SETRE

Artesanato quilombola ganha as passarelas da moda fashion

Quando os ancestrais da artesã Januária Celestino chegaram ao Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador, a piaçava era só uma palmeira utilizada na fabricação de vassoura. Mais de um século depois, a mesma matéria-prima serviu de base para a produção de acessórios que ornaram modelos no mais importante evento de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week (SPFW).

Januária nasceu e vive até hoje no quilombo. Nem nos seus melhores sonhos, a artesã poderia imaginar que as peças produzidas por ela e por outras 24 mulheres da comunidade estariam na principal passarela de moda do país. O elo entre a moda e o quilombo foi costurado pelos estilistas baianos Céu e Junior Rocha, graças ao Projeto Collab Artesanato da Bahia com Meninos Rei, iniciativa pioneira do Governo do Estado, por meio da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre).

Usar o fazer ancestral da fibra da piaçava na confecção de acessórios abriu novas possibilidades de geração de renda para a comunidade, onde vivem 289 famílias remanescentes de pessoas escravizadas. “Aprendemos coisas novas, agregamos valor aos nossos produtos, gerando mais renda para nossa comunidade. Esse projeto nos trouxe um novo caminho ao mesmo tempo em que trabalhamos com a piaçava, conhecimento dos nossos antepassados”, disse.

Pertencimento

Para além do impacto na geração de renda, a aquisição de novos conhecimentos é uma busca constante na vida de Januária, artesã que se graduou em pedagogia na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no primeiro semestre de 2024, aos 70 anos.

Quando criança, ensinar era a principal brincadeira no quilombo, onde Januária viveu até os 13 anos. Ainda adolescente, foi trabalhar em Salvador. Aos 16, se mudou para São Paulo em busca de uma vida melhor, e lá permaneceu por nove anos, quando decidiu deixar a capital paulista e voltar para a comunidade. Januária trabalhou na creche do quilombo e passou a ser auxiliar de classe na Escola Municipal Nossa Esperança, também na comunidade

Até o primeiro semestre de 2024, as tardes de Januária eram na sala de aula do curso de Pedagogia, em Salvador. Graduação concluída, as tardes foram preenchidas com as oficinas do Projeto Collab, ajudando a produzir duas coleções de acessórios: uma conceitual e outra destinada à comercialização. Artesã e agora pedagoga, Januária tem um desejo: ajudar ainda mais ao grupo, contribuindo para levar o artesanato produzido na comunidade a novos espaços. Um deles deve ser o desfile da marca no Verão 2025, em Salvador.  “É o reconhecimento pelo nosso trabalho. Esse aprendizado veio para ficar com a gente e isso não tem preço”, concluiu.