Riscos abalam prestígio dos orgânicos
A revolução verde ajudou a alimentar o mundo, mas o uso extensivo de agroquímicos provocou uma forte reação por parte dos consumidores. As intoxicações dos trabalhadores no campo e a contaminação dos alimentos tornaram os efeitos negativos mais evidentes. Essas seriam algumas das razões do sucesso alcançado pelos produtos orgânicos, o seja, produzidos sem qualquer agroquímico.
Um dos principais méritos dos orgânicos é a sua vocação para a agricultura familiar. A renda no campo é reforçada. Com o prestígio alcançado, o produto chega a valer 30% mais que os cultivados pelos métodos convencionais. Permite ainda, como alternativa, a venda direta ao consumidor, prescindo de intermediários que costumam comprimir os preços para garantir e elevar suas margens.
O sucesso foi reforçado pela resistência da opinião pública às mudanças e aos produtos geneticamente modificados, os transgênicos. Mas o prestígio dos orgânicos começa a ser abalado. Alguns caso de contaminação de consumidores nos Estados Unidos e na Inglaterra serviram de alarme.
O cultivo de alimentos sem a aplicação de adubos químicos e agrotóxicos estaria contribuindo para colocar em risco a saúde pública. Germes já quase inexistentes na natureza estariam se proliferando, por causa dos adubos orgânicos, levando centenas de pessoas aos hospitais.
A engenheira agrônoma especializada em segurança alimentar, PhD. em Genética e diretora executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, Alda Lerayer, não vê motivo para alarde. Para ela, a produção de orgânicos deve receber cuidados para evitar a contaminação. Existem riscos, sim. Como a contaminação pela salmonela, uma das causas mais freqüentes de intoxicação alimentar. Ou pela escherichia coli que pode levar homens e animais à morte. Tudo isso pode ser evitado com alguns cuidados no preparo do adubo orgânico, garante Alda.
A seguir alguns trechos da entrevista concedida por Alda Lerayer à Gazeta Mercantil:
Gazeta Mercantil - Os riscos alardeados sobre os produtos orgânicos são reais?
Alda Lerayer - Sempre há riscos, como os produtos da agricultura convencional, que utiliza agroquímicos.
Gazeta Mercantil - Como podemos nos precaver dos riscos da contaminação?
Basta realizar uma compostagem (tratamento dos resíduos orgânicos utilizados como adubo) de forma adequada. As bactérias são eliminadas a 60 graus centígrados, temperatura alcançada durante o tratamento dos restos das lavouras e dejetos de animais. Basta seguir o receituário agronômico.
Gazeta Mercantil - Os orgânicos oferecem mais riscos que a agricultura convencional?
Os riscos sempre existem, sejam lavouras orgânicas ou convencionais. No passado, a agricultura convencional se constituía numa grande ameaça para o meio ambiente, quando se utilizavam indiscriminadamente agrotóxicos que permaneciam no meio ambiente indefinidamente e foram banidos. Hoje, aplicam-se defensivos que, teoricamente, desaparecem da natureza.
Gazeta Mercantil - Mas esses defensivos são realmente seguros? Não sobram resíduos?
Todo produto químico deve ser usado com cautela. Risco sempre há. O maior deles é a intoxicação do trabalhador do campo, que aplica o produto. Mas, em tese, cumprida a carência, os alimentos ficam adequados ao consumo.
Gazeta Mercantil - Isso também se aplica ao glifosato?
Há estudos que demonstram que esse herbicida se degrada no solo, que o seu tempo de permanência na natureza é restrito.
Gazeta Mercantil - E os defensivos usados pela agricultura orgânica são seguros?
Para defender as lavouras das pragas utiliza-se o piretróide, cuja matéria-prima é o crizântemo. O produto é tão tóxico quanto o químico. Como pó, o defensivo é sintético, como os convencionais.
Gazeta Mercantil - Existe forma de produzir orgânicos sem defensivos tóxicos?
Impossível. Quanto mais exuberante é a fruta ou o legume, mais é atraente para os insetos e precisam ser protegidas por algum tipo de defensivo. Essa é a razão que o cultivo de orgânico é mais adequado à pequena propriedade. Precisa ser vigiada diariamente.
Gazeta Mercantil - Qual a garantia de que o produto não está contaminado?
Existem empresas certificadoras que devem fiscalizar a produção e o consumidor deve ser informado disso.
(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 12)(Isabel Dias de Aguiar)