Desafios do Governo Dilma
*Geraldo Reis – diretor-geral da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI)
Inúmeras são as expectativas da população em relação ao que será do governo Dilma após oito anos da era Lula, com crescimento econômico, distribuição de renda, inclusão social e uma grande sensação de bem-estar das famílias brasileiras. O Brasil de hoje é resultante da combinação de políticas macroeconômicas austeras com crescentes ações desenvolvimentistas e distributivas. Os programas de transferência de renda, o aumento real do salário mínimo, as isenções fiscais e a ampliação do crédito foram essenciais para que tenhamos hoje um país com mais de 50% da sua população classificada como classe média, configurando um grande mercado interno.
Entretanto, há que se lembrar que este retrato deveu-se, em grande medida, a um cenário externo favorável, até a eclosão da crise internacional, quando se evidenciou a retração da economia norte-americana e a importância cada vez maior dos países emergentes. Um dos grandes desafios da presidente eleita será encontrar a inflexão necessária na nossa macroeconomia para enfrentar os entraves decorrentes de um novo cenário internacional adverso, com o aprofundamento da crise, sobretudo, nos países europeus. A China assume papel estratégico nessa nova etapa da globalização econômica.
A China, que tem cumprido um papel importante para nossa economia, ao demandar grandes quantidades de commodities, sobretudo minérios e alimentos, também ocupou nosso mercado com grandes quantidades de produtos manufaturados a baixíssimos preços, contribuindo com o risco de desindustrialização do país. Mais recentemente, a nação chinesa inaugurou uma nova estratégia em relação aos países emergentes, que é a de efetivar investimentos diretos em plantas industriais ou adquirindo grandes extensões de terra. Diante desse paradoxo, o Brasil deve aproveitar as oportunidades, mas, ao mesmo tempo, preparar-se para um reposicionamento diante da China, a fim de evitar a condição apenas de “mina e fazenda” do mundo.
Além disso, a guerra cambial entre a China e os EUA vem gerando repercussões extremamente negativas para o Brasil, com a valorização do real frente ao dólar trazendo danos para a balança comercial. Tais fatores externos, combinados com alguns aspectos conjunturais internos, como a necessidade de conter uma possível tendência inflacionária, de diminuir os gastos públicos e de administrar o câmbio, exigirão do novo governo grande habilidade para resolver esta equação sem comprometer as grandes metas estabelecidas.
Assim sendo, é possível que uma das opções seja diminuir o ritmo do aumento real do salário mínimo, mas aumentar o investimento no programa Bolsa Família, buscando uma incidência maior na estratégia de erradicação da miséria.
Outras preocupações importantes estão relacionadas com a melhoria da gestão da saúde pública, da qualidade do ensino e com a qualificação da força de trabalho, bem como com a questão da segurança pública, que agora ganha força incontornável. Embora a agenda ambiental não esteja aparecendo nesta transição com a força que lhe é própria, no decorrer do mandato, o governo terá que, necessariamente, começar a pensar em possibilidades para se aproximar de uma economia de baixo carbono, o que implica, por exemplo, dar continuidade aos arranjos institucionais, financeiros e tecnológicos do pré-sal, mas, ao mesmo tempo, avançar com os programas dos biocombustíveis e, até mesmo, incentivar as pesquisas sobre o carro elétrico.
Há que se pensar também em como manter um governo supraclassista, que agrega desde setores do agronegócio às representações de trabalhadores rurais, em um período de cobertor ainda mais curto.
Por fim, um dos desafios que terá incidência sobre todos os demais é a transição de um governo comandado por uma grande liderança carismática e com extrema capacidade de negociação para um outro que tende a ser de uma estrutura mais racionalizada, com ênfase na meritocracia, cuja dirigente maior tem um perfil mais técnico-gerencial. É preciso ganhar eficácia na gestão sem perder a capacidade de negociação política, tão necessária para a aprovação de reformas importantes, como a política e a tributária. Um nó a ser desatado.