26/05/2023
O projeto Força Jovem deu a largada com oficina de roteiro audiovisual. Os encontros aconteceram no Centro Juvenil de Ciência e Cultura, no Colégio Central da Bahia, e reuniram mais de 20 jovens a cada dia, egressos da rede pública estadual de ensino no município de Salvador. O Força Jovem é uma ação do Programa Juventude Produtiva, executado pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) e tem investimento de R$ R$ 1.188.200 milhão para a formação de 144 jovens.
Serão sete oficinas de formação, com profissionais reconhecidos na área, para que os jovens atuem nas diversas funções para a realização de produtos audiovisuais: roteiro, produção, direção cinematográfica, direção de arte, captação de imagem (câmera), captação de áudio e edição. Ao final das oficinas, os jovens colocarão a mão na massa e realizarão 24 filmes curta-metragem, ficção ou documentário.
A previsão é a de que no final de junho as equipes estejam em campo filmando. A oficina de roteiro foi ministrada pelo jornalista, cineasta e escritor, Lula Oliveira, e pelo ator, roteirista e diretor, Heraldo de Deus. A coordenação do projeto é do cineasta baiano Antônio Olavo.
Uma ideia na cabeça - Os projetos selecionados, aliás, prometem. O de Pedro Teixeira Miranda, 18 anos, estudante do 2º do ensino médio no Colégio Estadual Alípio Franca (Bonfim) é um deles. “A gente está trazendo um tema que é muito atual, muito importante, ainda mais com as ameaças de massacre que ocorreram: a saúde mental nas escolas. A gente percebe que a saúde mental nos colégios públicos vem sendo muito defasada. Então, a gente espera que dê tudo certo, que a gente faça um documentário importante, que tenha grande visibilidade”, disse.
Já Krishna Damodara, 17 anos, estudante do Centro de Formação e Eventos Isaías Alves, pretende compreender a identidade de grupos da geração Z e o porquê de suas escolhas. “A minha ideia é a seguinte: quando a gente olha pra o mundo, a gente vê que as pessoas se diferenciam e se fecham em bolhas pequenas, de grupos, de formações, comunidades, sociedades, seja por cultura, subcultura, esquemas, práticas, música, arte... E o que é que forma essas pessoas? O que é que faz você querer fazer parte de um grupo? O que te dá a sensação de comunidade? Eu quero buscar isso”, explica
Para Krishna, a sua geração está cansada de ser estereotipada pelo olhar de gerações anteriores, daí porque pretende trabalhar este conceito no curta-metragem. “Quando a gente convive com muitas pessoas a gente não tem tempo de conhecer ela totalmente. Mas é aquilo: você não pode julgar um livro pela capa. Mas se na capa não tem conteúdo, como é que você vai saber do que é que fala o livro?.
Por sua vez, a trancista e manicure Márcia Verônica, 17 anos, estudante do 3º ano do Colégio Rubem Dario, pretende realizar um documentário sobre a violência que leva a morte de jovens negros que estudaram na escola. “O meu projeto trata dos alunos da escola que foram mortos, tanto da parte do crime quanto os que não faziam parte do crime. Inclusive colegas meus foram mortos”, conta.
Mercado - O coordenador do projeto, cineasta baiano Antônio Olavo, conta que visitou todas as 164 escolas públicas da rede estadual na capital convidando os jovens a se inscreverem para o projeto, que teve vagas limitadas. Para isso, os jovens teriam de apresentar o resumo da ideia que pretenderia desenvolver em audiovisual. Foram 144 projetos inscritos e, ao final, 24 selecionados.
“O Força Jovem é um projeto da maior importância. Primeiro, o público ao qual ele se destina. São estudantes da escola pública, da rede estadual de ensino médio no município de Salvador. Segundo, é um público de adolescentes, a maioria negros e negras, carentes de maiores perspectivas de profissionalização. Então, essa iniciativa da Secretaria do Trabalho, vem num momento muito importante, momento que essa juventude precisa vislumbrar perspectiva de sobrevivência”, diz Olavo.
Ele avalia que o momento é favorável, uma vez que as produtoras de cinema têm a perspectiva de desenvolverem muitos projetos a partir de recursos oriundos da Lei Paulo Gustavo, que destinará R$ 78 milhões somente para a Bahia.
“Eu tenho dito pra eles que pra se adentrar ao mercado audiovisual - que é um mercado pujante -, não é preciso um diploma de nível superior, precisa apenas de o querer e o dedicar, concentração, o foco. Eu tenho certeza que um número expressivo, significativo desses estudantes, vão ter esse toque do encantamento e vão adentrar o mercado”, acredita o cineasta.
O cineasta Lula Oliveira, que participa como professor da oficina de roteiro, acredita que as oficinas, para além da técnica, irão desenvolver o olhar crítico dos jovens sobre os produtos audiovisuais. “Quem não tem reflexão crítica sobre o audiovisual vai acreditar em tudo que vê. A importância dessa formação, portanto, é desenvolver o olhar crítico sobre essa narrativa que se tornou dominante, através das redes sociais e demais canais. O primeiro passo é esse. Se vai virar profissional, a mosca machadiana é que vai responder” – reflete o professor, referindo-se ao poema Mosca Azul, do escritor Machado de Assis.
O ator e roteirista Heraldo de Deus opina que o desafio dos jovens será o de levar a formação adiante, após a finalização do projeto. “Normalmente um jovem que mora em um bairro de periferia cumprir outras tarefas, trabalhar para ganhar dinheiro. Espero que isso seja superado”.
Inclusão - Uma novidade importante é que o projeto Força Jovem também absorveu participantes com algum tipo de deficiência, embora não estivesse inicialmente previsto no edital. Dois estudantes do Centro de Educação Especial da Bahia (CEEBA), que apresentam algum grau de deficiência intelectual, estão participando das oficinas.
Uma delas é Winnie Alves de Souza, 27 anos, que tem dificuldade de aprendizagem. Ela se formou no ensino médio em 1999 e, atualmente, é aluna do CEEBA, mais especificamente do Núcleo de Educação Inclusiva para o Trabalho.
“Pra mim está sendo uma ótima experiência porque é uma coisa que eu quero para minha vida, estudar primeiro roteiro, fazer o roteiro e, depois, vou para o teatro. Pra isso, preciso saber de roteiro[...] Pra mim é um grande desafio, mas eu estou disposta a enfrentar esses desafios [...]. Eu gostei de conhecer novas pessoas e interagir”, disse Winnie.
Cada uma das sete oficinas terá um estudante com deficiência intelectual do CEEBA. O professor e mediador pedagógico do CEEBA, Anderson Spavier, disse que no processo de formação dos alunos durante as oficinas, a ideia é “garantir que o curso, de fato, se torne acessível e inclusivo, na sua essência. Vimos a necessidade de um mediador pedagógico no processo”.
Ascom Setre
Serão sete oficinas de formação, com profissionais reconhecidos na área, para que os jovens atuem nas diversas funções para a realização de produtos audiovisuais: roteiro, produção, direção cinematográfica, direção de arte, captação de imagem (câmera), captação de áudio e edição. Ao final das oficinas, os jovens colocarão a mão na massa e realizarão 24 filmes curta-metragem, ficção ou documentário.
A previsão é a de que no final de junho as equipes estejam em campo filmando. A oficina de roteiro foi ministrada pelo jornalista, cineasta e escritor, Lula Oliveira, e pelo ator, roteirista e diretor, Heraldo de Deus. A coordenação do projeto é do cineasta baiano Antônio Olavo.
Uma ideia na cabeça - Os projetos selecionados, aliás, prometem. O de Pedro Teixeira Miranda, 18 anos, estudante do 2º do ensino médio no Colégio Estadual Alípio Franca (Bonfim) é um deles. “A gente está trazendo um tema que é muito atual, muito importante, ainda mais com as ameaças de massacre que ocorreram: a saúde mental nas escolas. A gente percebe que a saúde mental nos colégios públicos vem sendo muito defasada. Então, a gente espera que dê tudo certo, que a gente faça um documentário importante, que tenha grande visibilidade”, disse.
Já Krishna Damodara, 17 anos, estudante do Centro de Formação e Eventos Isaías Alves, pretende compreender a identidade de grupos da geração Z e o porquê de suas escolhas. “A minha ideia é a seguinte: quando a gente olha pra o mundo, a gente vê que as pessoas se diferenciam e se fecham em bolhas pequenas, de grupos, de formações, comunidades, sociedades, seja por cultura, subcultura, esquemas, práticas, música, arte... E o que é que forma essas pessoas? O que é que faz você querer fazer parte de um grupo? O que te dá a sensação de comunidade? Eu quero buscar isso”, explica
Para Krishna, a sua geração está cansada de ser estereotipada pelo olhar de gerações anteriores, daí porque pretende trabalhar este conceito no curta-metragem. “Quando a gente convive com muitas pessoas a gente não tem tempo de conhecer ela totalmente. Mas é aquilo: você não pode julgar um livro pela capa. Mas se na capa não tem conteúdo, como é que você vai saber do que é que fala o livro?.
Por sua vez, a trancista e manicure Márcia Verônica, 17 anos, estudante do 3º ano do Colégio Rubem Dario, pretende realizar um documentário sobre a violência que leva a morte de jovens negros que estudaram na escola. “O meu projeto trata dos alunos da escola que foram mortos, tanto da parte do crime quanto os que não faziam parte do crime. Inclusive colegas meus foram mortos”, conta.
Mercado - O coordenador do projeto, cineasta baiano Antônio Olavo, conta que visitou todas as 164 escolas públicas da rede estadual na capital convidando os jovens a se inscreverem para o projeto, que teve vagas limitadas. Para isso, os jovens teriam de apresentar o resumo da ideia que pretenderia desenvolver em audiovisual. Foram 144 projetos inscritos e, ao final, 24 selecionados.
“O Força Jovem é um projeto da maior importância. Primeiro, o público ao qual ele se destina. São estudantes da escola pública, da rede estadual de ensino médio no município de Salvador. Segundo, é um público de adolescentes, a maioria negros e negras, carentes de maiores perspectivas de profissionalização. Então, essa iniciativa da Secretaria do Trabalho, vem num momento muito importante, momento que essa juventude precisa vislumbrar perspectiva de sobrevivência”, diz Olavo.
Ele avalia que o momento é favorável, uma vez que as produtoras de cinema têm a perspectiva de desenvolverem muitos projetos a partir de recursos oriundos da Lei Paulo Gustavo, que destinará R$ 78 milhões somente para a Bahia.
“Eu tenho dito pra eles que pra se adentrar ao mercado audiovisual - que é um mercado pujante -, não é preciso um diploma de nível superior, precisa apenas de o querer e o dedicar, concentração, o foco. Eu tenho certeza que um número expressivo, significativo desses estudantes, vão ter esse toque do encantamento e vão adentrar o mercado”, acredita o cineasta.
O cineasta Lula Oliveira, que participa como professor da oficina de roteiro, acredita que as oficinas, para além da técnica, irão desenvolver o olhar crítico dos jovens sobre os produtos audiovisuais. “Quem não tem reflexão crítica sobre o audiovisual vai acreditar em tudo que vê. A importância dessa formação, portanto, é desenvolver o olhar crítico sobre essa narrativa que se tornou dominante, através das redes sociais e demais canais. O primeiro passo é esse. Se vai virar profissional, a mosca machadiana é que vai responder” – reflete o professor, referindo-se ao poema Mosca Azul, do escritor Machado de Assis.
O ator e roteirista Heraldo de Deus opina que o desafio dos jovens será o de levar a formação adiante, após a finalização do projeto. “Normalmente um jovem que mora em um bairro de periferia cumprir outras tarefas, trabalhar para ganhar dinheiro. Espero que isso seja superado”.
Inclusão - Uma novidade importante é que o projeto Força Jovem também absorveu participantes com algum tipo de deficiência, embora não estivesse inicialmente previsto no edital. Dois estudantes do Centro de Educação Especial da Bahia (CEEBA), que apresentam algum grau de deficiência intelectual, estão participando das oficinas.
Uma delas é Winnie Alves de Souza, 27 anos, que tem dificuldade de aprendizagem. Ela se formou no ensino médio em 1999 e, atualmente, é aluna do CEEBA, mais especificamente do Núcleo de Educação Inclusiva para o Trabalho.
“Pra mim está sendo uma ótima experiência porque é uma coisa que eu quero para minha vida, estudar primeiro roteiro, fazer o roteiro e, depois, vou para o teatro. Pra isso, preciso saber de roteiro[...] Pra mim é um grande desafio, mas eu estou disposta a enfrentar esses desafios [...]. Eu gostei de conhecer novas pessoas e interagir”, disse Winnie.
Cada uma das sete oficinas terá um estudante com deficiência intelectual do CEEBA. O professor e mediador pedagógico do CEEBA, Anderson Spavier, disse que no processo de formação dos alunos durante as oficinas, a ideia é “garantir que o curso, de fato, se torne acessível e inclusivo, na sua essência. Vimos a necessidade de um mediador pedagógico no processo”.
Ascom Setre