Vocacionados: profissionais da Segurança Pública contam suas histórias
Entre a rotina de trabalho, os riscos diários e a renúncia voluntária de momentos familiares, o sargento BM Luiz Gongaza, a subtenente PM Josélia Rodrigues dos Santos, o perito técnico Antônio Sande e o delegado de Polícia Ricardo Amorim, têm algo a mais em comum: atenderam ao chamado para servir ao próximo, missão essa que somente os mais vocacionados são capazes de executar com maestria.
Quando decidiu seguir a carreira militar, há 24 anos, Gonzaga já era pai de duas filhas e sua única renda vinha de uma pequena oficina de bicicletas. O desejo de oferecer uma vida melhor às meninas o impulsionou a dar o primeiro passo para ingressar na corporação. Com apoio de familiares e amigos, ele conseguiu pagar um cursinho preparatório e a inscrição para o concurso. Nesse tempo, um conselho que escutou várias vezes ficou fixado na memória: “faça valer a pena”.

Foram 120 mil candidatos inscritos, mas o bombeiro conseguiu garantir seu espaço na entidade. “Me dediquei, estudei e fiz valer a pena. Hoje, tenho três filhos e as duas mais velhas desejam seguir a carreira militar”.
Bombeiro há 19 anos, Luiz Gonzaga, ainda como aluno, no 3º Batalhão de Bombeiros Militar (BBM/Iguatemi), foi chamado para operação de combate aos incêndios florestais na Chapada Diamantina, onde se apaixonou pela beleza local e pela ação de preservação da natureza.
“Todos os anos participo do combate aos incêndios florestais”, reforça ele, que fez parte da primeira turma do Curso de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (CPCIF), em 2016. Atualmente, Gonzaga é especialista na área e opera como instrutor de formação.
Quem escolhe ingressar no Corpo de Bombeiros precisa estar preparado para qualquer desafio, não à toa que o lema da corporação é ‘Vidas Alheias e Riquezas Salvar’. Em 2024, por exemplo, uma das principais missões de Gonzaga ocorreu no dia 1º de maio. Nessa data, o relógio marcava 22 horas, quando ele recebeu a ligação informando que estava entre os bombeiros baianos escalados para atuar no resgate às vítimas das chuvas no Rio Grande do Sul.
Ele conta que só teve a real dimensão do evento trágico ao desembarcar em Porto Alegre. O retrato vivido na memória do profissional foi pintado pelo amor ao próximo demonstrado por aqueles cidadãos que, embora tenham enfrentando os resultados negativos das cheias, tiveram força para somar esforços com os grupos humanitários.
Da lousa à farda marrom
Como Gonzaga, a subtenente PM Josélia Rodrigues dos Santos assumiu diferentes tarefas ao longo das mais de duas décadas de carreira, desde as mais operacionais, garantindo a tranquilidade dos baianos, até aquelas cujos objetivos eram transformar a sociedade.
Formada em pedagogia com especializações nas áreas da educação, de gestão pedagógica e de segurança pública, em 1998 ela decidiu trocar a lousa e a gestão educacional pela farda marrom e o coturno. Participou do processo para ingresso na Polícia Militar da Bahia e conquistou a vaga. “Quando a gente foca e tem um objetivo, a gente vence”, frisou.
Ainda enquanto educadora, havia atuado em comunidades sensíveis. Ela lembra com carinho da participação na criação de unidades escolares e como agregou esse saber à função policial. “Sempre trabalhei em atividade operacional, vi a possibilidade de realizar um trabalho conjunto: o de policiamento, e também em atividades escolares”. Mais tarde, transferida para a ilha, em 2003, começou a fazer, nas folgas, atividades de prevenção nas escolas.
Além das ações voltadas para jovens, a equipe também desenvolve projetos de prevenção para acolhimento dos pais. “Criamos o projeto ‘Caravana de Responsabilidade Cidadã’, que ganhou o selo da Superintendência de Prevenção à Violência da Segurança Pública”.
Ao falar dos projetos desenvolvidos com crianças e adolescentes, Josélia fica repleta de orgulho. “Acredito na educação como transformadora social, e acredito no policial”, frisou.
Combate ao racismo e representatividade
Na escola, o jovem Ricardo Amorim da Silva Santos ainda estava indeciso sobre qual carreira iria se dedicar. Inicialmente, ele pensou em psicologia, mas ingressou na formação de Direito e, quando chegou à metade do curso, percebeu o desejo de ser delegado de polícia. Fez provas para atuar em outros estados, mas foi aprovado na Polícia Civil da Bahia, terra onde nasceu, assumindo a função em 2016.
Passou por diferentes unidades e, em 2024, abraçou uma nova missão: ser titular da Coordenação Especializada de Repressão aos Crimes de Intolerância e Discriminação (Coercid) do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV), da Polícia Civil.
“Sempre digo que não sou um delegado negro. Sou um negro que é delegado”. Ele relata algumas formas de discriminação que sofreu. “Passei por situações de discriminação por acharem que eu não era delegado. Fui atendido de forma grosseira, enquanto pessoas brancas eram atendidas de melhor forma. Já teve momento de perceber alguém escondendo a bolsa e tudo mais”, lembra.
Para ele, a vivência ajuda no combate aos casos de intolerância e discriminação, providos de uma subjetividade muito grande. “Muitas vezes a pessoa tem dificuldade de perceber que existe um crime na situação. Trabalho para fazer as coisas acontecerem e acredito que posso fazer pelo menos um pouquinho para melhorar a sociedade”, garante.
Sempre disponível, o profissional é acionado para acompanhar ocorrências, fazer o acolhimento ou realizar a oitiva. O policial também realiza palestras para orientação da população, visitas em terreiros, igrejas, grupos de movimentos sociais e eventos, para orientar e colocar a unidade e seus servidores à disposição. Ele também orienta colegas de instituição para recepção de ocorrências nas diferentes regiões do estado.
Realização
Mudanças constantes de cidade na infância fizeram o perito técnico Antônio Sande crescer com o desejo de fincar raízes. Além de Salvador, ele acompanhou os pais em Ilhéus, no Sul baiano, Aracaju e Itabaiana, cidades do estado de Sergipe. Os apertos da vida o levaram a optar pela estabilidade territorial oferecida pelo serviço público.
A virada de chave em sua vida aconteceu através da Educação. Morador de Cajazeiras, o profissional estudou em escolas do bairro, passou por educação técnica e, na faculdade de Administração, decidiu fazer concurso público.
Já perito, retornou para Cajazeiras, em 2009, onde assumiu o serviço do Instituto de Identificação Pedro Mello (IIPM), do Departamento de Polícia Técnica. Lá, se orgulha de ter atendido pessoas vulneráveis do bairro onde cresceu. “Muitos sabiam que eu estava na unidade do SAC e me procuravam para buscar orientação”, lembra.
Sande é movido pelo desejo de fazer a diferença na vida das pessoas e realiza isso através do trabalho. No dia a dia, é atento aos processos, mas as iniciativas itinerantes para comunidades distantes e rurais lhe oferecem ainda mais alegria. “Estar in loco e ouvir o retorno positivo das pessoas é o que me satisfaz”, frisou. Participou da elaboração de projetos para atender vítimas das fortes chuvas, na Bahia, e pessoas em situação de rua durante a pandemia da Covid-19 que, por ausência de documentação, não conseguiam ter acesso às vacinas. Cerca de 20 mil pessoas conquistaram dignidade e cidadania. “Hoje, estou satisfeito com o que conquistei”, garante o perito.