Como detectar a ferrugem da soja
Dificuldade de identificar a doença gera gastos com aplicações desnecessárias de fungicida
Fernanda Yoneya
A identificação correta da ferrugem da soja é uma das principais dificuldades que o produtor enfrenta no combate à doença. Na safra passada, dados do Consórcio Antiferrugem mostraram que, em Goiás, de todas as amostras analisadas pelos laboratórios, a ferrugem foi diagnosticada em apenas 30% dos casos. "A primeira interpretação desse número é a de que os produtores estão, de fato, monitorando as lavouras", afirma a pesquisadora Claudine Seixas, da Embrapa Soja.
Esse mesmo dado mostra, entretanto, que os agricultores estão tendo dificuldades em reconhecer a doença e, pior, podem ter feito aplicações desnecessárias de fungicidas, aumentando desnecessariamente os custos. "Isso reforça ainda mais a importância de fazer a identificação correta da doença, antes de iniciar o controle. Ter a certeza de que o fungo está presente na lavoura é um passo importante", explica o gerente de Pesquisa do Centro Tecnológico para Pesquisa Agropecuária (CTPA), José Nunes Júnior.
DOENÇAS QUE CONFUNDEM
Segundo a Embrapa Soja, existem, atualmente, 40 doenças registradas nas plantações de soja e muitas delas apresentam sintomas semelhantes aos da ferrugem. Especialmente no estágio inicial da doença, quando esses sintomas ainda são muito discretos, pode-se facilmente errar o diagnóstico. "Antes de mandar a amostra para o laboratório, há um procedimento simples, que poderá ajudar na correta identificação da doença (Veja quadro) e seu posterior controle", diz Claudine.
Além disso, o agricultor deve ter atenção redobrada em locais que apresentem condições favoráveis para o surgimento da ferrugem, como áreas com muita umidade e com plantas mais velhas. E, embora potencialmente a doença possa se manifestar em qualquer estágio do plantio, a fase reprodutiva é considerada a mais sensível. "O fungo é altamente dependente dessa umidade, mas deve-se fazer o monitoramento completo", recomenda a pesquisadora. O monitoramento, que é a vistoria constante da lavoura, se feito de forma adequada, auxilia o produtor no diagnóstico correto.
Durante o monitoramento, a recomendação é observar a parte de baixo das folhas, também conhecida como terço inferior ou médio ou folhas do baixeiro, que é o local onde a doença começa. Pode-se, então, coletar algumas folhas e colocá-las contra a luz, verificando se há pontos escuros. Esses pontos escuros irão, futuramente, formar pequenas saliências (vulcõezinhos), que é o sintoma característico da ferrugem. Essa observação pode ser facilitada com uma lupa, que deve ter capacidade de aumento de 10 a 20 vezes.
SALIÊNCIAS
"O fungo entra na folha e mata suas células. O ponto escuro significa que o fungo já está instalado. Ele então forma essa saliência, que é sua estrutura de reprodução", explica Claudine, da Embrapa. Se já houver saliências, o produtor pode ter a certeza de que se trata de ferrugem. "Somente a presença de pontos escuros pode ser alguma doença bacteriana", exemplifica a pesquisadora, e acrescenta: "As saliências matam a charada."
As visitas, durante o período vegetativo, podem ser feitas a cada cinco dias. Na fase reprodutiva, deve-se reduzir esse intervalo. "Aqui, o que vale é o bom-senso. O produtor deve observar as condições da própria lavoura e procurar saber sobre a situação de regiões vizinhas, antes de tomar qualquer providência. A aplicação de fungicida por conta própria, que deve ser muito criteriosa, pode resultar em prejuízos desnecessários."
Em grandes áreas, em que o monitoramento seja inviável, uma alternativa é montar uma unidade de alerta, que irá funcionar como uma área-teste para o produtor. Montar uma unidade de alerta é semear, cerca de 30 dias antes da semeadura normal, uma pequena área. "Como os sintomas da ferrugem são observados, normalmente, após o florescimento, essa área tende a apresentá-los antes da lavoura comercial. Dessa forma, o produtor tem uma ferramenta a mais para se prevenir", afirma a pesquisadora.
APLICAÇÃO PREVENTIVA
A aplicação preventiva de fungicidas, adotada por muitos produtores, também exige cautela. "Em casos de áreas vizinhas infectadas, muitos agricultores fazem esse tipo de aplicação, mas o procedimento não é o mais aconselhável. A principal recomendação é seguir com o monitoramento constante e sempre consultar um profissional, que dará a devida orientação", alerta Claudine. Para Nunes Júnior, tanto na aplicação preventiva quanto na curativa (feita quando o fungo já está presente na lavoura), o monitoramento é indispensável. "O ideal é, identificada a ferrugem, saber quando e como aplicar o fungicida", completa.
SAIBA MAIS: Embrapa Soja, tel. (0--43) 3371-6000 ou site: www.cnpso.embrapa.br/alerta; CPTA, tel. (0--62) 3202-6058