Maria Teresa Araújo, ou Teresa Cataá, 18 anos, é uma jovem indígena da etnia Cataá que há cerca de seis meses deixou sua comunidade em Rodelas, na região de Paulo Afonso, próximo ao Rio São Francisco, para perseguir o sonho de cursar medicina na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Sua história é um exemplo de perseverança, força de vontade e amor por suas raízes. Criada em uma comunidade de aproximadamente 400 famílias indígenas, Maria Teresa carrega consigo a riqueza da cultura Cataá e a determinação de usar seus conhecimentos para beneficiar seu povo.
A infância de Maria Teresa foi marcada pela união familiar e pelo convívio próximo com seus parentes. “Uma coisa que eu gostava muito da comunidade era isso, porque todo mundo morava muito próximo, tipo, na minha rua só tinha família e isso era muito bom, porque todo dia eu podia ver minha avó, podia ver os meus tios e isso é uma coisa que eu não tenho aqui”, relembra com saudade.
Segundo ela, o Pajé era uma figura central, detentor de grande sabedoria. “Nosso Pajé era muito respeitado, infelizmente ele faleceu já tem acho que uns dois anos. Também tem os nossos caciques que são figuras muito respeitadas, principalmente o mais velho da nossa comunidade. Tenho uma admiração muito grande por eles, gosto muito deles e a gente sempre teve uma relação de muito respeito com os nossos mais velhos, sabe? Eu acho que a gente aprendeu desde pequenininho a saber que eles são pessoas de muito conhecimento”.
Por toda essa história e união familiar, mudar-se para Feira de Santana para cursar medicina representou um grande desafio para Maria Teresa. A distância da família e a adaptação a um novo ambiente trouxeram dificuldades. “Tá sendo muito difícil esse período de adaptação, porque lá eu tinha um contato diário com a minha família, com os meus amigos e aqui eu me sinto muito sozinha porque sou só eu”, desabafa. Apesar das dificuldades, ela se mantém firme em seu objetivo de se formar e retornar para sua comunidade. “Eu me enxergo formada e voltando para lá para atender a minha comunidade e tentar retribuir de alguma forma todos os ensinamentos e tudo que eles passaram para mim e fizeram por mim”, afirma com determinação.
Para alcançar seu sonho e ingressar na faculdade de Medicina, a educação escolar indígena teve um papel fundamental na trajetória de Maria Teresa. Ela estudou do ensino fundamental ao médio na escola da comunidade, onde o ambiente era acolhedor e colaborativo. “O ambiente da escola eu achava muito bom, porque todo mundo se ajudava, não tinha nada de competitividade, era muito bom viver lá”, afirma. A escola não apenas transmitia conhecimentos acadêmicos, mas também reforçava os valores culturais e o senso de comunidade.
E por falar em valores culturais, a cultura Cataá se manifesta em todos os aspectos da vida na comunidade. O Toré, dança ritualística com cantos tradicionais, era praticado semanalmente na escola, transmitindo a história e os valores do povo Cataá para as novas gerações. “Eu gosto muito do Toré. Eu acho um momento muito bonito, porque é um momento em que tá todo mundo integralizado. É como se todo mundo vibrasse em uma mesma intensidade”, descreve Maria Teresa, demonstrando seu apreço por essa tradição.
A comunidade de Maria Teresa, apesar de localizada próxima à cidade de Rodelas, mantinha um estilo de vida mais voltado para o ambiente rural. A principal atividade econômica era a agricultura. “A maioria das pessoas da minha comunidade lá tem roça de coco, que vende para outros estados, para São Paulo”, conta Maria Teresa.
A vida na comunidade, porém, não era isenta de desafios. Um dos momentos mais marcantes na vida de Maria Teresa foi um episódio de doença que afetou um membro mais velho da comunidade. “Foi uma situação que me fez pensar muito, inclusive foi até um dos motivadores, que me incentivou a ter esse sonho mais forte de fazer medicina para voltar para minha comunidade depois”, confidencia Maria Teresa. A experiência a impulsionou a buscar conhecimento na área da saúde para poder ajudar sua comunidade.
A luta pela demarcação de terras também é uma realidade constante na vida da comunidade. “Uma das coisas que mais me marcaram e que mais me marcam até hoje, né, porque ainda tá acontecendo, é a luta pela demarcação do nosso território. A gente tá desde 2017 nessa luta e até hoje nada de sair”, lamenta. A demarcação de terras é fundamental para garantir a preservação da cultura, dos recursos naturais e da autonomia dos povos indígenas.
Maria Teresa é uma inspiração. Para os jovens parentes que, assim como ela, carregam sonhos e aspirações, ela deixa uma mensagem de incentivo e esperança: “Eu diria que tem que se esforçarmuito. Se você tem um sonho, você tem que batalhar, não pode desistir, independente das dificuldades no caminho. Você também tem que saber viver e aproveitar o presente e não desistir nunca, sempre ter esperança, porque uma hora vai dar certo.”