PED Especial - Os negros no mercado de trabalho da RMS

Publicado: 21/11/2008 Última atualização: 06/10/2026 às 09:27

No dia 20 de novembro é celebrado no Brasil o dia da Consciência Negra,um momento oportuno para se pensar acerca da situação atual dasdesigualdades entre os grupos raciais.

Com o intuito de provocar a reflexão, a Pesquisa de Emprego eDesemprego (PED), realizada em parceria entre a Superintendência deEstudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), autarquia da Secretaria doPlanejamento, a Secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte(SETRE), a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), oDepartamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos(DIEESE) e a Ufba, através da Faculdade de Ciências Econômicas,analisou a situação do negro no mercado de trabalho da RegiãoMetropolitana de Salvador.

As observações se voltam para omundo do trabalho que é um importante espaço da vida em sociedade, ondese configura em grande medida, o lugar que as pessoas vão ocupar nahierarquia social.

Em 2007, a População Economicamente Ativanegra somava 1,574 milhão de pessoas, o que equivalia a 86,6% da forçade trabalho. Entre estes trabalhadores, 77,4% estavam ocupados,enquanto 22,6% permaneciam desempregados. Já a PEA não negra totalizavaapenas 243 mil pessoas, ou 13,4% do total dos que estavam presentes nomercado de trabalho, sendo que 84,4% estavam ocupados e 15,6%,desempregados. Apesar da população negra totalizar um pouco mais de 4/5da PEA, estava em maior proporção no contingente de desempregados(90,4%), evidenciando a desigualdade de oportunidade ocupacional nomercado de trabalho local.         

Os negros apresentavam taxade participação mais elevadas que os não negros em 2007: 61,5% e 59,5%,respectivamente. Um dos fatores que explica essa diferença é que apopulação negra entra mais cedo no mercado de trabalho e é obrigada apermanecer nele por mais tempo. A participação dos negros foi maiselevada do que a dos não negros para os jovens com 18 a 24 anos deidade (75,2% e 67,4%, respectivamente) e para os idosos com 60 anos deidade ou mais (17,9% e 15,8%).

A taxa de desemprego dos negrosé sistematicamente mais elevada que a dos não negros. Em 2007registrou-se 22,7% entre os negros e 15,6%, entre os não negros. Aanálise por cor ou raça e sexo mostrou que são as mulheres negras asque têm maiores dificuldades de inserção ocupacional, com uma taxa dedesemprego de 26,4%, a mais elevada entre todas as seis regiõesmetropolitanas pesquisadas pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED).A segunda maior taxa de desemprego total pertenceu aos homens negros,com 19,2%, seguidos pelas mulheres e homens não negros, com 18,3% e13,1%, respectivamente

Na Região Metropolitana de Salvador, osetor de Serviços, que responde por quase 3/5 das oportunidades deinserção ocupacional, ocupou 57,8% dos negros que possuíam trabalho e68,2% dos não negros. Já no Comércio, cuja participação na estruturaocupacional foi calculada em 16,5%, a proporção de ocupados negros(16,6%) supera a de não negros (15,7%). Na Indústria, por sua vez, ondese verifica maior presença masculina e de empregos de melhor qualidade,foi maior a presença relativa de pessoas não negras (10,4%) do que denegras (8,9%).

Entre as mulheres negras, o Emprego Domésticoempregou quase 1/5 das trabalhadoras (19,9%) e a Construção Civil seconstituiu no espaço de trabalho de cerca de um décimo (9,8%) doshomens negros. Tanto entre a população negra ocupada quanto a nãonegra, a contratação padrão atingia uma parcela maior de mulheres quede homens. Em ambos os grupos populacionais, as mulheres tinhampresença mais expressiva nas ocupações do setor público e os homens nasdo setor privado.

As informações sobre os rendimentos dosocupados na RMS revelam quão profundas são as desigualdades existentesentre negros e não negros no mercado de trabalho. A despeito dorendimento médio na RMS ser pequeno para qualquer grupo ocupacionalanalisado, para a população negra isto é mais evidente. Em 2007 seurendimento médio por hora trabalhada correspondeu a pouco mais de 50%do rendimento do ocupado não negro.

A situação que seapresenta é ainda mais grave para as mulheres negras, haja vista que orendimento médio auferido por esse contingente é o menor frente aqualquer grupo ocupacional observado, mesmo considerando o rendimentopor hora, indicador que expurga os efeitos da menor jornada de trabalhomédia das mulheres. A diferença aprofunda-se consideravelmente quandoos rendimentos médios das mulheres negras são comparados aos dos homensnão-negros, a duplicidade de discriminações, de raça e de gênero,torna-se inquestionável.

Na região metropolitana de Salvador,ao tomar como base o rendimento médio real hora de um homem não negro,as mulheres não negras recebem cerca de 85,5% dos seus rendimentos, oshomens negros, um pouco mais da metade (52,3%) e as mulheres negras,43,8%.

Quando se introduz a variável escolaridade, elemento degrande importância na qualidade da inserção ocupacional, verifica-seque os rendimentos aumentam conforme o nível de escolaridade avança.Tanto para negros quanto não negros, os rendimentos chegam a mais dequatro vezes quando se alcança o nível superior, em relação ao nívelmédio incompleto. Contudo, persiste a diferença entre os rendimentos denegros e não negros, mesmo com a elevação da escolaridade, indicando adificuldade de ascensão profissional e a própria discriminaçãovivenciada por essa população.