Queimadas pode ser feita mas somente se for autorizada
Viajando pela região de Jaguarari, o técnico agrícola João Moacir dos Santos viu sinais de fogo no pé da serra. Apesar do trabalho educativo feito pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), de Juazeiro, ondeMoacir trabalha, queimadas ocorrem, principalmente com o objetivo de preparar a terra para o pastejo.
O quadro se repete nas áreas rurais de Monte Santo e Euclides da Cunha. Perto de Jacobina e Senhor do Bonfim, os agricultores mantêm a prática sem orientação técnica, autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), afirma João Moacir.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados pela Embrapa Monitoramento, mostram que na primeira semana de julho foram registradas seis grandes queimadas, todas no oeste. Para o chefe da agência da Embrapa, em Campinas (SP), Evaristo de Miranda, isso se deve à expansão da agricultura na Bahia.
“Com as queimadas, a terra endurece, os microorganismos do solo morrem, os minerais, voláteis como são, se esgotam e, conseqüentemente, o solo perde a fertilidade”, alerta João Moacir dos Santos. Também, o ar fica poluído, a rede elétrica em perigo e o fogo pode passar para propriedades vizinhas, alerta o Programa Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo).
O técnico do Irpaa explica que basicamente as queimadas são feitas no semiaacute;rido, primeiro, no preparo de áreas para pastejo – depois do fogo, as gramíneas nascem mais rápido. Depois, os agricultores ainda vêem nas queimadas uma forma de desmatar novas áreas para o plantio ou de limpar o solo para novas culturas.
Além da falta de conhecimento de técnicas mais adequadas à preparação da terra para a agropecuária, Moacir afirma que há um fundo cultural muito forte na recorrência às queimadas. Segundo ele, o sertanejos dão ao fogo um valor simbólico de purificação da terra.
“A queimada é uma tradição indígena, em que os índios utilizavam o sistema de roças itinerantes.
Eles abandonavam um local para plantar em outro e faziam as queimadas na área já utilizada, que ficava parada de 10 a 15 anos”, resgata Moacir.
O técnico explica que, a longo prazo, a própria natureza se encarrega de repor os nutrientes perdidos na queimada, mas o ritmo atual da agricultura torna a prática ineficaz. "Com a evolução da atividade agropecuária, as queimadas foram sendo substituídas por práticas mais modernas e menos agressivas para o solo".
Ele aponta, como alternativa ao uso do fogo, a manutenção da palha seca para proteger a terra da aridez ou da chuva em excesso. A palha evita a evaporação e, depois, transforma-se em nutriente para o solo, afirma Moacir, que aconselha também o cultivo do angico e da aroeira, plantas que a curto prazo ajudam a conservar o solo e, a médio e longo, podem servir para extração e exploração econômica.
Técnicos da Embrapa Monitoramento por Satélite sugerem, como alternativa às queimadas, a diversificação de espécies forrageiras na propriedade.
Caso o produtor deseje fazer a queimada em sua propriedade, especialmente para limpeza do pasto, é preciso contatar o Ibama na região, que agenda visita ao local e autoriza ou não a queimada.
Quem pratica queimadas na lavoura ou pastagens sem o acompanhamento do Ibama pratica crime ambiental e pode ser penalizado com prisão de 3 a 6 anos.
JAIR FERNANDES DE MELO