O crescimento econômico do País tem beneficiado, de maneira particular, a população negra. É o que revela o estudo A Nova Classe Média, recém-divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
De acordo com o levantamento, a quantidade de afrodescendentes na classe média aumentou de 39,24% em 2002, para os atuais 50,87%, um avanço de 11 pontos percentuais. No mesmo período, a quantidade de brasileiros na classe média saltou de 43,64% para 51,57%, ou seja, um avanço mais tímido, de aproximadamente oito pontos percentuais.
Apesar do crescimento, a quantidade de negros na classe C (média) está ligeiramente abaixo da média geral da população.
De acordo com o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa, o avanço do poder aquisitivo dos negros surpreendeu a equipe, tendo em vista que, anteriormente, não havia dados positivos relacionados à ascensão social da população preta e parda. Um dos principais critérios usados pela FGV para definir alguém como “classe média”, é a renda familiar mensal compreendida entre R$ 1.064 e R$ 4.561.
A melhoria das perspectivas da população negra também foi percebida com a redução da quantidade de afrodescendentes na classe D, uma queda de 29,61% para 26,29%, e na classe E, de 38,84% para 36,26%, seguindo a mesma base.
DESCRENÇA – As organizações sociais que defendem os direitos da população afrodescendente receberam os números com descrença.
A ex-secretária municipal da Reparação e diretora do bloco Ilê Ayê, Arani Santana, observa que o desempenho obtido não elimina a necessidade de políticas públicas para a população negra. “Os benefícios das políticas atuais, inclusive a questão das cotas, apenas serão perceptíveis nos próximos dez anos”, avalia. Ela ainda acrescenta que a classe média negra em Salvador tradicionalmente não tem visibilidade, pois consome, porém “não aparece nas propagandas, nos meios de comunicação”.
O coordenador do Movimento Negro Unificado (MNU), Marcus Alessandro Mawusi, observa que, apesar do avanço social, o racismo impede que a população negra freqüente “certos espaços”.
“Precisamos de mudanças estruturais no País. Por hora, a criação de uma classe média negra não é algo que merece comemoração”, observa o coordenador do MNU.
DESIGUALDADE – O economista Luiz Chateaubriand, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), observa que a melhoria nas condições de renda dos negros está associada com o aumento da renda real do trabalhador.
“Um dos fatores que determinam o crescimento econômico do País é o aumento do poder de compra da população”, observa.
Ele ainda acrescenta que, o avanço do poder aquisitivo dos afrodescendentes pode ser medido pela maior quantidade de produtos voltados para este segmento populacional, como publicações editoriais, ou mesmo cosméticos.
Apesar do avanço, o economista afirma que há uma grande distância nas condições socioeconômicas das populações negra e branca. Esta diferença se mostra, inclusive, no mercado de trabalho, no qual a população branca ainda ocupa os cargos de chefia. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada na região metropolitana de Salvador pela SEI e parceiros, aponta o fator “raça” como uma variável de peso nos critérios de contratação, sendo o maior volume de desemprego entre os negros.