A ação SineBahia LGBTQIAPN+ desta quinta-feira, 05, realizada na Unidade Central (Pituaçu), finalizou com saldo positivo de 100 cartas de encaminhamento para seleção de empresas que estão com vagas abertas. Além disso, foram 35 pessoas atendidas na oficina de currículo e empregabilidade e outras 48 inscrições nos cursos gratuitos de auxiliar administrativo e recepcionista com espanhol.
Os serviços e cursos oferecidos são uma iniciativa da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), por meio do Sinebahia, e integram a 8ª Semana da Diversidade, promovida pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), cujo ápice acontece no domingo, 08, quando ocorre a Parada Gay da Bahia. Outros parceiros da ação são a Secretaria do Turismo (Setur), Coletivo LGBTQIAPN+ Lalesca D’ Capri e Una – União Nacional LGBT.
A próxima ação do SineBahia para a comunidade LGBTQIAPN+ acontece no dia 12/09, a partir das 8h, no Espaço do Gueto Lounge, no bairro do Nordeste de Amaralina.
Participaram da abertura das atividades o superintendente de Desenvolvimento do Trabalho da Setre, Rubens Santiago; a coordenadora de Intermediação para o Trabalho e Seguro Desemprego da Setre, Kadine Bárbara; representando a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Milena Passos; o presidente-fundador do GGB, professor Luiz Mott; o presidente-fundador da Torcida LGBTricolor, Onã Ruda; representante do Coletivo LGBTQIAPN+ Lalesca D’ Capri, Paulete Furação.
Empregabilidade - O preconceito profissional ainda é um gargalo importante para a entrada de pessoas LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho. A coordenadora de Intermediação para o Trabalho e Seguro Desemprego da Setre, Kadine Bárbara, lembra que ações para empregabilidade deste público são necessárias.
“Nós sabemos o quanto é difícil e preconceituoso o mercado de trabalho lá fora. A ideia nossa é diminuir as desigualdades no mercado de trabalho. Por isso o Sine preparou essa ação e a oferta de cursos. A gente também dialoga com as empresas para que não exista preconceito e para que essas pessoas possam ser selecionadas e venham a entrar no mercado de trabalho”, disse. Outra frente do SineBahia no combate ao preconceito será a capacitação dos servidores e colaboradores na temática.
O jovem Fabrício Augusto Lima Sacramento, 30 anos, participou do evento e se inscreveu para o curso de auxiliar administrativo. Negro, morador do bairro do Uruguai e homossexual, ele conhece bem os obstáculos para a comunidade LGBTQIAPN+ conseguir emprego.
“Acho uma ação necessária porque só através de curso a gente consegue uma inserção no mercado de trabalho. Eu mesmo estou procurando emprego e para a população LGBT é mais difícil: pessoa LGBT, negra e periférica... eu não me encaixo dentro desse sistema. Quero conseguir uma oportunidade porque sinto que há uma diferença no trato de pessoas dentro do espectro normativo e pessoas LGBT. Tenho um irmão, ele não é homossexual e tem uma facilidade maior para conseguir emprego, mesmo sendo negro, mas ele não performa a homossexualidade. Não é dito claramente, mas é aquela linguagem subliminar que fica no ar, você vai para entrevista mas não te dão nem feedback”, conta.
Já Raiane Cerqueira Santos, 29 anos, realizou a inscrição para o curso de recepcionista com espanhol. Para ela é uma oportunidade de conseguir inserção no mercado e conseguir cursar o ensino superior, que demanda investimento que ela não tem.
“Eu amei porque a gente sabe o preconceito que a gente sofre para procurar trabalho, curso ou qualquer outra coisa. Eu considero até que eu não passo o pior preconceito contra mulheres homossexuais por conta das minhas vestes [mais femininas], mas acontece muito com as pessoas que se vestem de outra forma, mulheres que gostam de se vestir de um jeito mais solto. Quando você demonstra, a pessoa olha e já pensa: essa é da área LGBTQIAPN+”.
Políticas públicas – O presidente do GGB, Luiz Mott, 78 anos, lembrou quando fundou o coletivo em 1980, após sofrer agressão gratuita no Farol da Barra, onde contemplava de forma discreta o pôr-do-sol com o namorado. “No dia seguinte eu decidi fundar o Grupo Gay da Bahia”, contou. Ele enfatizou a necessidade de políticas públicas para empregabilidade da comunidade. “Quando eu fundei o GGB, travesti e homossexual só vivia de prostituição e pista. Agora está mudando, mesmo assim, precisamos de mais políticas públicas. Quantas vezes eu registrei casos de jovens travestis que são rejeitados para emprego logo no início”, disse.
O superintendente de Desenvolvimento do Trabalho da Setre, Rubens Santiago, disse que “é importante compreender que todo esse extrato social que está aqui [comunidade LGBTQIAPN+] é nada mais nada, menos para ser trado como igual”.
“Muitos descumprem isso. Esse governo da Bahia e federal têm políticas para extratos da sociedade que precisam de atenção especial. Em tese, se a sociedade cumprisse isso, não precisaríamos políticas públicas, mas temos preconceito. Se não é LGBT, são negros, são mulheres”.
O superintendente reconheceu que é preciso fazer mais, mas ponderou que há diferença no tratamento entre governos. “Esse movimento é legítimo, de um segmento legítimo, que tem que empurrar [o governo] para realizar as políticas públicas. Vamos pressionar o governo, mas vamos reconhecer a diferença de quem reconhece a necessidade de enfrentar os problemas sociais. Todos somos seres humanos e merecemos respeito e dignidade. Nós não fazemos só política afirmativas, nós incluímos”, disse.