Artigo - Os limites da condição humana

Publicado: 23/11/2009 Última atualização: 06/10/2026 às 09:55

Geraldo Reis*

A possível confirmação pela NASA da existência de água na Lua é uma notícia alvissareira, mas requer uma reflexão para além do fato em si.

A filósofa alemã Hannah Arent lançou a célebre obra A Condição Humana, em 1958, como um grande instrumento de reflexão sobre a vida humana na terra. Para a autora, a condição humana é diferente de natureza humana e se caracterizaria como a soma total das atividades e capacidades essenciais à própria existência humana e sem as quais essa existência deixaria de ser humana. Nesse sentido, os homens são seres condicionados não apenas pelos constrangimentos normais da natureza como também pelas coisas artificiais criadas. Trata-se do eterno esforço do homem para se afastar da sua condição de ser originário da natureza e de sobrepô-la mediante a cultura, a ciência e a técnica.

Algumas das expectativas de criações científicas que eram vistas como temerosas pela autora, como esforço do homem em romper os limites da condição humana, se tornaram realidade. O primeiro temor era a possibilidade da criação de vidas humanas em proveta, buscando, sobretudo, criar as condições para a longevidade acima dos cem anos. Outro temor da autora era a possibilidade do advento da automação, que deveria libertar a humanidade do seu mais antigo fardo que é o trabalho. Como se sabe, a automação foi apenas um dos aspectos de aprofundamento da substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto, entretanto, a fadiga e o sofrimento do processo produtivo apenas mudaram de forma.

Telemática, nanotecnologia, robótica, biotecnologia e inúmeros outros “milagres” da ciência não previstos pela autora continuam a expandir o limiar da condição humana. Nunca se duvidou da capacidade de criação do homem, da mesma forma como não se duvida da capacidade de destruição da vida da Terra. Para Arent, a “Terra é a própria quintessência da condição humana” por ser o único planeta conhecido até então com as condições propícias para a vida. E por isso a mudança mais radical da condição humana especulada pela autora seria a emigração dos homens para outro planeta. Ainda assim, continuaríamos humanos, porém cada vez mais condicionados pelas nossas criações artificiais.

Na realidade, a grande preocupação de Arent era com o descontrole da ciência e da técnica, sobretudo o possível divórcio definitivo entre know-how e pensamento, que poderia nos transformar em escravos desprovidos de raciocínio. Embora a reflexão da autora seja digna de registro em função da sua radicalidade, outros pensadores expressaram preocupações similares tais como: Weber, ao salientar o desencantamento do mundo e a tendência crescente de racionalização em todas as esferas; a “Escola de Frankfurt” com a crítica à absolutização da “razão instrumental”; e Boaventura de Souza Santos, que aponta leituras de que a ciência moderna não é apenas caminho para solução dos nossos problemas, mas também parte deles, pois a ciência e a tecnologia têm aumentado a nossa capacidade de ação mas não se fazem acompanhar de aumento de capacidade de previsão das consequências da ação científica.

O atual contexto indica que o processo civilizatório está entrando em fase de fechamento de um grande ciclo em nível planetário. O atual cenário requer uma grande concertação entre os mais diversos povos e nações na busca por uma transição para uma sociedade mais reiterativa na sua relação com a natureza. De acordo com Darcy Ribeiro, uma das formas de suicídio de uma determinada civilização é a saturação de tecnologias eficazes. Não é nenhuma novidade afirmar que os padrões de produção, consumo e fruição de bens materiais da atualidade colocam em cheque a sustentabilidade do planeta. Mas, apesar do reconhecimento das limitações do cientificismo e do paradigma cognitivo dominante, tudo indica que não temos como efetivar uma nova inflexão na relação homem e natureza se não com base no instrumental científico e tecnológico disponível. A recente missão da NASA na Lua é um bom exemplo dessa dubiedade.

*José Geraldo dos Reis Santos é sociólogo, diretor-geral da SEI e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.