Geraldo Reis fala sobre conjuntura econômica e os caminhos para a Bahia no pós-crise
Em entrevista à revista C&P, o sociólogo e diretor-geral da SEI, José Geraldo Reis, analisa os indicadores mais recentes das economias brasileira e baiana, recapitulando o contexto da maior crise das últimas décadas. Ele apresenta a fase atual de transição, avaliada como uma recuperação que deve ganhar fôlego neste segundo semestre de 2009. Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e ex-secretário de Expansão Econômica do Município de Vitória da Conquista, Reis não deixa passar em sua análise o sentido da crise para além dos aspectos econômicos e financeiros, sinalizando mudanças no “padrão de acumulação e regulamentação institucional, no padrão tecnológico, no mundo dos negócios, no perfil da força de trabalho, no papel do Estado e mesmo nos valores que consubstanciam a ideia de bem-estar social”. Para o pós-crise, ele aponta a chance de reposicionamento do estado a partir de novos vetores de desenvolvimento.
C&P – Como o senhor analisa a conjuntura brasileira após a eclosão da crise mundial?
Geraldo Reis – Como se sabe, a economia brasileira vinha crescendo nos três primeiros trimestres de 2008 a uma taxa média de 6%. No quarto trimestre, houve uma intensa queda das atividades econômicas, influenciada pela crise internacional, que provocou uma forte retração do crédito, atingindo o Brasil. Uma freada talvez exagerada, considerando que os chamados pilares da macroeconomia brasileira são considerados altamente sustentáveis, altamente consistentes. Então, nesse sentido, não havia motivos de ordem interna para que ocorresse aquela desaceleração na economia brasileira. Na minha opinião, o que ocorreu de fato foi uma crise de confiança, que por sua vez foi gerada a partir da crise de crédito em nível internacional e que contaminou os agentes econômicos no país.
C&P – E como o senhor avalia o posicionamento do Brasil diante dessa situação?
GR – Algumas características da economia brasileira foram vitais para o posicionamento do país diante da crise. Além dos fundamentos macroeconômicos, a existência de um grande mercado interno, a existência de fortes instituições financeiras de caráter estatal,como o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o Banco do Nordeste, contribuíram, entre outros aspectos, para que a retração das atividades econômicas não desestruturasse os mercados e não causasse maiores danos ao tecido social. Nesse aspecto, a capacidade de consumo das famílias, potencializada pelos ganhos recentes da renda do trabalhador, com o crescimento real do salário mínimo e o conjunto de políticas de transferência de renda e de seguridade social, está sendo determinante para a recuperação, possibilitando inclusive que os efeitos negativos sobre a demanda externa sejam compensados, em parte, pelo vigor do mercado interno. Vale lembrar uma série de medidas do governo federal de ordem monetária, como, por exemplo, dando início à queda de juros; de ordem fiscal, flexibilizando e diminuindo o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), primeiro para a indústria automobilística e em um segundo momento para a chamada linha branca de eletrodomésticos e para materiais
de construção, e, por fim, o pacote da construção civil.
C&P – Quais foram os setores mais atingidos?
GR – O que se observa é que a indústria foi mais fortemente atingida, enquanto no comércio e no setor de serviços os impactos não foram tão significativos. A queda de 0,8% no PIB do país, no primeiro trimestre, ante o trimestre imediatamente anterior, foi puxada pela indústria, com retração de 3%. A agropecuária apresentou um recuo de 0,5% e o setor de serviços subiu 0,8%. Do ponto de vista espacial, observa-se, também, que os estados mais industrializados e com mais links com o mercado externo sofreram mais os impactos da crise.
C&P – De que forma a Bahia foi atingida?
GR – Considerando o perfil da economia baiana, altamente concentrada na indústria de bens intermediários, com grande dependência dos mercados interno e externo, podemos afirmar que a indústria de transformação foi, mesmo nos segmentos de produção de bens finais, como a indústria automobilística, o setor mais atingido pela crise. Como reflexo, o impacto pode ser percebido, também, nas receitas do estado, com queda real de arrecadação de quase 5% no último trimestre de 2008 e de cerca de 14% no primeiro trimestre deste ano. Entretanto, depois de nove meses das repercussões da crise no Brasil, os setores afetados já mostram sinais de recuperação e a expectativa da Sefaz é de crescimento da arrecadação no segundo semestre, já a partir de julho.
C&P – Indicadores mais recentes apontam para a redução dos efeitos da crise. Podemos dizer que o pior já passou?
GR – O que nós observamos, em termos de Brasil, é que tivemos um primeiro trimestre de 2009 ainda com dificuldades, inclusive com o crescimento do desemprego, mas,hoje, já são visíveis os sinais positivos na economia. Observamos a retomada das exportações; assistimos à manutenção do comércio de automóveis; assistimos a bolsa de valores de São Paulo ultrapassar a casa dos 54 mil pontos; e observamos o aumento da concessão de crédito e da confiança dos agentes econômicos. O Índice de Confiança do Consumidor, medido pela Fundação Getúlio Vargas, teve um crescimento de 4,1% em junho em relação a maio, o que contribui para a volta dos investimentos por parte do empresariado.
C&P – E os indicadores para a Bahia?
GR – No primeiro trimestre de 2009, mesmo ainda no meio da turbulência econômica, quando os mais pessimistas esperavam que o PIB baiano apresentasse queda, a exemplo do que se confirmou para o país, tivemos um leve crescimento de 0,6%. Entre os setores, o Comércio teve uma variação positiva de quase 4%, os Serviços cresceram cerca de 3% e a Agropecuária, 2,2%. Somente a Indústria variou negativamente 3,7%. Desde então, a expectativa era de que a economia baiana, gradualmente, confirmasse a tendência de recuperação, o que os indicadores vêm mostrando hoje. A produção da indústria no estado expandiu mais de 7% de abril para maio, o segundo melhor desempenho do Brasil. Também, na mesma comparação, o comércio baiano cresceu 4%, a maior taxa do ranking brasileiro. A taxa foi a maior do ano de 2009 para o varejo baiano e reafirma a tendência de reaquecimento.
C&P – E as exportações do estado, como ficaram?
GR – As exportações baianas tiveram, em junho, o melhor resultado do ano, atingindo cerca de US$ 570 milhões, superando em 25% o resultado do mês anterior. Importante destacar que a China passa a ser o maior parceiro comercial do estado, responsável por 17% das exportações no primeiro semestre, jogando os EUA para a segunda posição, com 14%.
C&P – Como se comportou o mercado de trabalho?
GR – O mercado de trabalho é outro importante indicador que vem respondendo bem, criando postos pelo quinto mês consecutivo. Em 2009, já são mais de 23 mil empregos com carteira assinada, colocando o estado na liderança no Nordeste e na quinta posição no Brasil na geração de vagas no trabalho formal. Este número representa 50% das mais de 46 mil vagas criadas no mesmo período de 2008. Entretanto, em virtude dos desligamentos ocorridos nos últimos trimestres do ano passado, em função da crise, os postos criados no primeiro semestre de 2009 equivalem a 56,4% do saldo total de todo o ano de 2008 (40.922).Consideramos este um excelente resultado.
C&P – Como o governo baiano procedeu em relação às empresas e indústrias e qual é o cenário hoje?
GR – Na Bahia, tivemos o parcelamento o ICMS em quatro vezes e o financiamento do Desenbahia de mais de R$ 100 milhões para capital de giro das micro, pequenas e médias empresas dos setores têxtil e de calçados, alimentos e bebidas, de transformação de plástico e para o Polo de Informática de Ilhéus. Foram ações importantes para minimizar os impactos da crise. Mesmo com a crise e as dificuldades no gerenciamento do capital de giro das empresas, a
Juceb (Junta Comercial do Estado da Bahia) aponta abertura de quase 19 mil novas empresas no estado, no primeiro semestre, o que representa um aumento de 18% em relação ao mesmo período de 2008. As indústrias também devem intensificar a recuperação neste trimestre. Com seus níveis de estoque baixos, elas devem voltar a produzir de forma mais intensa. Vale citar o crescimento, por quatro meses consecutivos, da utilização da capacidade média instalada das indústrias baianas de transformação, passando de 77% em março para mais de 79% em junho.
C&P – Quais as perspectivas para o segundo semestre de 2009?
GR – A equipe da SEI está fazendo um monitoramento fino, tanto da evolução da economia nacional quanto da economia baiana. Alguns números do segundo trimestre ainda estão sendo consolidados, assim não é possível anunciar uma projeção oficial. Mas é certo que estamos caminhando, tanto o Brasil quanto a Bahia, para uma recuperação consistente, com possível ênfase no quarto trimestre de 2009. A minha expectativa pessoal, que não é meramente
especulativa, e que tem por base o monitoramento que a SEI tem feito até então, é de que, no segundo semestre, tanto o Brasil quanto a Bahia devem crescer.
C&P – O que muda na economia após a crise? O que a sociedade ganha e perde?
GR – A crise precisa ser avaliada de uma perspectiva mais ampla, que possibilite uma antecipação das mudanças estruturais decorrentes dela. Essa crise é uma oportunidade de transformação dos comportamentos individuais e dos padrões coletivos. Ela ocorre simultaneamente às crises energética e de alimentos e às grandes mudanças climáticas, trazendo a possibilidade de que esteja em curso um esgotamento do padrão de acumulação e regulamentação institucional, com mudanças no padrão tecnológico, no mundo dos negócios, no perfil da força de trabalho, no papel do Estado e mesmo nos valores que consubstanciam a ideia de bem-estar social. No contexto da Bahia, ainda que compreendendo a importância e a preocupação com o crescimento do PIB, com a melhoria da arrecadação e com a geração de empregos, o governo e os agentes econômicos e sociais precisam aprofundar osesforços para alterar substancialmente o nosso padrão de desenvolvimento. Para além dos atuais grandes vetores de crescimento econômico (petroquímica, agronegócio, turismo, celulose, logística, mineração, entre outros), é necessário observar quais os novos setores que se tornarão dinâmicos e que agregarão valor monetário, mas também qualidade de vida para a nossa população.
C&P – Quais são esses “novos setores”?
GR – Trata-se de pensar a descentralização espacial e setorial da nossa economia, mas com um novo olhar que enxergue o papel estratégico da ciência e da tecnologia, e, consequentemente, um novo papel para as novas universidades federais e estaduais e as escolas técnicas. É necessário conceber a educação e a saúde como políticas fundamentais para a inclusão social, mas também como importantes vetores econômicos, que tendem a ganhar cada vez mais relevância no mundo atual. Nesse contexto, vale reconhecer, também, a importância das estratégias de inclusão social e das políticas de transferência de renda. É necessário dar suporte aos novos papéis das cidades médias para ampliar os seus desempenhos, de forma que a ação governamental possa induzir à concentração e/ou espraiamento de serviços urbanos. É preciso, por um lado, intensificar a formalização e a qualificação da força de trabalho, diminuindo a precarização, e, por outro lado, reforçar a cultura empreendedora dos pequenos e médios agentes econômicos. Temos que apostar na constituição de uma nova classe média rural, possuidora de uma consciência ambiental. Na cultura, a ideia é potencializar a diversidade, bem como os valores emancipacionistas, de forma a contribuir para melhorar a imagem não apenas dos traços conômicos do estado, mas, também, de um modo de vida. Enfim, trata-se de aprofundar o caminho para uma Bahia contemporânea.
C&P – Como está sendo a experiência da SEI de monitorar a economia no contexto da maior crise das últimas décadas?
GR – Esse processo continua sendo feito com a serenidade, a objetividade e a experiência adquiridas ao longo dos anos pela equipe da SEI. A autonomia técnica e científica sustentada pela SEI, mesmo em gestões anteriores, e o profissionalismo dos nossos quadros dão a mim uma grande segurança das análises dos resultados do nosso trabalho. Uma das grandes marcas da SEI, no governo e na sociedade, é a confiança e a credibilidade do seu trabalho.