Em três anos de estudos científicos feitos nos fragmentos de Mata Atlântica em torno da Represa Joanes/ Ipitanga, no município de Salvador, o pesquisador Milson Batista concluiu ter encontrado ali seis espécies de abelhas do grupo meliponini (que não têm ferrão) ainda desconhecidas da ciência. A pesquisa mostrou também que nesses remanescentes estão uma das maiores diversidades deste grupo biológico em toda a região neotropical (entre os trópicos de Câncer e Capricórnio). Dentre as espécies conhecidas foram identificadas 17 em 165 ninhos de onde foram coletadas amostras de abelhas que hoje estão na coleção do Laboratório de Ecologia da Polinização do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia.
O trabalho foi feito pela técnica de amostragem exaustiva, na copa das árvores, numa área de 11,3 hectares. A pesquisa deu a Milson, biólogo formado pela Universidade Federal da Bahia, o título de mestre em Ecologia concedido pela Universidade de São Paulo que patrocinou os estudos.
O pesquisador afirma ter consultado vasta bibliografia sobre abelhas para concluir a dimensão do seu achado. Ele afirmou ter consultado mais de 200 fontes sobre este grupo de abelhas na região neotropical e não ter encontrado número superior de espécies em área específica como a que encontrou em Joanes/Ipitanga.
PARALEL A – O trabalho de Milson faz parte de um programa de pesquisa do Laboratório de Ecologia da Polinização (Ecopol) do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia. Coordenado pelo professor doutor em Ecologia,Mauro Ramalho, o programa dedica-se à análise comparativa da diversidade de abelhas nos remanescentes de habitats naturais. “Era preciso ver o que está acontecendo em fragmentos ilhados em áreas urbanas”, afirmou Mauro.
Os altos índices de diversidade de abelhas em remanescentes florestais de Salvador chamaram a atenção dos biólogos e outros estudos foram feitos abrangendo fragmentos da Mata Atlântica em torno da Avenida Paralela. No parque de Pituaçu foram feitas cerca de três mil coletas e encontradas cerca de 100 espécies de abelhas de variados grupos. No Stiep, outras 50 espécies foram achadas transitando nas dunas em remanescentes de restinga.
Em matas como as que ficam em torno do antigo Parque Wet´n Wild e no 19º BC, no Cabula, a pesquisadora Tatiany de Andrade Oliveira encontrou um grupo de abelhas com uma íntima relação com orquídeas. Nessas flores, que crescem geralmente em árvores que lhes servem de apoio para buscar luz, as abelhas “euglossinis” machos buscam a substância que as tornam mais atraentes para as fêmeas.
Neste processo elas atuam também como polinizadoras das orquídeas contribuindo para sua propagação na natureza.
Nessa busca, essencial para a sobrevivência das espécies, as abelhas chegam a percorrer até 40 km em um só dia em visita às flores das matas dos fragmentos estudados em torno da Avenida Paralela.
“Tratam-se de relações ecológicas que demonstram a qualidade ambiental dessas áreas” afirmou Milson, que diz ter se lançado a esses estudos para desmistificar a tese de que as matas próximas a áreas urbanas têm baixa biodiversidade.
DESMATAMENTO Para o orientador das pesquisas do Ecopol, Mauro Ramalho, só pela preservação das abelhas valeria não se desmatar mais nada naquela área. Ele se refere ao risco que os remanescentes da Mata Atlântica da Paralela estão correndo de desaparecerem para dar lugar a novos loteamentos como o Alphaville, onde foram desmatados ... hectares de vegetação nativa.
Ramalho defende a idéia de que essas áreas devessem ser destina das ao uso público, com aproveitamento para atividades de lazer, pesquisa científica e educação ambiental. “É um privilégio ainda termos remanescentes de Mata Atlântica numa cidade deste tamanho e parece que a sociedade não sabe o que fazer com isso”, afirmou ele. Originário da capital paulista, ele vê a tendência de Salvador repetir “os erros de São Paulo”, onde a paisagem natural foi quase completamente extinta pelo crescimento urbano. “Hoje, sabe-se que crescimento de cidades não significa desenvolvimento e eliminar as áreas naturais para qualquer tipo de ocupação é apostar em um futuro com baixa qualidade de vida“, afir mou.
Segundo Mauro, a vegetação presta serviços à cidade, como absorção da água de chuva evitando alagamentos, absorção de calor e conforto ambiental proporcionado pela paisagem natural.
Espécies novas de abelhas são encontradas em Salvador (A Tarde)
18/07/2006
Espécies novas de abelhas são encontradas em Salvador
MAIZA DE ANDRADE