Ajuda oficial à produção de "insetos estéreis"
Laboratório a ser implantado em Juazeiro, Bahia, produzirá 200 milhões de moscas-da-fruta por semana.
Os principais financiadores da construção de uma fábrica de insetos estéreis para combater pragas da fruticultura nacional se comprometeram a desembolsar, no próximo ano, R$ 7 milhões para consolidar o projeto, que vai funcionar no pólo agrícola de Juazeiro, na Bahia, região do sub-médio São Francisco. Os recursos, assegurados recentemente nos planos Plurianial (PPA) dos governos baiano e federal, eqüivalem a 41% do orçamento total do empreendimento Biofábrica Moscamed Brasil, concebido para entrar em operação em maio de 2005.
"A inclusão do projeto nos PPAs nos dá a segurança de que essa iniciativa está sendo considerada prioritária pelos governos e sua consolidação é irreversível", comentou o presidente da organização social Biofábrica Moscamed do Brasil, Aldo Malavasi, que participa, em Fortaleza (CE), da décima semana internacional da fruticultura, floricultura e agroindústria (Frutal). O empreendimento já dispõe de prédio de 5 mil metros quadrados, instalado numa área total doze vezes mais ampla, e técnicos estão sendo treinados na Áustria.
Como funciona
De acordo com Malavasi, a meta é começar as obras de adaptação do prédio em janeiro e depois iniciar a montagem dos equipamentos da Biofábrica - que, inicialmente, terá capacidade para produzir semanalmente 200 milhões de moscas-das-frutas (moscamed ou ceratatis capitata); 15 milhões de lagartas-das-maçãs (cydia pomonella), além 5 milhões de vespas para serem utilizadas no controle biológico de insetos. Com investimento adicional de R$ 3 milhões, numa segunda etapa, será possível dobrar o potencial da fábrica.
O funcionamento da biofábrica está baseada na Técnica do Inseto Estéril (TEI). Essa metodologia, no caso da mosca-das-frutas, consiste em submeter machos a raios gama, a partir de uma fonte de cobalto, para torná-los estéreis. Soltos em grandes quantidades nos pomares, eles fecundam as fêmeas mas os ovos gerados são inférteis, quebrando o ciclo reprodutivo. O resultado é diminuição acentuada da população de moscas, sem a utilização de inseticidas ou riscos à saúde humana.
A fabricação de insetos estéreis, especialmente da mosca-das-fruta, é considerada vital para o futuro da produção de frutas brasileira, avalia o coordenador do setor de irrigação da Secretaria da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Seagri), Francisco Zuza. Sem a metodologia TEI os exportadores nacionais continuarão sujeitos a barreiras fitossanitárias no mercado mundial de frutas frescas, que movimenta cifras superiores a US$ 20 bilhões/ano.
Além de barreiras interpostas para o acesso a mercados como Japão e Estados Unidos, as pragas implicam em prejuízos expressivos no rendimento da lavoura e na comercialização da safra. Aldo Malavasi diz que a mosca-das-frutas causa um prejuízo anual de US$ 60 milhões ao Brasil, cujas exportações de frutas frescas em 2002 somaram US$ 241 milhões. Mundialmente as perdas se aproximam dos US$ 2 bilhões/ano.
"É um problema sério para o Brasil e, especialmente, para as regiões semi-áridas, onde a fruticultura se constitui, hoje, na principal fonte de geração de renda em emprego", observa Malavasi. Segundo ele, um ano após o funcionamento da fábrica já será possível observar redução expressiva na infestação de pragas nos pomares e a distribuição dos insetos estéreis vai permitir contemplar, indistintamente, pequenas e grandes propriedades.
Além de atender todos os pólos de fruticultura nacionais, a unidade também está sendo concebida com vistas ao mercado internacional. "Existem poucas fábricas do tipo no mundo e demanda por insetos estéreis é elevada. Espanha e Israel e África de Sul necessitam de 350 milhões de machos da mosca por semana", assinala Malavasi. Segundo ele, a biofábrica brasileira será competitiva, em função dos custos reduzidos de produção. "Um dos nosso insumos será o bagaço da cana-de-açúcar, abundante e barato", argumenta.
Enquanto a produção mais econômica do mercado está na casa dos US$ 210 por milhão de moscas a unidade em Juazeiro da Bahia terá capacidade para fabricar a mesma quantidade de insetos ao custo de US$ 150. "Considerando que o milhão de moscas custa US$ 230 no mercado internacional, teremos sobra de US$ 80 por milhão negociado. Isso praticamente vai permitir pagar o custeio da Biofábrica Moscamed e repassar preços especiais para os produtores".