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Biblioteca une comunidade quilombola e valoriza legado cultural

O ano era 1940 quando Vó Dola chegou em Vitória da Conquista, vinda da região de Campo Formoso. Nascida no dia de São Pedro, em 29 de junho de 1925, a rezadeira Maria Petronídia Santos, conhecida como Dola, por ser parteira, dá nome ao primeiro quilombo urbano do Sudoeste Baiano – o Beco de Vó Dola. Quem conta essa história é sua neta Laiz Gonçalves Souza, que hoje é uma das mulheres mantenedoras dessa história ancestral e, aos 37 anos, conserva o legado das mulheres negras, que fundaram o Kilombo Beco de Vó Dola, no bairro das Pedrinhas, também chamado de Cruzeiro, em Vitória da Conquista.

Além de coordenar o terreiro, Laiz tornou-se uma articuladora cultural, fundando a biblioteca comunitária Kilombeco. A ideia nasceu da sua experiência como catadora de materiais recicláveis, quando se deparava com livros e não tinha coragem de descartá-los. “Eu sabia que eles podiam servir para que eu e outros tantos pudéssemos ter acesso a um mundo completamente diferente do que a gente tinha lá no quilombo”, lembra.

Com o crescimento das atividades culturais e educacionais, o espaço no Terreiro de Xangô se tornou pequeno. Em 2024, a Kilombeco foi transferida para um local alugado na comunidade, onde hoje recebe cerca de 80 crianças e adolescentes para aprenderem, além de conteúdos escolares, sobre a história afro-brasileira, suas ancestrais e o enfrentamento do racismo religioso. “As crianças aprendem sobre o orgulho de serem quilombolas e a importância de pertencer a esse lugar”, destaca Laiz.

A Kilombeco foi uma das iniciativas contempladas pelos editais da Paulo Gustavo Bahia, programa do Governo do Estado. Os recursos permitiram melhorar o espaço, comprar equipamentos como notebooks e caixas de som, além de oferecer merenda às crianças, impactando diretamente a vida de mais de 200 famílias da região. Com a ajuda da Fundação Pedro Calmon, a biblioteca ganhou novos livros e equipamentos tecnológicos, transformando-se em um ponto de cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura.

A neta de Dola também trouxe o Programa Universidade Para Todos (UPT) para o quilombo, em parceria com a Universidade do Estado do Sudoeste da Bahia (Uesb). O objetivo é aumentar o acesso de quilombolas ao ensino superior, levando seus conhecimentos ancestrais para dentro das universidades. Ela, inclusive, está cursando uma graduação e sonha em ver mais pessoas da sua comunidade ocupando esses espaços.

O próximo desafio da Kilombeco é participar da FliConquista, a Feira Literária de Vitória da Conquista. Laiz espera levar as crianças do quilombo para o evento, que é apoiado pela Secretaria de Cultura do Estado e promove a democratização do acesso à leitura. “Nosso objetivo é mostrar o trabalho que fazemos e honrar a história de minha mãe e de Vó Dola”, concluiu Laiz.

Com uma trajetória de superação e resistência, a Kilombeco é um exemplo de como a cultura pode transformar realidades, impulsionando o desenvolvimento de uma comunidade quilombola urbana e mantendo vivo o legado ancestral de mulheres negras que lutaram por seus direitos e por mais oportunidades para as futuras gerações.