Artigo de Coordenador de Acompanhamento Conjuntural da SEI

Publicado: 11/12/2009 Última atualização: 06/10/2026 às 09:55

Um novo ciclo para a Bahia

Luiz Mário Ribeiro Vieira*

Na história econômica brasileira, o termo ciclo era usado para designar os períodos de predomínio de determinados produtos de exportação, como o açúcar, o ouro e o café. O registro das variações cíclicas, com períodos alternados de altas e baixas dos níveis de atividade econômica, remonta ao fim do sáculo XVIII.
O primeiro ciclo econômico na história contemporânea da Bahia foi o  do cacau, que vigorou por mais de quarenta anos (1930-1970), dando à economia baiana um caráter tipicamente de monocultura exportadora. O auge deste ciclo ocorreu na década de 1960, quando setor agropecuário detinha 40% do PIB do estado.
A partir da segunda metade da década de 70, com a instalação do  segundo pólo petroquímico do Brasil, a Bahia entrou no ciclo industrial. A introdução do complexo petroquímico promoveu modificações na estrutura industrial do estado, colocando a indústria baiana como uma das principais fornecedoras de matérias-primas e bens intermediários para os mercados internos (supridora, principalmente, das regiões Sudeste e Sul) e externo.

As modificações quantitativas e qualitativas na estrutura industrial baiana, na década de 70, promoveram profundas transformações na base produtiva do estado. O dinamismo apresentado foi confirmado pelas elevadas taxas de crescimento, resultando num aumento significativo na renda per capita. Esse ciclo se consolidou no final da década de 1980.

A partir da década de 1990, a economia brasileira entrou num processo de reestruturação produtiva devido à  globalização e ao acentuado grau de abertura comercial, levando as economias regionais a se adequarem  a essa nova realidade. Para enfrentar essa nova realidade, a Bahia a adotou um programa de incentivos fiscais voltado para o desenvolvimento industrial do estado, atraindo empresas encadeadoras e adensadoras da malha industrial.

Com esse programa a Bahia inicia outro ciclo econômico com grandes empreendimentos industriais nos   setores petroquímicos,  celulose e papel  e, o mais importante, o complexo automotivo da Ford, propiciando crescimento expressivo do setor industrial e do PIB o que não acontecia desde a década de 1980.

Esses ciclos produziram resultados econômicos satisfatórios, com PIB  estadual triplicando seu valor real, colocando a Bahia como a sexta economia do Brasil, porém os indicadores sociais não acompanharam na mesma proporção os indicadores econômicos. Além disso,  esse crescimento se deu forma altamente concentrada, tanto espacialmente quanto setorialmente.


Com base na distribuição em Territórios de Identidade adotada pelo Governo do Estado da Bahia, a partir de 2007, apenas três territórios (Metropolitano de Salvador, Recôncavo e Litoral Norte) detêm mais de 57% do PIB estado, devido à concentração da atividade industrial nesses territórios que respondem por cerca de 70% do valor adicionado pelo setor.
Essa concentração econômica teve reflexos nos indicadores sociais. O  IDH, que leva em consideração três dimensões básicas para o desenvolvimento humano (Renda, Educação e Longevidade) a  Bahia a avançou muito pouco,  passando da 23ª posição em 1991 para 22ª em 2000. A  renda per capita, um dos itens do IDH,  equivale apenas a  60% da  média do  Brasil.
Diante dessa realidade, o novo ciclo de desenvolvimento da Bahia  deve abandonar a visão estritamente economicista, centrada no crescimento do PIB, para atender às suas particularidades e sua posição em relação ao Brasil,  como 5º lugar em extensão  geográfica  e 4º lugar em população, além de possuir mais da metade dos municípios localizados no semi-árido  e o maior contingente de pessoas vivendo na zona rural (4,5 milhões de pessoas) que corresponde a 32% da população do estado.

Portanto, esse ciclo deve contemplar uma maior  integração dos territórios do estado e pelo  maior  equidade  e com acentuado avanço nos indicadores sociais, voltada para inclusão da grande maioria da população baiana que ficou alijada desses ciclos de crescimento que a Bahia experimentou desde  a década de 1970.

*mestre em Economia, professor universitário e coordenador de Acompanhamento Conjuntural da SEI.