Segunda etapa da ação que integra o Programa Juventude Produtiva vai até agosto
Cinco estudantes do Centro de Educação Especial da Bahia (CEEBA) deram início, neste mês de julho, à segunda etapa projeto Força Jovem, que leva as equipes de realizadores de 24 curtas-metragens ao set de filmagem, etapa anterior à da edição. Antes disso, todos os 122 jovens envolvidos no projeto participaram de oficinas de roteiro, produção, direção, captação de áudio e de luz.
O Força Jovem, braço do Programa Juventude Produtiva vinculado à Secretaria do Trabalho, Emprego,Renda e Esporte (Setre), tem por objeto a realização de filmes curtas-metragens por jovens entre 18 a29 anos de idade, preferencialmente, de escolas da rede pública estadual de Salvador e Região Metropolitana. O projeto conta com apoio da Secretaria de Educação (SEC).
Para o documentário curta-metragem sobre a capoeira e o mestre Dinho, o set de filmagem foi montado na Academia de Capoeira Topázio, na Ladeira de Santana, em Salvador. A proposta do projeto foi de um dos membros da equipe do CEEBA, Hellison Barreto do Nascimento, 26 anos, ex-aluno do capoeirista. Tudo parece dentro do comum, não fosse por um detalhe: o filme está sendo realizado por jovens com alguma deficiência intelectual.
Além de Helisson, que atua como diretor, participam da filmagem WinnieAlves de Souza, 27, como roteirista; Jonatas da Silva Nascimento, 24, operador de câmera e fotografia; Lucas Pereira da Mata Sérgio, 39, operador de áudio e Christian Conceição Correia, 32, na edição. Os cinco colegas do CEEBA estão desenvolvendo o trabalho sob a batuta do cineasta Antonio Olavo,coordenador do Força Jovem, e de uma equipe de profissionais de vídeo e áudio. A idade dos participantes foi ampliada excepcionalmente neste caso, dada à especificidade da equipe. O projeto está fazendo a diferença no dia-a-dia dos estudantes.
Helisson não esconde a alegria. "Gratidão, o que eu sinto. Logo no começo fiquei um pouquinho nervoso, primeira vez que eu faço esse tipo de coisa, então, fiquei um pouco nervoso. Mas, depois estabilizei e aí comecei a sentir uma alegria imensa", conta ele que "queria fazer uma homenagem pra ele [mestre Dinho]". "Graças a Deus que ele gostou, meu propósito foi presentear ele", diz o jovem.
A mãe de Hellison, Maria Raimunda de Jesus Barreto, 54 anos, que acompanhou a gravação, explica que a experiência com o projeto tem melhorado de forma positiva o cotidiano de seu filho."Melhorou bastante, o comportamento, a agressividade, que ele era muito agressivo, estabilizou bastante. Graças a Deus, ele está bem estável agora. A capoeira sempre ajudou, mas com esse projeto,melhorou mais. Ele está entusiasmado, está interessado nas atividades", diz Raimunda.
Roteiro se destaca no projeto
O cineasta baiano Antonio Olavo, coordenador do Força Jovem, abraçou a ideia de ter uma linha inclusiva no projeto e disse que o resultado está sendo positivo.
"Na sociedade soteropolitana, baiana e brasileira, a presença de pessoas com deficiência é um fato. E muitas vezes esse fato não tem a visibilidade merecida. Então, são pessoas maravilhosas, capazes de produzir, de criar, de contribuir com o bem estar da sociedade. Então, essa chancela de um projeto inclusivo, que o Força Jovem adquire com a presença desta equipe do CEEBA, é algo importantíssimo. E eu afirmo, por exemplo, sobre Winnie [a roteirista], eu disse pra ela que, dentre as 24 propostas escritas e selecionadas, aquela que tinha, na minha opinião, melhor roteiro, mais estruturado, onde houve uma construção mais rica, mais forte, foi a dela, foi a do CEEBA, justamentea proposta desses estudantes com deficiência", conta Antonio Olavo.
A experiência como roteirista agradou tanto a estudante Winnie que ela, agora, pretende levar o ofício adiante. "Descobri um lado meu que eu não sabia que tinha. Helisson, quando ele me apresentou o projeto, eu fiquei meio... poxa, será que vou conseguir, será que não? A gente [refere-se àHelisson] conversou bastante. Então, eu comecei a escrever, fui pesquisando, a história da capoeira, do mestre Bimba, foi uma experiência ótima. Então, eu, depois dessa experiência, quero ser uma roteirista, tenho muitos planos pra mim, que eu quero realizar. Então, pra mim, isso foi maravilhoso".
São pessoas, não um CID- O professor Anderson Spavier, que leciona no CEEBA e está como mediador pedagógico dos alunos com deficiência intelectual no projeto Força Jovem, explica que a deficiência intelectual tem particularidades: o déficit cognitivo e questões nos comportamentos adaptativos da pessoa.
"Os cinco estudantes que estão aqui participando, todos têm deficiência intelectual. E do ponto devista da medicina, eles estão ali contemplados no CID 10 de várias formas, mas essas pessoas, elas não são apenas um número, um CID, elas são mais do que isso. A participação desses jovens no projeto foi extremamente enriquecedora. Eu tive a oportunidade de fazer a mediação pedagógica do processo e observei o quanto foi interessante a convivência dos outros estudantes, sem deficiência, com eles. Precisou de um processo de mediação, mas eles conseguiram alcançar os objetivos propostos”, diz o professor.