Praga põe em risco exportação de frutas

12/12/2006

Praga põe em risco exportação de frutas

 

 

Uma mosca exótica, de abdome amarelado e originária do Sudeste Asiático, virou o centro de uma queda-de-braço entre Brasil e autoridades agrícolas francesas. Em questão está um potencial prejuízo de US$ 100 milhões para as exportações de frutas brasileiras atingidas pela praga, cujo primeiro foco foi detectado há exatos dez anos no Norte do país. 


A mosca-da-carambola (Bactrocera carambolae) chegou ao Oiapoque, no Amapá, pela fronteira com a Guiana Francesa, território francês. Encontrou seu primeiro hospedeiro na carambola, fruta sem grande importância comercial no Estado mas presente na maioria dos quintais amapaenses. Hoje ampliou suas preferências para 11 frutas, entre elas goiaba, graviola e manga. 


"O maior meio de propagação de pragas é o homem", diz Ricardo Adaime da Silva, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa do Amapá, citando o trânsito de pessoas com frutas para consumo na fronteira. 


De 2001 até meados do ano passado, Brasil e França trabalharam juntos no combate a essa espécie por meio de um protocolo bilateral que previa a ajuda de fiscais brasileiros no monitoramento e controle da praga na Guiana. Em agosto de 2005, porém, o governo francês revogou o protocolo sob a alegação de que o inseticida malation utilizado pelo Brasil é proibido na Europa. 


"Desde então tentamos fazer com que os franceses voltem atrás já que esse método é internacional e o mais eficaz para combater a praga", diz Maria Julia Godoy, do Programa de Erradicação da Mosca-da-Carambola do Ministério da Agricultura. 


A falta de ações de combate dos países vizinhos - o Suriname também tem focos da praga - acaba limitando o sucesso dos esforços de erradicação dos fiscais do Ministério da Agricultura e dos pesquisadores da Embrapa. Segundo Adaime, a Embrapa deverá dar o sinal verde ainda este ano para a formação de uma rede amazônica de pesquisa para mitigação dos riscos. A proposta é saber três pontos considerados cruciais para a erradicação: em que plantas a mosca vive, como a sua população se comporta ao longo do ano e quais são os seus inimigos naturais no habitat. 


"Até agora tivemos sucesso em deter a mosca-da-carambola no Amapá, mas se ela furar o cerco e migrar para pólos frutíferos exportadores , como o Vale do São Francisco e a região de citricultura do Sudeste, o prejuízo chegará a US$ 100 milhões", diz Adaime. 


A maior preocupação do governo brasileiro está em Santana, cidade a menos de 100 quilômetros da capital Macapá e que abriga o único porto do Estado. "De lá saem navios para Belém do Pará, e se [a praga] for para lá ninguém mais segura. Corremos grande perigo se isso acontecer", acrescenta Alfredo Bezerra da Silveira, superintendente do Ministério da Agricultura no Amapá. 


Os prejuízos se dariam devido às exigências dos países importadores de frutas in natura quanto à qualidade do produto - regras internacionais proíbem o comércio de frutas com larvas, mesmo sendo inócuas à saúde humana. "Muitos países impõem barreiras não-tarifárias para impedir a introdução de espécies exóticas em seus territórios", diz Adaime. 


Segundo o governo, o Japão é um dos países mais atentos aos focos de mosca-da-carambola no Brasil. "Tivemos que assegurá-los que a praga está isolada no Amapá, que fica a 2.100 quilômetros de distância de Petrolina [de onde embarcam mangas e uvas para aquele país]", diz Maria Júlia. 


Até agora, a técnica mais eficiente de controlar a mosca-da-carambola é o aniquilamento do macho. Armadilhas como iscas de algodão são embebidas numa mistura de paraferomônio metil-eugenol (uma imitação do cheiro das fêmeas) e inseticida, que atrai e mata, reduzindo a tamanho da população de machos. 


Além da falta de ajuda dos vizinhos, o orçamento pequeno (R$ 600 mil) do governo e a equipe enxuta de 15 fiscais e pesquisadores retardam a erradicação da praga.