passou de 77% em março para mais de 79% em junho. Os sinais fragmentados de aquecimento estão se transformando, definitivamente, em uma consistente recuperação da nossa economia.

Mas, importa avaliar essa crise de uma perspectiva mais ampla, antecipando mudanças estruturais. Essa crise ocorre simultaneamente às crises energética e de alimentos e às grandes mudanças climáticas, sendo possível que esteja em curso um esgotamento do padrão de acumulação, com mudanças no padrão tecnológico, no mundo dos negócios, no perfil da força de trabalho, no papel do Estado e nos valores que consubstanciam a idéia de bem estar social.

Apesar da importância do PIB, da arrecadação e da geração de empregos, o governo e os agentes socioeconômicos têm na crise uma oportunidade para aprofundar seus esforços em alterar substancialmente o padrão de desenvolvimento do nosso estado. Trata-se de pensar a descentralização espacial e setorial da nossa economia com um novo olhar que enxergue: o papel estratégico da ciência e da inovação tecnológica; a educação e saúde como políticas fundamentais de inclusão social, mas, também, como importantes vetores econômicos; os novos papéis das cidades médias do estado; a importância da formalização e qualificação da força de trabalho, diminuindo a precarização, mas também o valor da cultura empreendedora dos pequenos e médios agentes econômicos; e a nova classe média rural, possuidora de uma consciência ambiental. Enfim, trata-se de aprofundar o caminho para uma Bahia contemporânea.


José Geraldo Reis é sociólogo, diretor geral da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), professor da UESB e ex-secretário de Expansão Econômica de Vitória da Conquista.


e-mail: geraldoreis@sei.ba.gov.br