Chegar aos 101 anos de idade com lucidez e disposição para viver já seria o suficiente para render muitas histórias a qualquer pessoa, ainda mais se esta personagem for filha de uma cidade marcada por intensa atividade cultural e tenha se tornado a matriarca de uma família repleta de artistas.
Dona Claudionor Velloso, carinhosamente chamada de Dona Canô, tem muito a contar sobre seus anos de dedicação à sua cidade, Santo Amaro da Purificação, e aos seus amigos e filhos, entre eles, a escritora Mabel Veloso e os cantores Caetano Veloso e Maria Bethânia.
As lembranças e histórias de Dona Canô foram reunidas pelo historiador Antonio Fernando Guerreiro, em parceria com Arthur Assis Gonçalves da Silva, resultando no livro "Canô Velloso - Lembranças do saber viver”, que será lançado nesta sexta-feira (13), às 17h, no Museu Galeria de Arte Caetano Veloso, em Santo Amaro (Recôncavo baiano), e em Salvador, no dia 20, às 19h, no Palacete das Artes Rodin Bahia, no bairro da Graça. Os lançamentos são promovidos pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) e a Secretaria de Cultura do Estado (SEC), por meio da Fundação Pedro Calmon.
“Não é uma biografia, mas sim um registro da memória de Dona Canô sobre os assuntos que tenham feito parte das suas rotinas e vivências ao longo de 100 anos”, explica o autor, que é professor da Faculdade de Ciências Humanas da Ufba.
Na coleta dos dados e nas longas horas de conversa com Dona Canô, Guerreiro contou com a presença e o apoio de Arthur de Assis, falecido em outubro de 2007, antes da finalização da obra. Tanto Guerreiro, como a biografada, dedicam o livro a Arthur.
Encontros
A primeira conversa entre o autor e a homenageada aconteceu em 2006, véspera da celebração dos seus 100 anos. Cheia de entusiasmo pelas comemorações e com a certeza dos muitos anos que ainda teria pela frente, Dona Canô pediu para adiar o processo do livro.
Pedido atendido, as entrevistas que resultaram na obra aconteceram, então, entre março e junho de 2007. Durante este período foram muitas as viagens a Santo Amaro, quando Guerreiro pode conviver com o cotidiano movimentado de Dona Canô.
“Uma agenda sempre cheia, uma vitalidade impressionante e uma atenção constante com tudo o que acontece ao seu redor”, descreve o autor, para quem os encontros foram sempre momentos de muita descontração. “A fala prazerosa foi acompanhada pela alegria de relembrar muitas coisas do passado, tudo revestido por um permanente bom humor. Os risos foram constantes e as gargalhadas, inúmeras”, conta Guerreiro.
Capítulos
As horas de depoimentos de Dona Canô recheiam 214 páginas, incluindo uma galeria de fotos da família, de amigos, de cidades do Recôncavo e de viagens acompanhando os filhos artistas. Ali estão fatos da infância, o casamento com Senhor Zezinho, em 1931, e as comemorações pelos 50 anos de união do casal, o Terno de Reis, a devoção a Nossa Senhora, o nascimento dos filhos, netos e bisnetos.
O livro está dividido em sete capítulos, com os temas essenciais na trajetória da biografada: Recôncavo, Santo Amaro, O petróleo e as transformações do Recôncavo, Família, Salvador, Viagens e, finalmente, Santo Amaro, a volta.
Esta cidade é o tema que mais interessa a Dona Canô, como destaca o autor. “Nada, no entanto, se compara ao interesse pelas coisas de Santo Amaro. Sobre essas, opina de maneira vibrante, faz comparações, rememora acontecimentos, lembra-se de antigos moradores, demonstra vontade de tomar providência”, conta.
O lançamento do livro na cidade natal não poderia ser em data mais oportuna, dia 13 de março, quando os santoamarenses comemoram a emancipação da cidade. O lançamento do livro integra a programação oficial de aniversário da cidade, comemorado nesta quarta-feira (11). Será uma grande festa para o município e para sua filha mais celebrada.
No livro estão as memórias de uma baiana que soube transmitir o gosto pela arte a filhos e netos, o que gerou uma família repleta de artistas como a maior intérprete da atualidade, Maria Bethânia, a sambista Nicinha, os cantores e compositores Caetano Veloso e J. Veloso, a escritora Mabel Veloso, e Rodrigo Veloso, atual secretário de Cultura do município de Santo Amaro. São as lembranças de “uma mulher singular e exemplar”, como define Guerreiro.
Autor
Antonio Fernando Guerreiro de Freitas, 60 anos, baiano de Jacobina, é licenciado em História, mestre em Ciências Sociais e doutor em História pela Université de Paris 4, Sorbonne. É professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia.
Foi um dos fundadores do Centro de Documentação e Memória Regional (Cedoc) da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). É autor do Livro Sá Barreto (2001), sobre um famoso memorialista e tabelião da cidade de Ilhéus, além de co-autor das obras Dicionário de Datas da História do Brasil (2007), Independência do Brasil na Bahia (2005) e Histórias de Salvador nos Nomes das Suas Ruas (2006), entre outras. É membro titular do Conselho Estadual de Cultura, desde 2007.